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    Letra A
    by Rafael Fais

    Jornalismo em 2013
    16/12/2013





    Em 2013, a prática do jornalismo sofreu, no mundo todo, impactos negativos de vários tipos, como os contínuos e crescentes atos de violência contra repórteres, muitas vezes com a morte desses profissionais. Mas também ganhou iniciativas que podem ser positivas para sua sobrevivência e aperfeiçoamento.

    Vamos, primeiro, às notícias ruins. No último dia 25 de novembro, a FIJ (Federação Internacional dos Jornalistas) precisou lançar uma campanha, com alcance global, de denúncia à violência contra jornalistas mulheres, para cobrar das autoridades públicas ações contra a impunidade em casos de agressão e violação. O episódio mais chocante listado pela FIJ foi o da congolesa Kamwira Sabedoria: ela foi sequestrada, amarrada e jogada num rio por um grupo armado. Felizmente, foi encontrada viva, três dias depois. No mundo inteiro, casos de violência contra profissionais da imprensa têm sido numerosos. Aqui no Brasil, segundo a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), 50 profissionais sofreram agressão durante os protestos de junho, e 19 deles eram mulheres, atacadas tanto por policiais (a exemplo de Giuliana Vallone, da Folha) quanto por manifestantes (como Tahiane Stochero e Gabriela Alves, do portal G1).

    Ainda no campo dos impactos negativos, destacaram-se, por incrível que pareça, atitudes do governo Barack Obama. Relatório do Comitê para Proteção dos Jornalistas (Committee to Protect Journalists), de outubro passado, considerou a atual administração dos EUA a que mais criou dificuldades ao trabalho dos correspondentes que cobrem a Casa Branca, em todos os tempos. Segundo o relatório, o governo Obama já processou seis funcionários públicos – incluindo o ex-técnico da CIA Edward Snowden – com base na Lei de Espionagem, contra três de governos anteriores somados (a lei é de 1917). Os processos foram movidos em razão de vazamento de informações sigilosas para a imprensa. O estudo do Comitê ainda trata do medo das fontes serem processadas por se relacionarem com os jornalistas de política, o que faz até assuntos “sem classificação” (não-sigilosos) deixarem de ser temas em entrevistas, porque as fontes se autocensuram.

    No Brasil, o apoio do grupo Procure Saber à manutenção dos artigos do Código Civil que possibilitam a proibição de biografias escritas sem aval dos biografados faz quem lida com o garimpo de informações depender de interesses de pessoas bem preparadas e com poder suficiente para tumultuar e confundir o que deveria ser claro e inabalável há muito tempo: o direito à informação e sua circulação, seja por meio de livros, revistas ou o que for. Em outros países, a equação é simples: divulga-se o livro, e, depois, reparações e punições podem ser pedidas na justiça. Aprovação do biografado antes de ter seu perfil ou história de vida publicados paralisa a engrenagem das editoras e o trabalho de jornalistas e pesquisadores, além, é claro, de ir contra a liberdade de expressão.

    “Quem é Roberto Carlos para decidir o que eu posso ler?”, perguntou o veterano jornalista Alberto Dines, durante entrevista com o autor da biografia proibida do cantor, no programa Roda Viva, da TV Cultura. A retirada de circulação do livro sobre o ícone da Jovem Guarda fez o trabalho do jornalista Paulo César de Araújo virar emblema de uma legislação que permite decisão judicial mais parecida com censura do que com defesa do direito à privacidade. Aliás, esse é um conceito que precisa ser revisto frequentemente, em razão da velocidade da transformação tecnológica atual, que coloca todos nós sob novas demandas éticas e práticas. Ninguém é obrigado a publicar fotos nas redes sociais, mas quando cadastramos nossos dados em sites de compras, aplicativos gratuitos ou pagos, damos a eles direitos sobre essas informações. Qualquer foto postada no Instagram, a rede social de fotografias, pode, desde janeiro de 2013, ser cedida para o Facebook (seu proprietário) usar como bem entender, inclusive em campanhas publicitárias – mas isso renderia outro texto.

    Passemos agora ao lado bom da história: 2013 também viu o positivo acordo entre o jornal americano The Washington Post, o britânico The Guardian e Edward Snowden. Os jornais revelaram, a partir de informações do ex-técnico, a espionagem do governo dos EUA a governantes de outros países e a milhões de dados de cidadãos no Google, Microsoft, Facebook, Yahoo, Apple e Skype, e enfrentaram a possibilidade de qualquer resposta mais dura dos EUA ao trabalho dos autores das reportagens. A publicação da história fez a imprensa ganhar oxigênio ao continuar observando as regras da democracia, que sofre quando o bom jornalismo não pode ser livremente praticado. Principalmente porque mostrou ainda conseguir revelar informações contrárias aos interesses de governos, nesse caso o do mais poderoso do mundo.

    O acesso cada vez maior a conteúdos informativos na web e a adesão de pessoas que usam ferramentas e plataformas online para publicar e contestar fatos também contribui para a liberdade de expressão, porque pode inserir mais cidadãos em debates sociais relevantes, algumas vezes forçando a mídia “tradicional” a tratar de assuntos sob outros ângulos, como os vários revelados em streamings e posts nas redes sociais durante as manifestações de junho no Brasil, e anteriormente em países como o Egito.

    O jornalista Josh Stearns, estudioso da liberdade de imprensa, chama essas publicações de “atos de jornalismo”, porque são feitas por pessoas de fora da área. Para ele, são atitudes que reforçam a liberdade de imprensa. Muitas dessas pessoas, porém, de dentro ou fora da área, adotam um discurso autoritário, de desconsideração e repúdio à simples existência de jornais, revistas e canais de TV estabelecidos e com visões diferentes das suas. Ataques à liberdade de opinião e informação, de qualquer tamanho ou tipo, é que são preocupantes, e não o emprego dessa liberdade. A convivência harmoniosa entre todas as formas de comunicação, antigas ou novas, dessa ou daquela linha editorial, é que pode fortalecer a qualidade do que sabemos e empoderar a sociedade. Que em 2014 todos possamos refletir sobre isso.


    @rafaelfaisjorn


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    Comentários dos leitores


    Que em 2014 todos possam refletir sobre isso. Domingos Capitango