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    Letra A
    by Rafael Fais

    Luta contínua
    13/06/2016


    A recente morte de Muhammad Ali me fez voltar a “A luta” (1975), livro em que Norman Mailer, um dos precursores e expoentes do chamado jornalismo literário, relata aquela que ficou conhecida como “a luta do século”, travada no antigo Zaire (hoje Congo), em 30 de outubro de 1974, entre Ali e George Foreman. Diante de um público de 60 mil pessoas, os dois disputaram o título mundial dos pesos pesados, que Cassius Clay, como Ali se chamava antes da sua conversão ao islamismo, tinha perdido por se recusar a servir no Vietnã. Ele, o desafiante, nocauteou Foreman, então campeão e ex-combatente da guerra, e recuperou o título de melhor boxeador do mundo. A luta, é claro, virou uma espécie de representação das tensões políticas dos anos 1970, nos Estados Unidos.

    Durante a cobertura do evento, Norman Mailer foi, por assim dizer, tão lutador quanto Ali e Foreman: também “apanhou” na sua luta contra as “equipes” que se aglomeram em volta dos personagens que ele queria entender e desvendar. Eram os assessores que tumultuavam o hotel onde Ali e Foreman se hospedaram, os restaurantes onde jantaram, a frente da porta de seus quartos.

    Quem vence é o leitor, que experimenta como o jornalista se desdobrou para poder contar essa história. Claudio Weber Abramo, no posfácio do livro, identifica muito bem a artimanha do gigante Mailer em se transformar também num personagem da história ao ampliar a narrativa em primeira pessoa. Mas como ele fez isso? Mailer tratou a si mesmo como a pessoa que os outros pensavam que ele era. Melhor ficarmos com Abramo e sua capacidade muito maior de tornar esse processo inteligível: “Num texto desse tipo, a persona do repórter fica incorporada no narrador. Porém, Norman Mailer é também personagem, referido na terceira pessoa – de modo que o narrador, que sabemos ser preposto de Mailer, fala de alguém que se chama Norman Mailer, de seus pensamentos e atitudes, às vezes com o estranhamento peculiar à descoberta de algo insuspeito em alguém que se conhece há bastante tempo. Desse modo, as especulações do personagem Mailer sobre as motivações de outros e as observações sobre si próprio são dadas a conhecer ao leitor pelo discurso de um narrador que se confunde, e que não se confunde, com esse mesmo personagem.

    A leitura desse posfácio e da narrativa de Mailer me trouxe uma pergunta: em quantos temos que nos desdobrar para dar conta da tarefa de escrever jornalismo, nesta época em que a atividade parece estar em contínua travessia (de um ponto conhecido para... onde?)? O autor de uma reportagem metódica e importante, que atenda aos chamados sociais do jornalismo, é o mesmo que precisa brincar ao “tratar” seu texto e sua chamada nos sites e nas redes sociais. Criatividade é o que pedem os editores para o trabalho do jornalista ganhar cliques e relevância para o m.e.r.c.a.d.o. Maldição ou oportunidade, o fato é que o jornalismo, assim como os demais conteúdos que estavam apenas no mundo físico, agora está também nos dados e nas nuvens organizadas pelos algoritmos que decidem o que chega e o que não chega às timelines do Facebook, por exemplo, como fica bem explicado nessa reportagem do New York Times, assinada por Ravi Somaiya.

    Norman Mailer foi um dos jornalistas-escritores que já percebiam a informação como algo que deveria não só ser relevante para o público, mas também apresentado de uma maneira atraente e criativa. Para ele, Truman Capote, Lilian Ross e cia., o texto poderia ser repleto de recursos literários, porém as matérias-primas continuavam sendo notícia e informação. Hoje, será que vamos dar conta de manter o jornalismo com os pés no chão enquanto os dados estão nas nuvens? Como chamar a atenção dos leitores e oferecer a eles uma história saborosa sem apelações e sem esquecer o compromisso com os fatos? Autores como Mailer podem nos ajudar.


    * Uma versão anterior deste texto foi publicada no blog do autor.


    @rafaelfaisjorn


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