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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Especial Terra em Transe - crise política

    Festival de Besteiras que Assola o País - 2016
    Lucas Colombo
    08/04/2016


    (Imagem: Herbert Bender)


    O Febeapá (copyright Stanislaw Ponte Preta) já é, naturalmente, prolífero. Em tempos de crise, as atrações se multiplicam mais ainda. Vamos a elas:

    “Impeachment é golpe”
    É até tedioso ter que explicar algo tão óbvio, mas expliquemos. Impeachment não é golpe. Trata-se de um instrumento previsto na Constituição brasileira, já utilizado contra Fernando Collor, em 1992. Golpe (de Estado) é, segundo o Dicionário Aurélio, justamente “Subversão da ordem constitucional e tomada de poder por indivíduo ou grupo de certo modo ligados ao Estado”. Agir contra as leis para alcançar o poder, portanto. O ex-presidente do STF Carlos Ayres Britto declarou à Folha: “Toda previsão constitucional pré-exclui a possibilidade de golpe. Golpe é fratura da Constituição, é querer empurrar uma solução goela abaixo da população.” Se impeachment fosse golpe, o STF não teria definido regras para o processo e a OAB não teria entrado com um pedido também. É normal que quem esteja em desvantagem reclame e use de todo artifício retórico para tentar se defender. Collor, em 1992, também gritava que impeachment era golpe, “terceiro turno” das eleições, etc. Espernear é um reflexo muito primitivo – é a primeira coisa que fazemos ao nascer. Manter o controle emocional e racionalizar são atitudes sempre mais difíceis.

    “Uma votação de impeachment comandada por Eduardo Cunha não vale”
    Claro que não será bacana ver um réu por corrupção comandar a votação do impeachment. Ele, entretanto, também é alvo de um processo de cassação e “terá sua vez”. Aliás, o presidente da Câmara durante o impeachment de Collor, Ibsen Pinheiro, foi cassado um ano e meio depois.

    “Só a elite apoia o impeachment”
    Então os ricos devem ser muito numerosos no Brasil, pois, segundo as pesquisas, 68% da população apoiam a saída de Dilma Rousseff.

    “Não apoio o impeachment por temer o Bolsonaro e o Feliciano”.
    Jair Bolsonaro e Marco Feliciano são, de fato, políticos lamentáveis. Eles, porém, não estão na linha sucessória da Presidência, portanto não se deve temê-los por causa do impeachment. Se você não gosta desses deputados, critique-os e não vote neles.

    “É tudo culpa da elite!”
    Afora o simplismo e a má-fé, essa afirmação traz dúvidas: se o PT odeia tanto assim a “elite”, por que se uniu a empreiteiros, banqueiros e pecuaristas para montar um gigantesco esquema de corrupção na Petrobras? Por que seu maior líder, Lula, ao que tudo indica, aceitou ter reformas em um sítio e em um triplex pagas pela OAS? Por que anda de jatinho para lá e para cá, ganha milhares de reais para dar supostas palestras, tem amigos megaempresários, etc etc? E os muitos professores universitários e artistas que defendem Dilma e o PT pertencem a que gradação social?

    “Investigam tanto o PT e deixam outros partidos de fora”
    Isso não é verdade. A Lava-Jato atingiu bastante o PT, sim, até porque se trata do partido que está há 14 anos no governo federal e a Petrobras é uma empresa do governo federal. Mas atingiu também PMDB, PP (no dia 21, quatro deputados e dois ex do partido foram indiciados pela Polícia Federal) e outros, até PSDB.

    “Mas por que não investigam a campanha do Aécio Neves também?”
    Porque não existe uma denúncia contra a campanha dele. Ainda. Se surgir uma, vão investigar. Caso você saiba de algo, denuncie.

    “Só perseguem o PT! A oposição e a direita, não!”
    Isso também não é verdade. Muitos políticos de “direita” foram processados, punidos e cassados no Brasil, nas últimas décadas, e atualmente nomes da oposição – PSDB e DEM – também têm sido investigados e condenados. Collor foi cassado em 1992, Paulo Maluf chegou a ser preso em 2005, Demóstenes Torres foi cassado em 2012, Eduardo Azeredo foi condenado em 2015, Cunha virou réu neste ano...

    “Só querem prender o Lula! Enquanto isso, o Maluf tá solto!”
    Conforme escrevi acima, Maluf chegou a ser preso, em 2005. Nos últimos anos, ele se tornou um grande aliado e apoiador do PT (lembram?), o que torna incoerentes os brados petistas na sua direção. Além disso, Maluf afirmou, no início, ser contrário ao afastamento de Dilma (agora, parece que mudou de lado). Por fim, o fato de um encrencado notório como ele estar hoje livre não significa que os corruptos que vieram depois não tenham de ser punidos.

    “Lula é perseguido porque ajudou os pobres”
    Não. Eis uma tentativa de ideologizar a questão. Ele está sendo investigado por tráfico de influência, ocultação de patrimônio e suspeitas de ter tido despesas pessoais pagas pelas empreiteiras envolvidas no esquema da Petrobras, não por ter lançado Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida. A história de que “ajudou os pobres” é, de igual modo, controversa. Não foi exatamente Lula quem “ajudou os pobres”, mas um movimento da economia mundial, na década passada, que fez milhares ascenderem à classe média nos países em desenvolvimento. China e Índia registraram esse fenômeno também, até mais solidamente que o Brasil. Hoje, aqui, a inflação e o desemprego, provocados por erros do mesmo governo que diz ter ajudado tanto os mais humildes, têm feito muitos que subiram à classe média voltarem à condição de vida anterior.

    “Os tucanos também roubam!”
    Relativização boba. Casos de corrupção que envolvem a oposição não justificam os de partidos da situação. Que todos os culpados, de quaisquer partidos, sejam punidos.

    “Não sei por que falam tanto do Petrolão. Corrupção sempre existiu no Brasil.”
    Claro que sempre existiu. Qualquer um que conheça a história nacional e tenha lido Raymundo Faoro e Sérgio Buarque sabe. Corrupção no grau atual, contudo, nunca vimos. A diferença é de escala – de valores e de acinte. O que não havia antes era corrupção sistêmica a favor da manutenção de um projeto político, organizada por um partido que sempre se apresentou como o mais ético. Ademais, é necessário repetir: casos passados não representam salvo-conduto para os atuais. Se houve antes, não precisa haver agora. Ótimo que a Lava-Jato esteja investigando o petrolão e punindo os responsáveis. Deixar todos impunes seria pior, não?

    “Também não sei por que falam tanto da crise econômica atual. O mundo inteiro está em crise.”
    Argumento que provoca convulsões de riso. Não que não carregue uma parcela de verdade. Mas o recurso mais infantil, mais primitivo de que alguém pode lançar mão é o de jogar a culpa nos outros ou no “mundo”. Oh, mundo cruel! Os EUA estão crescendo, a Europa volta aos poucos a crescer, a China, embora sob desconfianças, ainda cresce... A economia global não está tão fraca assim, não. Os efeitos mais intensos da crise de 2008 já passaram. A recessão daqui decorre de barbeiragens feitas no fim do governo Lula e no primeiro de Dilma.

    “As críticas pesadas, deboches e xingamentos dirigidos a Dilma compõem uma cultura de ódio.”
    Realmente, atacar uma pessoa em vez das ideias ou atos dela não é elegante. As chacotas a Dilma passam mesmo do ponto, às vezes. Mas daí a achar que ela, por ser presidente, não deveria ser alvo de humor, como muitos dizem, vai um tanto. Nos EUA e na Inglaterra, por exemplo, os governantes são satirizados o tempo todo, e ninguém diz que não deveriam ser. Aqui no Brasil, há a cultura do respeito excessivo à autoridade, nascida do nosso catolicismo e dos longos períodos de ditadura e colonialismo. José Sarney, durante seu governo, era chamado de banana pelo povo. Alguém na época achou que era “cultura de ódio”? Em 1992, Gabriel O Pensador lançou o rap “Tô feliz, matei o presidente”, em referência a Collor. Acusaram-no de promover “ódio”? Nos EUA, George W. Bush era chamado de stupid pra baixo. Ninguém dizia que não podiam chamar. Entre nós, o valor da liberdade de expressão ainda não se enraizou.

    “Quem fura fila do show não pode criticar as pedaladas fiscais da Dilma”
    Coisas muito distintas. Furar fila é errado, mas não dá prejuízo de 100 bilhões ao governo. Corrupção e má gestão pública são muito mais danosas à coletividade. Disse Lucas Rocha Furtado, autor do livro “As raízes da corrupção no Brasil”: “Seria ideal que todos tivessem conduta ilibada, mas não podemos esperar que isso ocorra para tentar corrigir a grande corrupção”.

    “Se Dilma cair, assume o PMDB! Será pior!”
    Não sabemos se será pior ou melhor. Mas, se os petistas – geralmente, os mais fortes emissores desse ‘alerta’ – acham o PMDB tão repulsivo assim, por que aprovaram a coligação com o partido, em 2010 e 2014? O voto em Dilma era também um voto em Michel Temer, seu vice. Os dois foram eleitos juntos.

    “Dilma tem um ano e meio de governo e já querem tirá-la”
    Benevolência tola. Se cometeu crime de responsabilidade, como Dilma cometeu (ok, “supostamente”) ao tentar atrapalhar a Lava-Jato com a nomeação de Lula para um ministério, não importa o tempo de governo. Quando caiu, Collor tinha dois anos e meio de mandato, e era seu primeiro, não continuação de outro.

    “Apoio o PT porque sou contra os conservadores”
    Divertida essa associação. No poder federal, o PT aliou-se a Sarney, Renan e Collor, e já se aliou a Maluf para ganhar eleição em São Paulo. Misturou assistencialismo com execução de obras monumentais e discurso ufanista, feito vários governos “de direita” anteriores. Não propôs descriminalizar aborto e maconha, não legalizou casamento gay, não melhorou o sistema público de saúde, não fez reformas...

    “Não quero voltar ao neoliberalismo dos anos FHC”
    Quem tacha Fernando Henrique Cardoso de “neoliberal” não deve saber o que é neoliberalismo. Durante a presidência dele houve aumento de carga tributária e de despesas do governo (como houve no de Lula), para citar só duas das principais práticas que os “neoliberais” abominam.

    “Faremos tudo para impedir o avanço de processos antidemocráticos.”
    Essa é da presidente Dilma, em setembro último. Pois não fez no seu governo, nem no de Lula. Mensalão e petrolão foram criados para comprar partidos, o que é antidemocrático.

    “Eles (oposição) perderam a quarta eleição e não se conformam. Em vez de esperar a quinta, não saíram do palanque. Eles deveriam criar vergonha e deixar a Dilma governar este País".
    Essa é do ex-presidente e atual ministro suspenso Lula, em discurso no dia 13 de outubro. Vamos lá: 1) Deve ter ocorrido com Lula o que Sigmund Freud identificou como “projeção”: o sujeito vê nos outros características dele próprio. Quem nunca saiu do palanque foi ele, em oito anos de presidência e seis de ex-presidência. 2) Talvez não seja só a oposição que precise “criar vergonha”, não?... 3) Fiscalizar, cobrar e até atrapalhar o governo são ações esperadas dos partidos de oposição. Lula, ao dizer que esses têm que “deixar a Dilma governar”, parece desejar que não exista oposição no país.

    “Sou contra o impeachment, ainda mais levando em conta de quem vem o pedido. Há essa vontade de não se legitimar o resultado do voto, o que é mais forte porque a presidenta é mulher”.
    Anna Muylaert, diretora de cinema. 1) A diretora não especificou “de quem” veio o pedido, mas dá a entender que, para ela, veio de Eduardo Cunha. Mas não: o pedido de impeachment foi redigido pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaina Paschoal. Cunha - ou melhor, o presidente da Câmara - o acolheu. 2) O fato de Dilma ter sido democraticamente eleita não perdoa eventuais erros e crimes que tenha cometido durante o mandato. Collor também foi democraticamente eleito. 3) Estou esperando pela pesquisa que dê conta do extremo machismo dos quase 70% (mulheres inclusas) da população que apoiam o impeachment.

    Leia aqui outros Febeapás. E até o próximo.


    lucas.colombo[arroba]minimomultiplo.com

    @lucas_colombo



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