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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Letra A
    by Rafael Fais

    Vitória da hipocrisia
    30/08/2016




    Quem vai ter coragem de dizer que não foi legal assistir às conquistas dos atletas e às festas de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos? Afinal, o Brasil ganhou medalhas, vibrou com histórias de superação de seus esportistas e, por 15 dias, vestiu a máscara de um país que funciona.

    O palco foi a cidade que reúne duas incontornáveis exuberâncias: a da beleza e a da violência. Se estivessem listados aqui os problemas do Rio, aqueles com os quais a maioria dos brasileiros de outras cidades compete no dia a dia, você não teria tempo de ler este texto. Vou me ater a um problema de outra natureza: o cerceamento de opinião a que as pessoas contrárias à realização dos Jogos no Rio foram submetidas nas duas semanas em que parecia proibido apontar a realidade do Brasil disfuncional porque tinha visita na sala – turistas, delegações estrangeiras, o “Mario Bros” japonês. Inclusive, o primeiro-ministro Shinzo Abe, ao vir de personagem de videogame (tanta cultura mais significativa, e ele faz essa opção), parece ter querido aludir ao fato de que estamos gameficados na vida real, pois tudo é um jogo que tem sempre o mesmo perdedor: nosso povo sem medalha, sem prêmio e sem sobrevida nessa competição de ser cidadão na segunda-feira de manhã, horas em que a incompetência e o descaso das gestões vencem escandalosamente.

    Como não concordar com uma realização Olímpica, autorizado pelos Deuses e mitificado pela tocha grega, ao abrirmos a casa para os ícones do esporte mundial? Ainda que a maior parte dos gastos com os Jogos tenha sido paga pela iniciativa privada, como não preferir que o país arrumasse suas contas saqueadas antes de gastar com festa? Explicar essa conta a quem sofre diariamente com a falta de serviços básicos me parece uma tarefa constrangedora. Desejar o aprimoramento das condições básicas de vida dos cidadãos, em vez de maquiar a casa para os convidados, é um pecado imperdoável. Varrer a sujeira é a conduta que deve ser adotada.

    É um pecado recusar as delícias de uma celebração como os Jogos Olímpicos. É como magoar alguém que oferece um bolo feito especialmente para você sem você pedir, sem te contar que ia prepará-lo. O bolo está pronto ali na sua frente, recusar é uma violência contra quem ofereceu. Soa como afronta, ranço, desperdício. O culpado é você, estraga-prazeres, fracasso-maníaco, do contra! Tem que elogiar e agradecer mesmo sem gostar de bolo ou estando de dieta.

    O tom da imprensa televisiva e da maioria dos portais noticiosos brasileiros foi de comoção, de torcida, uma verborragia pseudoemocional. Parecia seguir a estratégia de repetir exaustivamente a ladainha do enorme esforço do país em mostrar para o mundo que somos eficientes, capazes, organizados, para, assim, fazer os contrários ao evento sentirem uma espécie de culpa. Será que queriam esmagar o livre espírito crítico com essa repetição dos discursos fanáticos dos organizadores?

    Durante 15 dias, ouvimos sobre o Brasil que se supera, o Brasil que consegue o que quer. Testemunhamos a emoção, a vitória, a garra. Cadê tudo isso no dia a dia por parte dos governantes que prometem a mesma coisa há décadas e não entregam? Tenho curiosidade sobre como os políticos e governantes teriam de se esforçar mais para justificar seus cargos e suas verbas, para sofisticarem e aprofundarem seus discursos, suas promessas de campanha, seus projetos, se os problemas básicos estivessem erradicados.

    Essa festa com a casa desarrumada me fez pensar no filme “Festim Diabólico”, de Alfred Hitchcock. Na história, há um corpo na sala, embaixo de uma mesa, mas os que sabem do cadáver encenam estar tudo bem para os que não sabem de nada. Sobre o corpo é servida uma refeição. A diferença aqui é que todos sabiam de tudo, porém se dividiram entre resignados e entusiastas. Quanto ao bolo olímpico, todos temos que pagar por ele.

    Um pouco antes da festa, a situação de crise econômica e política do país tomava conta da mídia, com a urgência de condenações, julgamentos, delações, acusações e prisões a que temos assistido desde o mensalão, para que, depois, o noticiário da maioria dos telejornais e portais da web desse espaço aos Jogos e aquele exagero de discurso ufanista, peculiaridades das personalidades de apresentadores, o jeito de o atleta morder a medalha, etc. Fatos políticos, econômicos e culturais ficaram em segundo plano, sem o destaque que merecem. Como não lembrar a dialética da atemorização e tranquilização, descrita pelo professor Ciro Marcondes Filho, para quem a programação noticiosa, muitas vezes, estimula processos de preocupação, seguido de alivio e descontração, para manter a audiência do consumidor de notícias?

    Agora, voltam os temores provocados pela Lava-Jato, e a vida do brasileiro que se informa pela mídia mainstream é que pode ficar sujeita ao do sobe-e-desce dessa gangorra emocional. Para descer da gangorra, é preciso assumir que o país e o povo precisam de condições dignas de funcionamento todos os dias, não só durante o período de realização de um grande evento mundial. É preciso deixar claro, agora em época de eleições municipais, que queremos administrações com projetos sólidos, que permaneçam depois do mandato de quem os executou, atendendo ao povo e não à carreira de um determinado político ou partido. A resignação ou o entusiasmo devem ser trocados pelo enfrentamento da realidade de que ainda precisamos acertar nossas contas mundanas, coisa indispensável ao nosso permanente dia a dia, antes de flertarmos distraidamente com um olimpo temporário.


    @rafaelfaisjorn


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