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    Etc...

    Geografia
    Lucas Barroso*
    19/03/2014


    – Eu os invejo – disse, em meio a vozes. – Vocês que parecem e se mostram felizes. Vocês precisam entender que a felicidade é algo absurdo. É algo comovente e único. Um momento de felicidade vale uma vida inteira. Buscá-la é o sentido de tudo que nos cerca. Não é a morte. Não é a vida. O inexplicável, incompreensível, o mistério que encanta, encerra ou escancara as janelas da alma, é a felicidade. Eu afirmo para todos que têm ouvidos para escutar: vocês se enganam, com esses sorrisos, esses trejeitos premeditados e essas falsas lutas corporais. Admirar uma paisagem natural ou manipulada, um animal, ou até mesmo um bebê, não deve resultar em felicidade instantânea. No máximo, alegria, ou qualquer outro momento fugaz, um sentimentalismo menor. Não há como encontrar a felicidade, planejá-la ou construí-la de forma pensada. Tudo que nos rodeia não é, de forma alguma, felicidade. Felicidade não é um sentimento que reflete uma natureza. Não é algo banal, fútil, frívolo, que foi criado com o Universo, mesmo o Universo sendo repleto de uma alta complexidade...

    Nesse instante, levou a mão esquerda até a nuca, declinou a cabeça. Ainda ouvia diálogos marginais, por isso, aumentou a gravidade da sua voz. – O homem é mais complexo e confuso. O homem é o Universo, a História e a Felicidade. O ser humano, como todo sentimento do mundo, é uma música, um livro, um quadro, uma guerra... – parecia cansado, agora. – Como eu disse antes: eu os invejo. Da aceitação das palavras, qualquer palavra, à falsa postura de gente. Tudo que os rodeia não os humaniza. A natureza acaba os tornando animais, e, sim, vocês, antes de tudo, são animais. Por motivo de força maior, são animais, porém sentimentais e apegados à felicidade. É isso que vocês esquecem ou fingir esquecer. Por que motivo? Em nome de quem? Nada vale esse teatro rotineiro de vocês. Essa farsa, de que se é feliz, de que se é possível alcançar a felicidade, como uma fruta em uma árvore, em algum momento, deixará marcas tão profundas, que dará aflição só de tocá-las ou recordá-las. A felicidade nos diferencia e nos une, nos tira da racionalidade do Destino, que acaba sendo, inevitavelmente, nascer, crescer, morrer, degenerar e virar terra. A felicidade é o sonho e o medo. A felicidade é o pai e a mãe. A felicidade é o primeiro choro e a primeira falta. A felicidade é uma invenção do homem. O sangue artificial do coração é a felicidade. A loucura que nos torna únicos é a felicidade... – esbaforiu-se. – Vocês têm que parar! – berrou, assustando e surpreendendo a todos. – Não alimentem esse erro, por favor! – calou-se, respirou. – Não deem pipoca aos macacos, por favor. A felicidade não é isso. A felicidade não é esse show de calouros, essas piadas ensaiadas, esses comerciais de televisão. O palhaço é um homem e não consegue ser alegre o tempo inteiro, por mais que essa seja sua sina.

    Deu as costas a todos, as vozes seguiam, representando um coral caótico, com uma frequência modulada, de contraltos e quase silêncios. – Vocês percebem? – perguntou, olhando para todos, mas, ao mesmo tempo, não admirando ninguém. – Vocês, realmente, percebem? Sabem do quê estou falando? – esperou que surgisse uma réstia de mudez, que quase nasceu; entretanto, desistiu, entregou-se aos burburinhos incessantes. – Ah, mas ninguém é feliz, de fato. A felicidade é uma utopia. A felicidade é um fenômeno e, como tal, não tem hora marcada. Pode-se sentir a felicidade em uma rara manhã de domingo, quando o sono não veio. Pode-se sentir a felicidade na morte, que, para muitos, é antônimo da própria felicidade. A vida, o nascimento, e a morte, o fim, nada tem a ver com a felicidade. A felicidade está entre elas, serpenteando, trazendo sentido ao caminho do homem. São desses sentidos que falo, desses que vêm junto da felicidade: o amor, a dor, o ódio, a pena, a compaixão, a desistência... Nós somos isso, somos a imagem e a semelhança de que retrata a felicidade. Somos uma carne argilosa, incrustada de ossos e fiações, buscando algo que nos faça ignorar os sentidos que criamos. Temos uma razão irracional que nos distancia da frieza dos bichos, que usam a natureza e a compõem, até que a morte os separa de tudo.

    Antes de prosseguir, deu leves murros na parede. – Vocês entendem? Isso tudo existe. Porém, isso tudo que vemos não nos interessa. É preciso abstração, forças invisíveis, para nos mover. Nos retirar da inércia, embebedar nosso coração louco e selvagem. Ah, é disso que estou falando! Da razão da loucura, dos motivos do louco, que o fazem andar nu, queimar dinheiro, comer a fruta proibida, trair o melhor amigo por umas moedas. Não, eu não estou falando do que é certo ou errado. Não é isso! Estou falando da tentação, da força que nos remete para o inevitável, para a perdição. É o que causa arrependimento, danos irreparáveis, perdas involuntárias... Tudo o que o tempo não trará de volta, porque nós somos os criadores do tempo. Os dias são ilusões rotineiras da natureza. Nós somos o nascer e o morrer do Sol. Nós somos a saudade absurda, a memória infinda do que não volta. Aí está a felicidade, em um pequeno espaço de nosso vasto Universo de dias contados em folhas de calendário.

    Retirou um lenço do paletó, secou o rosto suado. – Nossos dias são repletos de personagens, nós vivemos nosso mundo, caçamos nossa felicidade. Os outros são figurantes que circundam nossos passos. Entretanto, nos outros é que reside a felicidade. Aquela felicidade clandestina ou casual depende de alguém, de alguma figura que existe, de uma alma dispersa e promíscua. Quando falo existe, falo também dos mortos, porque todos ficamos, todos teimamos com nosso próprio tempo, teimamos, porque a felicidade é nossa sina. Essa energia que temos e não sabemos da onde vem e por que subitamente aparece é a felicidade nos assombrando, é o nosso sublime entusiasmo, que faz as coisas que nos cercam terem e não terem sentido.

    Parecia que precisava de ar, aproximou-se da janela, os galhos balançavam com a brisa, não havia pássaros lá fora. – Como dói não ser feliz! Dói porque, em algum lapso temporal, algum acaso consentido, sentiu-se o que é a felicidade e o quão valiosa e rara ela é. Todos os gestos, ações, reações e abnegações serão, para sempre, destinados à felicidade, que jamais será plena, prolongada, constante. Por mais que a gente queira, a felicidade...

    No encerramento de sua tese absurda, um aluno o interrompeu.
    – Mas professor, o que isso tem a ver com Geografia?

    Ele olhou o menino, bem fundo em seus olhos. Devia ter uns doze anos. Segurava um lápis apontado entre os dedos. O caderno, deitado na carteira, estava em branco. Desviou e mirou o restante da turma, muitos de costas, jogando conversa fora com seus colegas. Uma menina lixava as unhas e assoviava uma canção popular. Sentou-se.

    – Por hoje, acho que é isso. Podem ir para o recreio...


    * Lucas Barroso é jornalista e autor de “Virose”.


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