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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Letra A
    by Rafael Fais

    Triângulo escaleno
    28/05/2015


    Não gostar de um filme não significa que ele seja ruim. Os 106 minutos de “Três corações” demoram a passar, sem que essa lentidão se justifique. O diretor Benoît Jacquot, porém, compensa o incômodo possibilitando ao público refletir sobre a história das irmãs Sylvie e Sophie e do homem com quem elas se envolvem, o auditor Marc.

    Vividos por Charlotte Gainsbourg, Chiara Mastroianni e Benoît Poelvoorde, os personagens despertam empatia. Sylvie conhece Marc num restaurante de uma cidade pequena, e ele se mostra vulnerável e solitário quando perde o trem daquela noite para Paris. Os dois ficam juntos num hotel e marcam um segundo encontro, ao qual ele não vai porque sofre um ataque cardíaco. Ela não sabe o motivo pelo qual Marc a deixa esperando, e o desencontro parece ser o que leva Sylvie a concordar com a mudança para os Estados Unidos, ao lado do marido que ela não ama, ou não ama exclusivamente. Nos 30 minutos seguintes, então, vemos Marc conhecer Sophie, quando ela o procura para resolver questões fiscais de seu antiquário. Rapidamente se envolvem e se casam. E rapidamente, também, ele descobre que a mulher é irmã de Sylvie.

    Fica evidente logo no início do filme que Marc é um homem atrapalhado com seus sentimentos, no seu limite emocional e precisando de ajuda. Esse homem e sua humanidade vacilante fazem o filme continuar na mente, depois que acaba. Mérito dos roteiristas Jacquot e Julien Boivent, que criaram o personagem.

    Perguntas – O dilema de Marc é contar ou não para sua esposa que ele dormiu uma vez com a irmã dela antes de conhecê-la? O dilema de Marc é arrumar uma maneira de continuar com as duas? Ou Marc não tem dilema e só está estressado por não saber administrar seus sentimentos e o novo arranjo familiar? Se as duas não fossem irmãs, Marc teria um dilema?

    Quando essas questões se apresentam, o simples auditor deixa de ser um homem honesto com dificuldades emocionais. Ele se transforma num enigma extremamente nocivo, capaz de pôr em risco a relação entre duas irmãs para satisfazer seu desejo. Sylvie pede que ele jamais conte para sua irmã sobre o envolvimento dos dois. “Ela é a coisa que mais importa pra mim”, diz. Mas, se isso é verdade, por que Sylvie volta a ficar com Marc, traindo a irmã?

    São as perguntas, e não a sequência de acontecimentos, que dão valor ao filme de Benoît Jacquot. Essa falta de respostas concretas contribui para as questões com que lidam os personagens continuarem presentes, após o final.

    Perdidos – Ao mesmo tempo em que Marc está sensível e confessa ao médico que sente muito medo, depois de ter uma crise de ansiedade à noite, ele não busca a sinceridade que poderia aplacar esse sofrimento. Prefere seguir cambaleando entre seus desejos. Dá pena vê-lo explicar ao doutor que sente muito medo logo que a noite cai. Na madrugada em que desperta ofegante, o médico lhe diz que seus batimentos cardíacos estão normais, o problema seria psicológico.

    Marc se liga a mulheres que igualmente demonstram não saber lidar com suas emoções. O emocional de Sophie é tão consistente, que ela chora ao ouvir uma piada. E confessa se sentir fragilizada com a partida da irmã para os EUA: diz ao marido que não sabe se vai resistir à falta dela. É com essa mulher que ele se casa, e trai. A imaturidade de Marc é grande a ponto de ele sobreviver à construção e implosão de um casamento sem relacionar o que sente, sua ansiedade e seu temor constantes, com suas atitudes e escolhas.

    Ao mesmo tempo em que o filme demora a acontecer, para Marc tudo acontece rapidamente: ele sobrevive a um ataque cardíaco, se lança na conquista de uma mulher desconhecida, se casa com a irmã dessa mulher, confunde seus sentimentos e os das irmãs, e enfrenta as consequências. Há ainda o enfrentamento com um político poderoso, e o desfecho. Mas o que distingue esse filme é o fato de que Marc, Sophie e Sylvie não nos contam tudo. Não sabemos muito sobre eles, praticamente nada conhecemos sobre seus passados. Quando Sylvie volta do hotel, na noite em que conhece Marc, ela arruma as malas, sem que fique claro se a intenção é a de deixar o marido, ou a de ir para os EUA com ele. A sensação vinda dessa cena é de ter perdido algo durante o filme. Talvez porque “Três corações” mostre três pessoas que se perderam em algum ponto de suas vidas.

    Sylvie está triste e decide continuar com o marido depois de se lançar aos braços de Marc, que não vem ao seu encontro.

    Sophie está triste e decide deixar o marido para viver com Marc.

    Sylvie continua triste e decide manter seu casamento depois de ficar à espera de Marc, que não vem ao seu encontro porque seu coração pifou.

    Marc está triste porque sente muita coisa por essas duas mulheres, mas não consegue ficar de verdade com nenhuma delas. São desejos que oscilam entre o nada e a plenitude.

    Benoît Jacquot parece ter desenhado um mapa para amantes perdidos. Vale seguir seus traçados, mesmo que ao local de destino seja demorado chegar.


    @rafaelfaisjorn


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