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    Especial Terra em Transe - crise política

    Princípio de corrupção
    Leandro Schallenberger
    06/04/2016


    Não está fácil! Neste momento de divisão de opiniões e de certezas absolutas, pró e contra o impeachment, é preciso observar com serenidade os acontecimentos, cada vez mais intensos. Nossa democracia ainda engatinha, e há muito que aprender com a liberdade de escolher governantes. A convivência democrática de ideias e pensamentos diversos ainda não foi assimilada pela grande maioria.

    Mas qual a novidade neste novo episódio da política brasileira? Apenas uma – a de que nunca se investigaram e se condenaram tantos desvios de conduta e de dinheiro cometidos por políticos e megaempresários. Há um deslumbramento da população e canais de informação pelos eventos quase diários. E assim ficamos envolvidos nessa novela cujos personagens são políticos profissionais, os quais só têm um objetivo – o de manter o poder. A roubalheira sempre foi contumaz, faltava era comprovação. Ou você pensava que os impostos que, em um ano, você leva cinco meses de trabalho para pagar são totalmente investidos na edificação do país?

    Não que justifique, mas o mestre Machado de Assis – que também foi funcionário público –, no clássico “Dom Casmurro”, de 1899, já incluía a percepção de que vivemos em meio a desvios morais e éticos. A frase “A vaidade é um principio de corrupção”, dita por Bentinho, permite várias analogias com o momento atual. Mas, no caso das recentes descobertas de crimes financeiros, percebemos algo até além da vaidade, porque nada justifica as cifras milionárias surrupiadas dos cofres públicos. Talvez o substantivo correto fosse esnobismo, mesmo.

    Uma das muitas ironias atuais é que o próprio Lula, hoje um dos mais envolvidos nas suspeitas, fez um “alerta” sobre o Congresso, nos anos 1990: “Há no congresso uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns trezentos picaretas que defendem apenas seus próprios interesses”. Herbert Vianna transformou a frase na canção “Luís Inácio (300 Picaretas)”, proibida de ser reproduzida nos shows dos Paralamas pelo então procurador da Câmara dos Deputados. E quanta ingenuidade a nossa. Nos deixamos conduzir pela batida pop da canção e a cantamos sem leva-la muito a sério. Naquela altura, os desvios já eram planejados e introduzidos em grande parte dos setores da administração pública. O que ninguém imaginou é que, após duas décadas, os chamados picaretas seriam de todas as legendas, inclusive do então “ético” Partido dos Trabalhadores.

    Em 1996, o polemista e sempre vivaz Paulo Francis denunciou, no programa Manhattan Connection, que os diretores da Petrobras mantinham no exterior dinheiro oriundo de superfaturamentos em licitações (veja aqui). Isso lhe custou um processo milionário nos EUA, o qual, segundo amigos próximos, o levou a um quadro de stress e consequentemente à morte.

    O que vimos até agora é mais do mesmo, e numa escala até maior. As manifestações nas ruas pediram reformas políticas, econômicas e tributárias – prioridades importantes, claro –, no entanto, as siglas continuam unidas no propósito de apenas usufruir do Estado. Essa intenção é perceptível nas alianças de governo, feitas com partidos de ideias, muitas vezes, antagônicas. E é aí que quero chegar, caro leitor.

    Essa crise política, econômica e moral faz surgirem soluções fast food mirabolantes. Comentam-se, como alternativas, diferentes formas de representação. Vão do Parlamentarismo a um misto de Presidencialismo/parlamentarismo, tendo um Primeiro Ministro com grandes poderes, mas substituível caso necessário. Inclusive, o pedido por um retorno da Ditadura, feito por alguns grupos (felizmente minoritários), é um sinal de falta de representatividade. A descrença nacional, gerada pela ausência de confiança e de líderes capazes, fortalece o desestímulo para uma reflexão sobre perspectivas novas.

    E não é de se subestimar o momento. Entretanto, independentemente do que acontecer nos próximos meses, teremos poucas resoluções de impacto perene. Se o governo continuar, teremos a política que conhecemos com um acréscimo de turbulência. E, se cair, haverá certo otimismo para um recomeço de muitos setores, mas serão pífias as mudanças de longo prazo. E sabe por quê? Porque não temos, nem na política, nem na sociedade brasileira, a convicção de que a única solução de transformação duradoura está na educação e, inclusive, na arte. Se não formarmos cidadãos com ensino digno, continuaremos numa escala cíclica de substituição de políticos medíocres por outros medíocres, que não deixam de ser o reflexo dos próprios eleitores. Caso uma parcela desses grupos que protestaram pelas ruas visitasse uma instituição escolar pública ou vivenciasse a escola de seus filhos, talvez adotasse um novo tema para clamar. Faço um convite a todos: confiram de perto a estrutura precária, a forma arcaica de ensinar, a violência e a desmotivação de alunos e professores.

    Mas esse assunto é chato, quase não é notícia, então preferimos nos afastar e ignorar a raiz do problema. Se alterássemos essa incoerência do pensamento nacional, realmente começaríamos alguma modificação concreta, para, quem sabe, ver os resultados daqui duas décadas. Não há desenvolvimento saudável e qualidade de vida sem bons índices educacionais. O país vai pagar caro por esse descaso. Investir na educação de base seria nossa redenção. Enquanto isso, nesse quadro desanimador, aumenta o labirinto de probabilidades sombrias, com os envolvidos nas negociatas se esforçando para se salvar, não para virarmos um país melhor.


    leandro.s[arroba]minimomultiplo.com



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