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    Louco amor louco
    Jefferson Maleski*
    24/07/2012


    Responda rápido: qual seria o futuro de alguém cujos pai, padrasto, esposa e três filhos tivessem se suicidado? O que ele se tornaria com uma família assim? Bem, Horacio Quiroga (1879-1937) teve uma família assim e tornou-se escritor.

    Quiroga, uruguaio, foi um autor que se destacou na escrita de contos fantásticos e macabros, mas também nos deixou romances. Ou melhor, duas novelas, publicadas no Brasil em 2008, pela L&PM Pocket, com o título “História de um louco amor - seguido de Passado amor”. O escritor admitiu abertamente ter sido influenciado pela leitura de Dostoiévski na escrita destas novelas, mas nota-se o toque latino e pessoal nos personagens. Quiroga viveu na região inóspita das Missões e os protagonistas também são homens da cidade que vão para o interior, e ficam indecisos entre dois amores. Mas não espere escritos fáceis de acompanhar. Não há final feliz, talvez esta seja a última preocupação do escritor. Se observar melhor os textos quiroguianos, a felicidade é algo extremamente fugaz e sempre um meio termo entre dois sofrimentos: sofre-se para alcançar o objeto da paixão e depois se sofre por tê-lo alcançado.

    Em “História de um louco amor” (1908), Luiz Rohán envolve-se com as irmãs Mercedez e Eglé Elizalde, revelando-se um personagem indeciso, egoísta e ciumento. É o herói e o vilão da história. O leitor, a certa altura, vai parar para pensar que, se a personalidade de Rohán fosse um pouco mais maleável, mais humilde, menos ciumenta, a história teria um final feliz. Mas daí ele não seria Rohán. Quiroga parece querer prolongar os momentos de sofrimento ao máximo. A revelação dos sentimentos entre Rohán e Eglé se arrasta ao ponto de causar desespero no leitor. Até um simples beijo entre dois apaixonados necessita de uma boa carga antecipada de sofrimento. O ciúme e a introspecção fazem com que as mulheres acabem não entendendo o que se passa na cabeça de Rohán. Ele é o narrador-personagem, talvez até o escritor-personagem.

    Apesar de o leitor saber dos conflitos do protagonista, através do narrador, as outras personagens não o sabem e o encaram como louco. Exatamente como acontece na vida real. Quantas vezes você não julgou alguém como perturbado por não saber os seus motivos de agir? Ou quantas vezes você não foi julgado assim? Apesar de narrar uma relação amorosa conflituosa, Quiroga chega bem mais perto da realidade que da ficção. Mostra um manual do que não devemos fazer, pois o resultado poderá ser desastroso.

    Já em “Passado amor” (1929), a situação é a inversa do conto anterior, apesar de alguns elementos se manterem: o protagonista é homem, Morán, frente a dois amores, a rica e bondosa Magdalena Iñíguez e a sensual e trabalhadora Alicia Hontou. A oposição e os conflitos não são internos, mas vem da família, das diferenças religiosas, do destino (ou seria do escritor-destino?). Melhor elaborada e com personagens mais caracterizados – mesmo os secundários –, “Passado amor” é mais complexa, e por isso melhor, que “História de um louco amor”. Mas não deixa de ser trágica. Como já dito antes, o amor e a felicidade em Horácio Quiroga são fugazes. Morán ama Magdalena mas deseja Alicia. Novamente o leitor se pegará pensando que a mulher ideal seria uma junção das duas. Novamente o escritor acerta em cheio ao optar pela proximidade do real. Ninguém é exatamente do jeito que o outro quer, seja um personagem fictício, seja o amor de sua vida. Devemos aceitar as pessoas como elas são ao invés de fantasiar como gostaríamos que elas fossem.

    Se há alguma “mensagem” nos romances de Horacio Quiroga, provavelmente é a de que é preciso escolher com atitude quem gostaríamos de ter ao nosso lado, sem indecisões, sem rodeios, sob o risco de a oportunidade passar. Talvez não haja uma segunda chance para o mesmo amor, tal como o café, que requentado nunca tem o mesmo gosto. E não agir a tempo pode ser pior do que agir erroneamente. Quiroga, por meio de suas histórias, consegue implantar um sentimento de desespero típico dos apaixonados quando ainda não têm o seu amor perto de si, ou dos suicidas quando não veem mais outra saída à sua frente. Ah, e já ia me esquecendo de mencionar: além de ter família de suicidas, Horacio Quiroga também se suicidou.


    * Jefferson Maleski vive em GO, é leitor voraz e brinca de escritor nas raras horas vagas. Mantém o blog libru lumen, em que este texto foi originalmente veiculado.


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    Comentários dos leitores


    Jefferson, você escreve muito bem, e esta é a primeira resenha sua que leio! Parabéns!! Não conhecia esse escritor, e adorei saber um pouco mais sobre literatura, obrigada. Graça Lacerda