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    Etc...

    Que crítica?!...
    Carlos Fernando e Frederico Barbosa*
    18/03/2015


    “O homem que realmente sabe pode revelar
    tudo o que há a transmitir em pouquíssimas palavras.”

    Ezra Pound


    Nenhum traço parece marcar a fisionomia da vida cultural brasileira tão insistentemente quanto o personalismo. Discute-se, na política, “personalidade” e não ideologia; na arte, “motivações interiores” e não resultados: “ideologismo” e não literatura, “literatice” e não artes plásticas, operações plásticas e não música.

    Comportamento, ego e “fofoca esclarecida” imperam absolutos.

    Na eterna disputa entre artistas e críticos, não se dá outra coisa. Generaliza-se a convicção de que toda apreciação de uma obra é guiada por motivos escusos, pessoais e mesquinhos. O crítico seria necessariamente um artista frustrado buscando notoriedade e realização parasitárias. Por outro lado, os artistas são vistos como crianças volúveis e voláteis, cheias de melindre, romanticamente iluminados, irracionais e irresponsáveis. Por mais caricatural que a visão possa parecer, é nesses termos que se têm exercido discussões sobre a validade da crítica. No campo da batalha pessoal, os tiros voam e não atingem qualquer alvo.

    Não parece haver resistência alguma à noção de que a crítica só tem razão de ser se proporcionar um juízo de valor sobre a conveniência ou relevância social da “postura” pessoal do artista, ou ainda sobre os efeitos de sua obra no comportamento e nos costumes. Artistas e público esperam do crítico endosso e encorajamento irrestritos ou veneno e escárnio. Permite-se que vista a toga de juiz do bem e do mal e aguarda-se a sentença sobre a validade do “conteúdo” da obra e o merecimento do artista. O que está em jogo é sempre a recompensa pessoal, o aval paternalista ao artista e, quem sabe, à sua obra, travestida de “mensagem”.

    A crítica dita positiva nunca é considerada frustrante, mesmo que passe ao largo da análise. O elogio é satisfatório mesmo que nada entenda dos mecanismos geradores da obra, mesmo que apenas a enquadre e classifique segundo um padrão qualquer.

    No Brasil não há crítica de arte, só de artistas. Não há análise, desmontagem e apreciação reveladora de obras, só “sacação” de significados, muitas vezes envolta na enganosa roupagem do exibicionismo enciclopédico, dos dados biográficos. A breve história do indivíduo é sempre posta acima da longa história da linguagem. Os soluços, acima das soluções.

    O chamado jornalismo cultural se resume a bulas ávidas de interpretação reducionista, conteudismo, “explicação”. Costuma-se dizer que o jornal não é lugar para discussões estéticas “mais elaboradas”, que nele não cabe apreciar obras de arte naquilo que têm de especificamente artístico, naquilo que distingue as opções criativas, na sua estrutura sintática. Esse seria um assunto por demais ‘árido’ para o público geral.

    Algo como dizer que não cabe aos jornalistas esportivos analisar a tática de jogo de um time de futebol e seu desempenho numa partida, mas apenas diagnosticar a postura de cada jogador isolado, comentar seu carisma, sua “raça”, sua conduta moral. O jornalista teria, assim, sua incapacidade de avaliar estratégias escamoteada sob a alegação de poupar o público da aridez suposta.

    É curioso notar que, no que se refere à “interpretação” semântica, “sociológica” ou “filosófica”, não há limites para o que é considerado cabível e interessante num jornal. Ou mesmo exequível. O cotidiano das redações, dos horários apertados, dos fechamentos de pauta não são desculpa para privilegiar enfoques desse tipo como sendo mais “viáveis” em termos práticos. Muitas vezes chegam a ser rebuscadíssimos. O trabalho maior que um crítico deve ter, para exercer o seu ofício, antecede suas tarefas diárias e deve conviver com elas. Chama-se estudo. Abrangente, que seja, mas sempre balizado pelo objetivo final do compromisso com o leitor e o artista, que devem esperar dele o comentário da maneira, do engenho, da criação, do mecanismo, e não aprovação e promoção.

    A humildade implícita no ato de instrumentalizar-se corretamente colocaria em proporções mais “saudáveis” a tendência crescente ao texto narcisista, pseudoliterário, crônica-trampolim, no qual a janela torna-se espelho e o comentarista, assunto. Do modo como tem ocorrido, o jornalismo cultural substitui a tarefa crítica da descoberta pela tentação frívola da invenção autoindulgente, ou ainda a demonstração pela persuasão.

    São inúmeros, é claro, os exemplos de críticos-artistas e não é necessário levantar a questão óbvia de que a boa crítica pode perfeitamente criar vida própria como obra extrafuncional, como queria Herbert Read ao idealizá-la inspirada pelos sussurros de uma “décima Musa”. Essa qualidade, no entanto, em nenhum caso bem sucedido obliterou ou tentou substituir sua função primordial de Crítica. Uma boa crítica pode até ser arte, assim como um artista pode até ser um bom crítico, mas nem um nem outro estão, a princípio, obrigados a cumprir tais metas.

    Se o artista é incapaz de falar sobre sua obra, mas a executa de modo satisfatório, seu trabalho está feito. A escolha crítica que deu forma a sua obra já está feita. É papel de outros perceber sua maior ou menor importância como proposição de recursos de montagem e articulação, mostrando como e por quê. É função do crítico localizar a obra no universo das ideias, detectar influências, filiações, estilo; apontar-lhe o que apresentar de redundância e inovação. Colocar-se na pele do autor e desvendar seu método. Só então poderá propor uma avaliação subsidiada e consciente, depois de fazer o teor da obra falar por si mesmo, mostrar a si mesmo.

    A arte do artista deve educar a crítica do crítico. A arte do crítico deve educar a crítica do artista. Cabe ao crítico revelar ao artista seu próprio modo de trabalho. Como disse Paul Valéry, “o objetivo da obra é surpreender o autor.” O espectador, enquanto isso, aprende, amadurece afinal.

    Minada por seu desvirtuamento e pelo descrédito, estará a crítica de arte fadada a desaparecer dos grandes jornais, limitando-se a aguardar o surgimento de revistas ditas “especializadas”, destinadas a um suposto público de “experts”? A devastação a que está submetida a sociedade brasileira, “progressivamente” privada das condições mais básicas, impede que se espere do público o rompimento do círculo vicioso da miséria cultural. A demanda pela qualidade da arte e pelo acesso à informação nascerá da exposição a discussões relevantes. Extrapessoais. Extramercadológicas.

    O grande público deve e pode perfeitamente tornar-se espectador ativo da busca por fatos culturais, se lhe for permitido enxergar as entranhas dos processos de produção artística. Se atraído para tal por uma crítica lúcida, translúcida, precisa, clara, criteriosa, demonstrativa.

    Pode-se ensinar qualquer coisa a qualquer pessoa. Contanto que se conheçam e se possam expor os princípios e as formas, que se saiba, realmente, aquilo de que se fala. E se queira abrir a discussão...


    * Carlos Fernando é artista visual e ex-vocalista do grupo Nouvelle Cuisine; Frederico Barbosa é poeta e professor. Texto publicado na Folha de S.Paulo em 23 de fevereiro de 1992, mas, como se nota, ainda muito atual.



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