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    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    Uma lágrima para Daniel Piza
    09/01/2012




    Ficou ótimo, Lucas, parabéns!”. Não me lembro de me sentir tão orgulhoso profissionalmente antes ou depois de ler esta linha, com que Daniel Piza começava o e-mail enviado para mim da África do Sul, aonde tinha ido cobrir a Copa do Mundo de 2010. Eu o havia entrevistado pela segunda vez, para o MM, e mandado o link para ele. Na primeira entrevista Piza já havia sido muito gentil e elogiado o material resultante. Mas agora ele estava lá no meio da fuzarca da Copa, trabalhando, como me diria depois, “24h por dia, sete dias por semana”, e tinha reservado 1min para me responder. Que máximo.

    Máximas foram também as lições que aprendi com ele, pessoais e profissionais. Este texto é insuficiente para enumerar todas e para salientar a importância de Piza para a imprensa cultural brasileira das últimas duas décadas. Morto repentinamente no dia 30 de dezembro, aos 41 anos, ele é um de meus mestres. Ao lado de Paulo Francis e Millôr Fernandes, foi responsável por me fazer querer ser jornalista cultural. E um jornalista cultural como ele, denso, provocativo, original. Piza era tudo isso. Fugia da mesmice. Independente, não fazia concessões ao senso comum ou ao politicamente correto. Desprezava patotas. Buscava a elegância na forma e no conteúdo dos textos. Lançava um olhar refinado mesmo sobre os temas mais simples. Sua referência era a tradição do jornalismo cultural de língua inglesa, da revista americana New Yorker a jornalistas e escritores como H. L. Mencken e Edmund Wilson. No livro “Jornalismo Cultural”, presente no topo da bibliografia para minhas aulas, apresenta com gosto a história de veículos como, além da New Yorker, também The Spectator e Esquire, e grandes jornalistas e críticos como Bernard Shaw e Karl Kraus. Destaca, ainda, experiências brasileiras quais a revista Senhor, editada por Francis, e O Pasquim, é claro. A turma do semanário carioca, aliás, igualmente o influenciou. Tinha muito da contundência e da vastidão cultural e jornalística de Francis, que foi seu amigo e incentivador, mas também apreciava Ivan Lessa, Ruy Castro e Sérgio Augusto. Nem preciso ressaltar que, com essas influências, ironia era um dos recursos que Piza dominava.

    Aprende-se a ser jornalista cultural lendo os grandes jornalistas culturais, não há ‘fórmula’ – vivo dizendo. E eu, com Piza, aprendi demais. Suas resenhas, reportagens, entrevistas e colunas estão todas no seu site, que tantas noites passei lendo. Ele era o melhor jornalista cultural brasileiro em atividade. Crítico do academicismo de tantos intelectuais da pátria amada (aqueles que confundem “ter cultura” com apenas acumular informações e “falar difícil”), exprimia sua grande bagagem cultural por meio de uma redação clara e direta, acessível a todos. Colunista de cultura de O Estado de São Paulo desde 2000, passou nos anos 1990 pela Folha de S.Paulo, pela revista Bravo! e foi diretor do Caderno Fim de Semana, da Gazeta Mercantil, uma das mais marcantes experiências de jornalismo cultural da imprensa brasileira. “Jornalismo Cultural”, de 2003, é a melhor referência sobre a área, no Brasil. É de Piza também “Machado de Assis – Um Gênio Brasileiro” (2005), biografia do nosso maior escritor, a qual julgava ser a obra de sua vida, e o livro-reportagem “Amazônia de Euclides” (2010), para o qual refez o percurso realizado pelo escritor Euclides da Cunha no rio Purus, no Acre, em 1905.

    Sua coluna no jornal, a “Sinopse”, lembrava o “Diário da Corte” de Francis: abria com um texto maior e depois ia para notas e aforismos. Até minicontos, às vezes, apareciam. Quando um artista, escritor ou jornalista importante morria, escrevia “Uma lágrima para...” – expressão inspirada em título de Wilson – e comentava o seu legado. Versátil, nesses tempos de hiperespecialização, analisava com propriedade literatura, cinema, música, artes visuais (aprendi com ele a não usar “artes plásticas”), e também ciência, política e futebol, mas sempre com um enfoque cultural, sempre pinçando os clichês, valores e (geralmente, maus) costumes nacionais espelhados nos fatos vindos dessas áreas. Dizia-se essencialmente um jornalista cultural, e o foi, como poucos, pouquíssimos atualmente. Levou patadas em função de lapsos que, por escrever muito e rápido, cometeu em alguns artigos. Retificava, mas não sem frisar aos chatos que “criticar não é revisar”. Respondia às “críticas” que considerava insensatas. Polemizou com Wilson Martins, com Luis Augusto Fischer e com outros jornalistas. Os que o admiravam, porém, eram muitos mais.

    No seu blog, movimentado, estimulava o debate. Diferente de outros blogueiros, lia os comentários de leitores e os incentivava. Raramente agradecia a cumprimentos e reações favoráveis. Aos que discordavam, pedia que a discussão fosse amparada em argumentos, e não partisse a ataques pessoais, coisa comum nessa cultura “cordial” em que vivemos (Sérgio Buarque era, para ele, o maior intelectual brasileiro). Muitas vezes, respondia de modo definitivo às questões levantadas pelos leitores. E sempre reclamando um nível maior de exigência, do público e da crítica, frente às pobrezas culturais do país. Piza não gostava de populismo. Acreditava ser possível seduzir o leitor para assuntos mais “complexos”, atraí-lo nivelando o jornalismo para cima, nunca para baixo. Se lhe pediam ‘conselho’ para ser jornalista, dava: “leiam”. Por sinal, não entendia como poderia haver jornalistas culturais incultos...

    As ocasiões em que conversei com ele, por telefone e pessoalmente, foram um prazer e um privilégio. Como já comentei com amigos jornalistas, Piza tinha tudo para “se achar”: farta cultura, amigo de Francis, editor e colunista de um grande jornal, autor de 17 livros... Mas não. Era muito atencioso e tranquilo. Me chamava de “cara”. Cumprimentava e tratava todos bem, atendia a pedidos de entrevista para TCCs de jornalismo, participava com disposição de seminários e feiras do livro no país e no exterior. E ainda lia assombrosamente, lia muito. E colaborava com revistas. E fazia comentários no rádio e na TV. E escrevia no blog. E, de uns meses para cá, embora desconfiado (ainda bem!) do oba-oba em torno das mídias sociais, mantinha um twitter. Citou Mário de Andrade, certa vez, para explicar como conseguia produzir tanto: “Eu sou 300, sou 350...” Quando tomamos um café no Estadão, em 2010, disse-me, entre uma boa história e outra, que estava envolvido com uma biografia de Iberê Camargo, para ele um dos maiores pintores brasileiros, se não o maior. Adorava o museu que leva o nome do artista, aqui em Porto Alegre. Várias vezes perguntei, nos últimos dois anos, quando ele viria ao RS colher informações para o livro. Sempre dizia que viria em breve. Ótimo, eu respondia, vou poder retribuir o café. Não deu tempo.

    Compartilhava com ele a leve irritação com pessoas fazendo fila para ganhar autógrafo de escritor. Mas para o Daniel Piza eu peço autógrafo, falei, quando passei o “Jornalismo Cultural” para ele assinar. Ele riu e consentiu. Escreveu: “Para Lucas, esperando que siga na mesma toada. Abraço do Daniel Piza”. Vou tentar, cara. Obrigado por me dar as instruções. De qualquer maneira, a falta será imensa.


    * Texto originalmente publicado no site da revista Continente Multicultural.


    lucas.colombo@minimomultiplo.com

    @lucas_colombo



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    Comentários dos leitores


    Lucas, o Piza deixou não só bons textos. Deixou um exemplo de como lidar com a Cultura de uma forma ampla, observando as várias matizes de cada época. Seu público não se restringiu assim a um determinado grupo, pois jamais se focou em um determinado assunto. Nunca desejou ser um especialista. Buscou o foco na amplitude de nossa sociedade contemporânea. Ele conseguiu passear por assuntos diversos, sem precisar cair numa linguagem específica ou técnica. Seus textos chamavam nossa atenção para as outras áreas que coexistem. Ora, essa é nossa vida! Abraço. Tobias Vilhena

    "Ficou ótimo, Lucas, parabéns!". Leo Fleck