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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Letra A
    by Rafael Fais

    Nova mídia, velhos hábitos
    31/08/2015


    De minhas leituras recentes, fiquei com algumas histórias na cabeça. Uma delas, talvez a melhor, foi sobre os jornais locais de São Francisco, nos EUA, escrita pela jornalista Vauhini Vara, da revista The New Yorker. Ela, que cobre negócios e tecnologia, saiu em busca das estratégias de sobrevivência para sites de notícias locais e ouviu muitos casos de reformulações, em que editores e repórteres procuravam solucionar a difícil equação entre relevância e sustentabilidade de seus produtos jornalísticos.

    Todos concordam que a publicidade, sozinha, não é capaz de sustentar esses negócios. O editor do tradicional Guardian, de São Francisco, diz que o modelo antigo pode fazer parte de uma mistura necessária para sustentar um negócio como o jornal. A solução definitiva, ele não tem. Em outubro, o jornal fechou por não conseguir se manter financeiramente.

    Enquanto alguns apagam os pixels, como também é o caso do Bold Italic, um blog que cobria cultura na Baía da cidade, novas histórias começam. Um exemplo é o 48hills, que tem um ano de vida, um milhão de dólares de orçamento e um antigo e experiente jornalista do Guardian no comando. Vale ler as outras descobertas da revista The New Yorker sobre jornalismo online local.

    Vauhini Vara escreve que “velhos hábitos persistem”, ao abordar o mercado das notícias online e o comportamento da imprensa e dos leitores. Mas, com maior ou menor drama conforme os casos, a maneira de fazer jornalismo está se modificando, desde a popularização da internet. A maneira de fazer política é que parece resistir no Brasil, indo de encontro ao coerente, mas ainda vacilante, clamor público por mudança. A internet exerceu uma força impetuosa e pegou de surpresa o jornalismo mundial, sem deixar opção: continuar como antes dela não seria mais possível. Se uma das missões do jornalismo é fiscalizar o poder público, o jeito de fazer política talvez mude, pela influência das transformações causadas pela tecnologia no jornalismo.

    Jornalistas podem ser tendenciosos, como alguns sempre foram e serão, mas está mais difícil ignorar fatos ou omiti-los, em razão da facilidade de disseminar informações pela internet. As reportagens feitas a partir dos vazamentos cometidos por Edward Snowden e Julian Assange são exemplos claros disso. Agora ex-técnico da CIA, Snowden forçou a imprensa a estampar manchetes sobre o método de os EUA espionarem cidadãos e autoridades por meio dos serviços de Skype, Yahoo, Google e outras empresas. Se a prática de espionagem não era algo surpreendente, também não era vontade de Obama e dessas marcas verem-se, na mídia do mundo inteiro, associados à violação de direitos e privacidade. Já Assange expôs as tomadas de decisões de políticos e diplomatas quando publicou, no site Wikileaks, e-mails de chefes de Estado e despachos diplomáticos sobre as Guerras do Iraque e Afeganistão, republicados também por jornalistas dos mais variados veículos.

    Gleen Greenwald trata desses temas em algumas páginas de seu livro “Sem lugar para se esconder”. O jornalista e ex-advogado trata também da postura de alguns jornalistas durante entrevistas que concedeu. Em sua visão, o enfoque das perguntas deveria ser o conteúdo vazado e como a imprensa chegou a ele, não o autor do vazamento. “Muitos jornalistas norte-americanos tornaram a assumir seus papéis habituais de vassalos do governo. A notícia não era mais como jornalistas tinham exposto sérios abusos da NSA, mas como um americano que trabalhava para o governo tinha traído suas obrigações, cometido crimes e depois ‘fugido’ para a China”, critica Greenwald.

    O método usado por Snowden e Assange provocou o debate ético e deve mesmo ser questionado por todos os jornalistas que estiverem diante de situação parecida.

    Liquidez - Outra leitura que me marcou veio de um livro: “Putin - a face oculta do novo czar”, da jornalista russa Masha Gessen. O trecho que li contava as trapalhadas dos últimos anos do governo de Boris Iéltsin (1991-1999). Masha narra o constrangimento de um ministro que foi demitido, readmitido e novamente colocado na rua pelo presidente russo. Fontes ouvidas pela jornalista afirmaram que a vodka era a culpada pelas confusões de Iéltsin, já que era sabidamente uma de suas bebidas prediletas. Lembrei, com isso, a entrevista coletiva de abril último em que Pepe Vargas declarou que seria ministro de Direitos Humanos, para depois, durante a mesma entrevista, atender a um telefonema, voltar à cena e negar o convite da presidente Dilma. No final das contas, ele ficou com o cargo e enfrentou essa deselegância na frente de toda a imprensa sem beber nem água. Cheio ficou o copo de quem diz que o governo está sem rumo.

    No Brasil, o jeito de o cidadão encarar a política tem mudado lentamente. Os movimentos que colocaram multidões nas ruas em junho de 2013, e agora em 2015, são exemplos de tomada de consciência da importância da mobilização popular. A força da rua e a visibilidade dessas manifestações foram empoderadas pela rede. Caso a maneira de agir dos políticos mude e possamos sentir um aperfeiçoamento nas ações deles, teremos comprovada a eficácia da rede também na obtenção de melhorias nessa sensível área da vida.

    Como, porém, “velhos hábitos persistem”, serão necessárias vontade e participação política, além dos recursos oferecidos pela tecnologia, para alcançar o oxigênio que os políticos daqui tanto precisam. Sejam eles de qualquer partido que estiver em seu pensamento agora.


    @rafaelfaisjorn


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