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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Letra A
    by Rafael Fais

    Memórias sem cárcere
    28/05/2014


    Pé Vermelho está com o amigo Polaco num restaurante, em Curitiba. É década de oitenta, e ele escuta o seguinte, após fazer um comentário sobre a saúde do outro: “Não vou morrer de tanto me matar, não, vou morrer de tanto viver”. O acontecimento em questão nessa frase acabou se dando em junho do último ano daquele decênio.

    Polaco e Pé Vermelho são os apelidos do poeta Paulo Leminski (1944-1989) e do escritor Domingos Pellegrini, autor do recém-lançado “Minhas lembranças de Leminski”. Esse encontro no restaurante foi o último dos dois, e é um dos muitos que Pellegrini relembra no livro.

    O autor se empenha em resgatar suas memórias para trazer Leminski, por meio da escrita, ao tempo presente do leitor. Afinal, é no momento da leitura que a figura do poeta vai surgir para quem ler o livro, uma mistura de memórias e ficção. E é mesmo intensa a incursão de Pellegrini por esse mundo abstrato e incerto que ele transforma em texto. Em cada recordação das saborosas histórias que viveu com o poeta, ele tenta capturar o gesto de Leminski, seu jeito de falar, sua verborragia talentosa e carismática, sua visão de mundo e opiniões sobre os mais variados assuntos.

    Há também memórias de eventos mais recentes. Ele está no quarto dos netos lendo trechos de “Catatau”, romance do amigo. As crianças dão muita risada, e a emoção o impede de prosseguir a leitura. “Um amigo me pegou”, diz, e mostra o peito ao neto para revelar por onde foi fisgado. Isso que, três décadas antes, durante uma discussão, o hoje avô Pellegrini explicava a Leminski por que não havia gostado de “Catatau”...

    Pelegrini parece, com “Minhas lembranças de Leminski”, ter se dado outra chance de estar novamente com o amigo e querer reavaliar questões ou simplesmente revivê-las na maneira que escolheu para realizar seu projeto. A relação dos dois tinha mesmo uma tensão estimulante para ambos.

    No conto “Memórias de uma romancista”, de Virgínia Woolf (disponível em seus “Contos completos”), a biógrafa de Ms. Willat, ao voltar do funeral dela, se pergunta: “Que direito tem o mundo de saber sobre homens e mulheres? O que pode um biógrafo contar?” Pois este novo livro, além de histórias sobre Leminski, nos conta sobre o passeio de um escritor se perdendo e se encontrando por sua memória. Esse escritor, até quando está quase a capturar um gesto, segue em busca de outro que dá vida a mais uma história vivenciada por ele e pelo amigo. A narrativa desses momentos vai se encaixando na mente e formando uma imagem fugidia, onírica muitas vezes, que, em razão da habilidade do autor, o leitor acompanha com excitação, na esperança de também se encontrar com Leminski.

    Em outra passagem do conto de Woolf, a biógrafa faz uma reflexão pertinente à época e ao país em que leis contra biografias não autorizadas, que já retiraram livros das gôndolas, estão para serem derrubadas pelo Senado Federal. Pensa ela: “quão agradável é o mero escrever, quão importantes e irreais as pessoas se tornam por impresso, sendo assim uma vantagem tê-las conhecido; como a própria figura de quem escreve pode decidir que se lhe faça justiça”. A melhor maneira de percorrer o livro de Pellegrini é, justamente, considerando a ideia de que a vida do escritor de “Catatau” será sempre maior do que quaisquer páginas que tentem “aprisioná-lo”. E, ainda assim, notando que o empenho do autor em mostrar o Paulo Leminski que ele conheceu faz da leitura de seu livro uma atividade da qual não se desvia quem deseja entrar no mundo do icônico poeta.


    @rafaelfaisjorn


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