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    Etc...

    Bibliotecas pessoais
    Helena Terra*
    08/04/2014


    Giorgio Agamben, filósofo italiano, diz que “a contemporaneidade é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias”. Pois bem, bibliotecas são uma singular relação entre um ou mais leitores e um calendário paradoxalmente solidário e avesso à passagem dos anos. Bibliotecas são o tempo passado, o tempo presente e o tempo futuro – a imortalidade do intelecto humano personificada em páginas e intangível como uma alma – convivendo em diversas configurações.

    Quem duvida que abra o livro “Fantasmas na biblioteca”, de Jacques Bonnet, e comece tentando apagar a epígrafe: “Depois do prazer de possuir livros, não há quase nenhum mais doce do que falar deles.” Se conseguir a proeza, parabéns, feche-o. Se não, siga em frente e siga de olhos abertos para o diálogo: personagens, sejam reais ou fictícios, têm muito a contar, ainda mais se viverem entre livros.

    Viver entre livros, entre dezenas, centenas, milhares. Viver por causa dos livros, para eles, perdido ou organizado entre eles. Perdido? Organizado? Como? Eis um ponto explorado por Bonnet, francês bibliófilo e curioso tanto a respeito de suas motivações como das de outros colecionadores: o que leva alguém a ter uma biblioteca. De acordo com ele, são numerosas as respostas: tradição familiar, estudo, tendência à misantropia etc. Em seu caso, o desejo de aplicar a definição de Jorge Luis Borges de que “ o paraíso é uma biblioteca”, vontade oriunda de sua infância e do tédio que sentia diante do autoritarismo parental e escolar da época. Em 1967, por exemplo, era proibida a entrada de um jornal em um liceu público francês.

    Ler, além de ser um meio de fuga salutar à aridez imposta, também o capacitava a elucidar a realidade, capacitava a sua geração a levantar questões, fossem elas coletivas ou individuais, como a de com quantos livros se faz um paraíso. Não há consenso, ele afirma. Para uns, um único livro basta. Para outros, é preciso ter o gosto por séries completas, é preciso ler todos os autores, passear por todas as épocas, por todos os dramas e visões de mundo. Em termos gerais, Bonnet divide os bibliomaníacos em dois gêneros: os colecionadores e os leitores obstinados.

    Os colecionadores, por conta própria, se distribuem em outras duas categorias: especialistas e acumuladores. Especialistas se apegam a um autor, a um gênero, a um tipo de encadernação e por aí vai. Nem sempre as escolhas parecem lógicas. Há quem tenha se limitado aos autores cujo nome comece por uma letra específica. Outro fator de escolha pode ser a raridade da obra, opção que está a um passo do que Bonnet chama de “colecionite”. Quanto mais livros são acrescentados a uma coleção, mais se quer acrescentar e, uma vez, completa, adeus ao interesse. “O importante é a caça.” Não há sofrimento algum em renunciar à leitura das obras acumuladas, ele explica.

    Já entre os leitores obstinados ocorre o oposto. A acumulação decorre da intenção primeira de saciar uma curiosidade e uma inquietação inextinguíveis, de desvendar realidades desconhecidas, de desvendar as histórias, as inteligências e as emoções que se escondem por trás de palavras, frases, parágrafos. O leitor obstinado não conhece fronteiras, constrói uma biblioteca quase por acidente. Quando percebe, tem livros espalhados por todos os cômodos de sua casa, e sempre encontra uma boa razão para guardar os lidos.

    Diz Bonnet que “o livro é a materialização de uma emoção, ou a possibilidade de ter uma algum dia, e separar-se dele faria o leitor correr o risco de uma ausência grave.” Concordo. Vejo em minhas estantes, embora humildes, um mundo ao alcance de minhas mãos. Mundo caótico arrumado conforme minhas particularidades, flexíveis como as fases que vivo e inscrito de maneira indelével em meu espírito de leitora. São personagens, são autores, são ficções demarcando-me a morte e ampliando-me a vida. Talvez, um dia, seja possível desprender-me deles. Enquanto não, feito um fantasma percorro os labirintos da arte de viver entre livros.


    * Helena Terra é jornalista e autora do romance “A condição indestrutível de ter sido”. Texto originalmente publicado no site Amálgama.


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    Comentários dos leitores


    Prezada Helena,
    chego a seu texto, deleito. O duplo de mim lê por sobre meus ombros, desdobra prazer, inquietação. Fecho as páginas e o aprisiono para recuperá-lo em nova leitura, no mesmo livro, ou alhures.
    Parabéns, e grata.
    Nilma Lacerda