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    Toca-disco

    A dama canta o blues
    Lucas Colombo
    03/09/2014


    (Foto: Michael Ochs Archives/The Guardian)


    O que escrever sobre Billie Holiday, neste mês* em que se completam 55 anos de sua morte? O que ainda não foi dito acerca dessa fabulosa cantora? Talvez a maior intérprete do jazz, com Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald a dividir o pódio, ela faleceu em 17 de julho de 1959, aos 44 anos. Este texto corre o risco de ser redundante e apenas destacar o que é sempre destacado nela, porém não há muito espaço de manobra. É impossível não elogiar o timbre prontamente reconhecível, a grande capacidade de expressar emoções através do canto, a sensualidade. Sua voz não é o que se pode chamar de “bonita”; é áspera, rascante, anasalada, mas flexível e quente. Com seu fraseado que “jogava” com o ritmo e sua sensibilidade melódica, Billie contribuiu para definir o que é cantar no jazz (Frank Sinatra, aliás, ia ouvi-la quase toda noite) e tornou-se referência até de instrumentistas. Só para permanecer nas intérpretes, e nas contemporâneas, Cassandra Wilson e Madeleine Peyroux são duas que se assumem bastante influenciadas por Lady Day – como Billie foi apelidada pelo parceiro saxofonista Lester Young.

    Relativamente fácil apontar suas qualidades, difícil selecionar, por serem tantas, suas interpretações mais notáveis. É que não faltou material de trabalho para Billie expor sua competência: o período no qual viveu foi o mais rico da canção americana, e ela soube usufruí-lo. Gravou todos os grandes compositores. De Duke Ellington, são marcantes em sua voz “Solitude”, em que desenvolve um clima melancólico comovente (há duas versões, a melhor é a em que canta acompanhada do piano de Oscar Peterson e do violão de Barney Kessel, 1952, disponível abaixo), e “Sophisticated lady”, em que, além da sutil contundência com que emite a letra sobre a senhora que, embora tente disfarçar, sente falta de um amor do passado, demonstra seu controle dos tempos lentos, cujo emprego no jazz vocal igualmente é considerado pioneirismo seu. De Cole Porter, sobressaem-se uma “Let’s do it” graciosa, uma “Love for sale” mais seca (talvez porque, conforme lerão abaixo, conhecesse o tema abordado na letra: prostituição) e uma “Night and day” mais vagarosa. De George Gershwin, uma “The man I love” dengosa e uma “I loves you Porgy” (ária da ópera jazz “Porgy and Bess” em que a protagonista pede proteção ao amado contra o vilão) de drama contido. De Irving Berlin, “Cheek to cheek”, é claro.

    Em qualquer relação do melhor de Billie, porém, não podem faltar músicas de autores menos festejados mas muito bem tratados por ela. São casos como os de Harold Arlen (“Stormy weather”) e Jimmy Davis (“Lover man”). Outro é Lewis Allan, pseudônimo de Abel Meeropol, poeta que escreveu a emblemática – em termos políticos, não musicais – “Strange fruit”, um protesto contra o linchamento de negros sob o intenso racismo no sul dos Estados Unidos (“Strange fruit hanging from the poplar trees...”), só abolido oficialmente na década de 1960. Hoje muito associada a “Strange fruit”, Billie tinha a canção como o ponto alto de seus shows do começo dos anos 1940, mesmo com várias rádios negando-se a tocá-la.

    A grande cantora, no entanto, ainda compunha: “Lady sings the blues” (mesmo título de sua célebre autobiografia, publicada em 1956), “Don’t explain” e “God bless the child”, entre outras menos difundidas, são dela própria, com parceiros. “Fine and mellow”, só dela, começa com o lamento de uma mulher pelos maus-tratos de um homem (“My man don’t love me/treats me, oh, so mean/He’s the lowest man/that I’ve ever seen”), para depois revelar que, apesar disso, ela não resiste quando o sujeito se faz carinhoso (“But when he starts in to love me/he’s so fine and mellow...”). Todos bons casamentos de melodia e letra, de pouquíssimas regravações à altura das versões originais da autora.

    Outra admiradora sua, a ótima cantora e pianista Shirley Horn (1934-2005) declarou, para o encarte de uma coletânea de 1997, que Billie ajudou a mostrar que canções têm de contar uma história, “significar algo, traçar uma pintura para você (...). Ela não exagerava e brincava e coisas do tipo, feito alguns cantores; apenas parava e cantava. Cantar uma canção, pintar um quadro; deixar você saber tudo o que estava acontecendo, então você poderia ver como a vida dela era.” Pois a própria Lady Day, certa vez, salientou que, para cantar “o blues” (o jazz nasceu do blues, do ragtime e das brass bands), “você tem de senti-lo”, e que tudo que cantava era parte de sua vida. Sempre se deve desconfiar do clichê “a arte retrata a vida do artista”, mas, no caso de Billie, tal noção parece incontornável: ela transmitia por meio do canto muito da sua trajetória atribulada. Nascida quando a mãe tinha somente 13 anos, Eleonora Fagan Gough – seu nome verdadeiro – passou por infância pobre, sofreu abusos sexuais e chegou a prostituir-se na adolescência. Começou a cantar no início dos anos 1930, em nightclubs nova-iorquinos, foi descoberta pelo produtor John Hammond e consagrou-se depois em apresentações com o grupo de Benny Goodman e a orquestra de Artie Shaw, mas sua vida pessoal seguiu conturbada. Billie contabilizou episódios de depressão, decepções amorosas e vício em álcool e heroína, o qual, inclusive, levou-a à prisão, por porte de drogas. Morreu de cirrose. Sua arte sobrevive, para nosso prazer. E reiterar suas qualidades sempre valerá a pena.

    “Just treat me right, baby
    and I’ll stay home night and day...”






    * Faixa extraída do CD “The Ultimate Billie Holiday” (Verve/PolyGram, 1997)

    * Texto originalmente publicado na página da Rádio UOL, do Portal UOL, em 29 de julho de 2014.


    lucas.colombo@minimomultiplo.com

    @lucas_colombo



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