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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    Diálogos da Corte
    19/12/2011




    Woody Allen fez um dos melhores filmes do ano ao recriar, para um escritor do século 21 desgostoso com a época fútil que vive, as festas da Paris dos anos 1920 em que se reuniam figuras como Ernest Hemingway, T.S. Eliot, Gertrude Stein, Salvador Dalí e Luis Buñuel. Pois a merecida boa recepção ao filme permite que tragamos a público esta recém encontrada gravação de uma conversa entre Nelson Rodrigues, Paulo Francis e Millôr Fernandes, jornalistas e escritores também representantes de uma “época de ouro” – no caso, a da imprensa e das artes brasileiras dos anos 1950/60.

    Os três têm alguns anos de diferença: Nelson nasceu em 1912, em Recife; Millôr, em 1923, no Rio; e Francis, em 1930, também no Rio. Naqueles tempos de efervescência cultural e intelectual na capital fluminense, contudo, os três estavam lá, contribuindo para tal ambiente, cada um à sua maneira. Nelson, após modernizar o teatro nacional com peças como “Vestido de Noiva” e “Álbum de Família”, nos anos 1940, continuava a escrever dramaturgia e tocava a coluna “A vida como ela é...”, no jornal Última Hora, para fascínio e escândalo dos leitores. Francis redigia críticas elegantes e impiedosas de teatro e editava a Senhor, revista que se tornaria um marco do jornalismo cultural brasileiro. Millôr, por sua vez, mandava ver em O Cruzeiro, como designer gráfico e titular da moderna seção de humor Pif Paf, que depois ganharia vida própria numa revista fundada por ele. Mais tarde, Francis e Millôr participariam da criação d’O Pasquim, no qual seguiriam inovando a linguagem da imprensa do Bananão, para citar termo de Ivan Lessa, colega deles no mesmo jornal. De Nelson, Millôr também foi colega, em O Cruzeiro, além de amigo.

    Nelson e Francis trabalharam muito para se convencerem do contrário, mas constataram o que Millôr sempre dizia – “O ser humano é inviável” – e abandonaram estas paragens, respectivamente, em 1980 e 1997. O autor da frase, porém, ainda está conosco, com o mesmo ceticismo. A gravação do diálogo entre essas três inteligências privilegiadas foi encontrada sem indicação de data ou local. Mas parece que também ocorreu durante uma festa.

    Francis: Além de gostar de imitá-lo em telefonemas para amigos, também aprecio muito seu trabalho, Nelson. Falei mal dele no passado, mas hoje reconheço que diz o que precisa ser dito. Você sabe do que é sexualmente inconsciente e irresistível. Escrevesse numa língua mais divulgada e seria montado por companhias do mundo inteiro. Seu teatro não é jeca como a maior parte do feito aqui.

    Nelson: Fico lisonjeado com seus elogios, Francis. Sei do seu nível de exigência. Do seu e do Millôr, meu bom amigo.

    Millôr: Estou ao lado de dois grandes amigos e colegas de trabalho. Salve.

    Nelson: Nosso passado em comum é mesmo gratificante. Trabalhamos bem. Éramos jovens mas tínhamos ao menos ideia do que fazíamos. Isso é raro, e hoje, então, é raríssimo. A juventude atual só faz idiotices. Nunca os jovens foram tão pouco generosos, tão pouco heróicos, tão pouco humanos. Tentem conversar com moços de 19 ou 20 anos, caros Millôr e Francis. Não se aproveita nada! Caso me pedissem para dar conselho aos jovens, diria: envelheçam depressa, com toda a urgência, envelheçam! Se hoje eles já quase andam de quatro, imaginem daqui a 40, 50 anos...

    Francis: Imagino e me espanto. Porque o que vemos hoje é mesmo uma juventude que se veste mal, come porcaria, vê porcaria, ouve porcaria etc., e se autofustiga que está não só contestando como que é feliz e que só caretas reclamam.

    Millôr: E a tradição de jornalismo denso e provocativo que, reconheço, praticamos corre risco de não ser levada adiante por eles. Outro dia, uma repórter me ligou para saber o que eu andava lendo. Almanaque Capivarol, respondi. Ela pediu para soletrar!

    Francis: São os mesmos que se gabam de ter frequentado curso de jornalismo! Escola de jornalismo tem que dar como currículo as obras completas de Machado de Assis e Eça de Queirós, com a obrigatoriedade de o aluno escrever depois um ensaio sobre as ditas-cujas. Só. O resto se aprende na redação.

    Nelson: Machado e Eça são espetaculares e, de fato, essenciais. Entre os brasileiros, acrescentaria Guimarães Rosa e Euclides da Cunha. Se é que os jovens já tenham ouvido falar deles.

    Francis: Rosa é bonito, mas chato. Euclides é, sim, indispensável, embora não seja modelo de estilo. Escreve como Jânio Quadros fala. Mas Os Sertões é obra de gênio.

    Millôr: Vocês disseram Machado? “A Glória que fica, eleva, honra e consola”... Eu, hein.

    Francis: Não leu Memorial de Aires, caro Millôr? É o livro mais bem escrito em português que há.

    Nelson: E Dom Casmurro? O livro traz uma verdade incontestável. Todo homem será, invariavelmente, traído ou traidor. O desejo é vil.

    Millôr: Claro que li Dom Casmurro. E percebi algo que vocês talvez não tenham percebido: quem o Bentinho queria, na verdade, era o Escobar, não a Capitu. A relação real acontece entre os dois. Ou dá – com o perdão do verbo – para pensar outra coisa ao ler trechos como “Ia alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim. Os rapazes também e Escobar mais que os rapazes e os padres”? Prestem atenção, pô.

    Francis: Waaal.

    Millôr: Um dia ainda escreverei um artigo sobre isso.

    Francis: Talvez não. A
    gay lib fará mais barulho que o usual.

    Nelson: Bentinho era um covarde. Deveria ter dado uma bofetada em Capitu. A deixaria aos pés dele. Toda mulher gosta de apanhar. O homem é que não gosta de bater.

    Francis: Não tenho certeza de que não goste. Penso que é da essência do masculino maltratar o feminino. Um casal de gatinhos recém-nascidos e o macho espanca a fêmea. Garotos, no meu tempo, implicavam com as meninas. O que se há de fazer? É claro que por trás dessa agressividade há o medo masculino do poder sexual da mulher.

    Nelson: O poder sexual da mulher...

    Millôr: Com o aumento no número de mulheres que dirigem carros, prevejo que a grande fonte de piadas acerca delas será justamente o desempenho ao volante. 10% das mulheres dirigirão admiravelmente, 90% serão material de anedota. Me cobrem daqui a 30 anos.

    Nelson: A pior atitude das moças modernas é a que vi outro dia num botequim: tomar refrigerante na própria garrafinha, com canudo! É uma imoralidade colossal. Peço a Deus que acabe com esse costume atroz.

    Francis: Acalme-se, Nelson. Você mesmo diria que ‘está subindo pelas paredes feito uma lagartixa profissional’.

    Nelson: Obrigado pela citação. É que essa nova geração realmente me faz muito mal. Os idiotas são maioria. Perderam a modéstia e querem mandar no mundo, inclusive no Brasil.

    Francis:
    We belong to a time when Brazil was a civilized country.

    Nelson: Nosso país é maravilhoso, ô, Francis. O problema não é ele, são os idiotas. O brasileiro é formidável. O Brasil vai substituir os Estados Unidos e a Rússia! Nessas horas de crítica à pátria, você vira um cretino fundamental.

    Francis: E nessas horas de delírio ufanista você se torna um subdesenvolvido. Quanto mais pobre um país, mais nacionalista.

    Millôr: Ser brasileiro me deixa sempre um pouco subdesenvolvido.

    Nelson: Brasileiro tem luz própria. É o único povo que faz piada na catástrofe. O problema é que não tem autoestima. O mesmo problema de todos os países subdesenvolvidos. Quando um povo não acredita em si mesmo, não acredita em nada. Não contribua, meu caro Francis.

    Francis: O que você quer que eu faça? Brasileiro já tem autoestima demais. O Brasil é um asilo de lunáticos onde os pacientes assumiram o controle. Ponto. Se alguém dissesse certas coisas no Brasil, eu não diria. Detesto criticar os outros. Mas ninguém diz, então digo eu. Vou contra os rinocerontes a la Ionesco.

    Nelson: Mas é claro como água que vejo aspectos negativos no país também! Aqui igualmente se tem esse tipo abominável de ser humano: o que se falsifica. Aquele que se basta em fazer pose. No Rio, por exemplo, vai-se ao Antonio’s por motivos ideológicos, literários, e não alcoólicos. É um restaurante que não é restaurante, mas uma simples atitude. Come-se com desprazer e bebe-se com tédio, lá, mas fazemos a nossa pose. Frequentar certos lugares é uma maneira de ser intelectual ou socialista sem redigir uma frase e arriscar uma opinião. E assim, falsários da vida, dos valores da vida, vamos fazendo as nossas poses políticas, ideológicas, literárias, religiosas...

    Francis: Só há isso de reprovável? Você é um otimista em relação ao Brasil, Nelson. E todo otimista é um mal-informado. A pobreza cultural e política brasileira é maior. Escrevam: o Brasil vai entrar no século 21 com o José Sarney, aquela barracuda da ARENA, ainda ocupando algum cargo importante. E isso diz muito sobre o país.

    Millôr: O Brasil é um filme pornô com trilha de bossa nova.

    Francis: Mas o que você observou é fato. Comunista que não leu Marx e Engels é comunista limonada. Da boca pra fora. Se bem que comunismo sério também é uma besteira. Aliás, a melhor propaganda anticomunista é deixar um comunista falar.

    Nelson: Nisso você tem a mais cristalina razão. Concordo totalmente. Não tenho o menor escrúpulo em concordar e passar por reacionário. Me chamem de reacionário!...

    Francis: Não sou reacionário, sou uma pessoa que fala a realidade. Reacionário é quem acredita em governo. Todos os governos tendem a ser ditatoriais – o brasileiro, inclusive – e há quem acredite em tudo que o governo faz.

    Nelson: Reacionário é quem reage contra tudo que não presta.

    Millôr: Esta generalização é um pouco precária, como todas.

    Francis: Mesmo quando discordo acho que você merece nota dez com louvor em tudo, Millôr.

    Millôr: Você como sempre muito capaz de expressar suas opiniões sem medo e às vezes até exageradamente.

    Nelson: Também me agrada falar bem dos amigos, mas vou me retirar. Festas cansam.

    Francis: A excluir o fato de ter me propiciado a companhia de vocês, essa festa está mesmo uma merda. Uma merda. Vou para casa ler Edmund Wilson e Bernard Shaw e ter um pouco de contato com civilização.

    Millôr: E eu vou lá traduzir mais um clássico da dramaturgia.

    Francis: Molière? Ibsen? Shakespeare?

    Millôr: Entre outros.

    Francis: Ótimo. Adeus, rapazes.

    Nelson: Ainda vou acender meu último cigarro. Um derradeiro e trágico cigarro.


    (Francis sai cantarolando uma ária de Wagner. Millôr, já saindo, pede lápis e papel para esboçar um desenho, no táxi. Presume-se que Nelson tenha fumado o cigarro com toda a sofreguidão.)


    lucas.colombo@minimomultiplo.com

    @lucas_colombo



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