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O que vai acontecer com Temer?

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    Etc...

    Lobos e tijolos
    Fabiano Schüler*
    11/07/2012


    "Bad books on writing and thoughtless English professors solemnly tell beginners to 'Write What You Know', which explains why so many mediocre novels are about English professors contemplating adultery."
    - Joe Hadelman


    Um conselho comum que se ouve quando alguém quer virar escritor é que a pessoa deve “escrever sobre aquilo que conhece”. Ou seja, não invente um romance sobre a dura vida dos domadores de puro-sangues na Península Arábica se a coisa mais próxima disso que você já viveu foi brincar com o cavalinho de balanço no playground do seu prédio.

    Felizmente, quem tenta escrever qualquer coisa que preste – conseguindo ou não – logo percebe que essa dica é uma furada. É claro que é preciso saber o que você está dizendo, mas, levada às últimas consequências, essa regra atolaria o mundo num brejo sem fim de chatice autobiográfica.

    Isso não quer dizer que a tentação não exista. Ela está aí, e eu acabo de ser vítima dela.

    Com o perdão do clichê, eu sou exatamente o tipo de pessoa que começa o ano com uma lista de objetivos. Para 2012, um dos principais seria escrever mais. “Mas tu escreve o dia inteiro, Fabiano, não tá bom assim?”, vai perguntar alguém. Sim, eu escrevo o tempo inteiro no trabalho, mas não é de hoje que eu sinto falta de criar coisas mais autorais, da mesma forma que não é o primeiro ano em que eu me cobro a respeito. A estratégia? Obrigar-me a escrever em momentos livres, todo dia, pelo menos um pouquinho. Mesmo estando cansado. Mesmo tendo trabalhado o dia inteiro. Mesmo que o texto não saia bom.

    Para isso funcionar, é importante entender que texto ruim é melhor que texto nenhum, deixando um pouco de lado a ansiedade pelo resultado final. E foi na ansiedade que eu me ferrei.

    Porque a ansiedade é minha pastora. E embora eu seja um carneiro velho de carne dura, ainda que eu ande pelo vale do sol e dos passarinhos felizes, ela não me deixa em paz.

    Eu não estou falando de ficar apreensivo antes de uma prova, nem de apresentar um projeto e não saber se ele foi aprovado ou não. É outra coisa. É o conteúdo sujo de um baú que a bisavó do medo nos deixou. Um temor cru, indomado, sem estrutura. Um alerta que parece ser de lobos, de bárbaros, da noite - mas que na verdade é intransitivo, não tem objeto nenhum. E, por não ter no que se basear, ele quer grudar em tudo. Na primeira coisa que aparecer pela frente. Esqueceu de pagar a parcela? Perdeu o ônibus? Não sabe se vai hífen? Acabou, cara. Os lobos. Os lobos vão te pegar.

    Alguns anos de terapia depois (e com certeza outros tantos pela frente), eu ontem tentei cumprir a dose diária da minha resolução de ano-novo falando um pouco sobre isso. E acabei aprendendo uma pequena lição sobre a natureza da criatividade e do próprio ato de escrever.

    Escrever é organizar. É como ter um monte de tijolos e cimento, e empilhá-los na forma de uma casa: para ela ficar de pé e funcionar, tem que empilhar direito, fazer uma fundação boa, usar vigas no lugar certo e prever entradas e saídas para cada espaço que se cria. Mil arquitetos criariam mil casas diferentes a partir da mesma quantidade de tijolos, mas todas elas precisam seguir as mesmas leis básicas para não desabar. E, para construir qualquer uma delas, o mais importante: você precisa esvaziar o monte de tijolos e cimento.

    Acho que você já entendeu aonde eu quero chegar.

    O texto que eu tentei escrever ficou pior que ruim. Ele não aconteceu, porque eu dei de cara com uma impossibilidade das grossas: escrever sobre a minha ansiedade é tão difícil e sem sentido quanto tentar construir uma casa que descreva a pilha de tijolos de onde ela saiu. Ou seja: minha ansiedade é caótica em essência, enquanto escrever é um ato de ordem. Uma coisa aniquila a outra.

    Isso explica ao mesmo tempo por que a escrita é uma das coisas que me mantêm são e o motivo pelo qual escrever tem sido uma luta diária. Este não é um texto sobre a ansiedade, porque o ato de escrever sobre certas coisas as descaracteriza. E, quando nos limitamos a escrever apenas sobre o que conhecemos, das duas uma: ou nosso texto é raso e não se sustenta – ou nos aprofundamos e corremos o risco de destruir essa familiaridade. De perdê-la para os lobos. Os bárbaros. A noite.

    @fschuler


    * Fabiano Schüler é redator publicitário e tradutor. Mantém o blog InAbrupto, em que este texto foi originalmente publicado.


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    Comentários dos leitores


    olá, fabiano. vc escreveu sobre 1 tema q daria p debater o dia todo e ainda ñ o esgotaríamos. eu sou adpto da regra "escrever sobre aquilo q conhece" mas inversamente: "conheça aquilo sobre oq escreve", ou seja, pesquise pesquise pesquise sobre o q vc vai falar e terá a certeza d q 1 texto além do superficial irá surgir. é como disse samuel johnson: "a maior parte do tempo de um escritor é passado na leitura, para depois escrever; uma pessoa revira metade de uma biblioteca para fazer um só livro." JLM