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    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    Longo tempo de Quaresma
    12/01/2016




    É uma coincidência riquíssima que “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, um dos principais romances da literatura brasileira, esteja completando cem anos de publicação logo agora. O livro não poderia estar mais atual, no retrato que traça dos políticos ineficazes, corruptos e autoritários que nos governam (ou acreditam governar) e no desencanto a que chega o protagonista, no fim da história. O espírito de grande parte dos brasileiros de hoje está ali, representado pelo major Quaresma, um patriota ardente que, no decorrer da narrativa, vai se frustrando com o Brasil – processo similar ao que vimos acontecer na sociedade, nos últimos cinco anos, mais uma vez...

    Seu autor, Lima Barreto (1881-1922), é usualmente classificado como “o romancista da República Velha”, por ter dedicado quase toda a sua obra ao contexto político-social que viveu. Isso é uma verdade – assim, com artigo indefinido. “A” verdade é que, mesmo com os pés bastante fincados em sua época, ele é um escritor atemporal, pois as situações, comportamentos e vícios que apreendeu em seus romances e contos não pertencem ao passado do país, e, tendo em vista os fatos que presenciamos agora, não pertencerão tão cedo. A cultura oligárquica, o fisiologismo, o patrimonialismo e os tipos que descreveu ainda estão muito presentes no cenário brasileiro. Lima criou personagens que, embora pouco sutis, são críveis e marcantes, e foi um autor revoltado com o país como nenhum outro depois dele.

    “Triste Fim” foi publicado em folhetim no Jornal do Comércio do RJ, em 1911, e em livro, finalmente, em dezembro de 1915. É uma obra-prima de sátira política, daquelas que vamos lendo com um sorriso de canto de boca. À maneira de “Bouvard e Pécuchet”, de Gustave Flaubert (de quem Lima era leitor), Quaresma fracassa em todos os seus projetos nobres. A realidade sempre se interpõe aos seus ideais. Cada projeto pelo qual deseja comprovar a grandeza do Brasil falha, por obstáculos que o próprio país coloca no caminho.

    Governo Floriano Peixoto, primórdios da República. Funcionário do Ministério da Guerra, Quaresma vai para casa no mesmo horário, todo dia, para estudar a geografia do Brasil, ler José de Alencar, Gonçalves Dias e outros autores nacionalistas e aprender modinhas de violão, “a mais genuína expressão da poesia nacional”. É tão patriota, que proíbe, em casa, que se coma petit-pois e propõe, ao Congresso, a “emancipação idiomática” do Brasil, pela implantação do tupi-guarani como língua oficial, em vez do “emprestado” Português. Por isso, é considerado louco e internado num hospício. Decepção. Ao sair, resolve viver em um sítio e voltar-se à agricultura – até porque o Brasil, na sua apaixonada visão, tem o solo mais fértil do mundo. Nova decepção: as saúvas destroem a plantação, a infraestrutura precária o faz ter perdas financeiras (“Como era possível fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e impostos?”) e sua recusa em participar de uma manipulação da eleição local rende-lhe multas e embaraços. Quando, contudo, sabe do estouro da Revolta da Armada (1893), o levante da Marinha contra Floriano, em quem acreditava, seu ufanismo encontra outro espaço, maior, para manifestar-se: a política, o governo. Aí, como o leitor já suspeita, é o fim. O triste fim. E a última decepção: Quaresma, após apresentar-se para servir nas forças governistas, contra os marinheiros que bombardeavam a capital e exigiam a convocação de eleições, depara-se com a ignorância e a truculência do marechal-presidente e seus homens no trato com os revoltosos. Espantado com os fuzilamentos, redige uma carta de crítica a Floriano e é preso por traição. Termina seus dias, no cárcere, a concluir que a pátria, à qual dedicara a vida inteira, é uma ilusão: “A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. (...) Certamente era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista.

    Quaresma, em atitude que os psicanalistas chamariam de “negação”, passa a vida rejeitando-se a ver os problemas do país, pondo uma fantasia no lugar deles. Faz isso simplesmente por crer que as deficiências não existem, até senti-las na pele – tal qual muitos brasileiros entre 2003 e 2013, que acreditaram, em parte por ação da retórica ufanista do ex-presidente Lula, estar o Brasil, sede da Copa e das Olimpíadas, a um passo de se tornar uma potência mundial. Com os protestos de rua, dois anos e meio atrás, e uma inflação voltando a incomodar, veio o estranhamento: não nos diziam que estava tudo bem? Com a recessão, a partir do final de 2014, aparecendo intensa, o desemprego subindo e um grande esquema de corrupção vindo à tona, finalmente a festa acabou, a luz apagou, a noite esfriou, segundo diria outro grande nome da nossa literatura. E a conta chegou. Bem cara. Cortes na Educação, aumento de impostos, redução de benefícios trabalhistas. Desilusão...

    1915/2015 – Certas passagens do texto, Lima parece ter escrito em 2015. Cenas e falas não ficariam nada deslocadas no Brasil atual. Nas primeiras páginas, ao ouvir alguém dizer que gostaria de ir à Europa, o major responde: “Ingrato! Tens uma terra tão bela, tão rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer a minha de princípio ao fim!”. Eis uma fala que poderia estar, hoje, na boca dos que implicam com os brasileiros que, insatisfeitos com os rumos do país, decidem morar fora. Mais adiante: “A convicção que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro país do mundo e o seu grande amor à pátria eram agora ativos e impeliram-no a grandes cometimentos. (...) Eram pequenos melhoramentos, simples toques, porque em si mesma (era a sua opinião) a grande Pátria do Cruzeiro só precisava de tempo para ser superior à Inglaterra.” Em 2011, ano em que, pelos números do PIB, o Brasil ultrapassou o Reino Unido e tornou-se a sexta maior economia do mundo, ouvimos mais ou menos isso do ex-ministro Guido Mantega e dos comentaristas chapa-branca: era só questão de tempo para ir mais longe. Pouco se falou em reformas e investimentos que teriam de ser realizados para que o crescimento econômico perdurasse, preferindo-se apenas obter dividendos políticos e popularidade. Tanto que, em 2012, o Brasil voltou a ser a sétima economia e hoje enfrenta crise. Nacionalismo, prova Quaresma, embota a visão.

    Há mais. No sítio, um tenente que visita o major lhe diz: “Na nossa terra não se vive senão de política, fora disso, babau! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados...” Amizades pessoais não se desfizeram em 2014, devido à eleição acirrada? Em seguida, por não ter compartilhado da posição política do tenente, Quaresma é alvo de uma “quadrinha” dele no jornal local: “(...) Quaresma, meu cocumbi!/Volta à mania antiga/De redigir em tupi”. Sofrer deboche pessoal, por causa de opinião política divergente, é comum no Brasil de agora. Lima também captou o clientelismo hoje e sempre existente nesta terra, no segmento em que Quaresma adere a Floriano: “o governo, precisando de simpatias e homens, tinha que nomear, espalhar, prodigalizar, inventar, criar e distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações.

    Na parte em que o personagem vira agricultor, sua reação a amigos que tentam convencê-lo a usar adubo na lavoura ilustra muito bem o desapreço ao método e o apego a ilusões que nos caracterizam:
    - Adubos! É lá possível que um brasileiro tenha tal ideia! Pois se temos as terras mais férteis do mundo!
    - Mas se esgotam, major. (...) se eu fosse o senhor, aduziu o doutor, ensaiava uns fosfatos...
    - Decerto, major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar violão, não queria aprender música... Qual música! Qual nada! A inspiração basta!... Hoje vejo que é preciso... É assim, resumia ele. (...)
    O major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triunfante:
    - O senhor não é patriota! Esses moços...

    Pois, nos últimos anos, os mais céticos e críticos, que apontavam para a degradação das contas públicas e para o fato de o país crescer na carona da China, não por iniciativas próprias, foram e têm sido tachados de impatrióticos pelos membros e militantes do partido no poder. “O governo tem sempre razão”, diz um homem no final da história, ao saber da prisão de Quaresma.

    O governo não tem razão. Preso por autoritarismo do presidente, depois de reprovar uma arbitrariedade, Quaresma tem no seu triste fim também a representação de que, no Brasil, quem conserva princípios éticos e busca não entrar no jogo sujo se dá mal. É difícil obter uma posição importante ou atingir um objetivo maior sem corromper-se, sem dar ou receber um pixuleco.

    Uma das reflexões que o major faz, na cadeia, é se sua “luta” valera a pena: “As condições gerais tinham melhorado? Aparentemente sim; mas, bem examinado, não.” Outro pensamento que serve para o período Lula-Dilma. Na aparência, as coisas iam bem; na realidade, nem tanto... A decepção final de Quaresma liga-se à dos brasileiros, hoje. O ufanismo dos anos Lula é feito o dele: injustificado, pois a ideia do “Brasil potência” não se confirmou, por erros do próprio governo. Cem anos depois, “Triste Fim” associa-se perfeitamente a este momento em que muitos brasileiros – às vezes, de modo agressivo – afirmam terem sido enganados e estarem desencantados com a nação.

    Lembremos, porém, o óbvio: só se desencanta quem se deixou encantar. O Brasil, conforme sabe quem lê Lima Barreto, observa a realidade nacional e conhece História, nunca dá muito motivo para esperança. Hoje, o que torna possível ser otimista, por mais paradoxal que seja, é justamente o pessimismo. “Cair na real” é duro, mas fundamental. Tempos de perda de ilusões são oportunidades de amadurecer, tomar consciência, fazer as reformas e debates honestos que precisam ser feitos. A frustração do major, na ficção, e a dos brasileiros, na realidade, parecem deixar mais valioso o aviso de Millôr Fernandes – este, aliás, um cético exemplar: “Olhaí, se querem que eu seja patriota, melhorem essa pátria!”. Quaresma diria por nós.


    * * *
    Personagens e situações de outros trabalhos de Lima Barreto são igualmente bastante atuais. Em “Os bruzundangas”, romance satírico sobre um país fictício muito parecido com o Brasil, ele escreveu: “Todos se guiam por ideias feitas, receitas de julgamentos, e nunca se aventuram a examinar por si qualquer questão, preferindo resolvê-las por generalizações quase sempre recebidas de segunda ou terceira mão”. Não é o que se vê, em geral, nos “debates” que cidadãos a favor e contra o governo travam pelas redes sociais? Já no conto “Numa e a Ninfa”, um homem medíocre e oportunista, por ser bem relacionado, sobe na política, mas, justamente pela mediocridade, é incapaz de proferir um discurso articulado – encomenda-os à mulher. Soa familiar? A atual presidente não tem trajetória política de grandes brilhos e deve sua candidatura a um “padrinho” e suas “melhores” falas ao marqueteiro... Quando este não está por perto, compara delação premiada, instrumento legal (sancionado por ela, em 2013), com delação feita sob tortura, instrumento ilegal; saúda a mandioca como uma das grandes conquistas do povo que governa, e diz que não vai fixar meta para um programa, mas, quando atingir a meta, vai dobrar a meta. Lima adoraria satirizar Dilma Rousseff em alguma história...


    * Texto originalmente publicado no Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, em 9 de janeiro de 2016. Ampliado para republicação aqui.


    lucas.colombo[arroba]minimomultiplo.com

    @lucas_colombo



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