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O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Letra A
    by Rafael Fais

    Vaca profana
    14/12/2011


    De tempos em tempos, surgem (ou deveriam surgir) expoentes no mundo das artes que questionam a atividade artística, as escolas, grupos e influências que os ajudaram a construir sua própria obra. Se o que fazem é arte ou não, se há transgressão com suas invenções e propostas, a resposta não pertence a um único crítico ou espectador. A validade de se falar sobre esses artistas ou suas criações está, em grande parte, no questionamento que propõem, no debate que provocam.

    Na exposição “Em nome dos artistas”, ocorrida de 30 de setembro a 4 de dezembro no salão da Bienal, em São Paulo, o polêmico artista plástico britânico Damien Hirst teve algumas de suas obras exibidas. “Mother and child divided” (“Mãe e filho divididos”) é uma das mais midiatizadas em todo o mundo. Trata-se dos corpos de um bezerro e sua mãe cortados ao meio, mergulhados cada um em um tanque de vidro com formol. As reações do público, obviamente, eram as mais variadas. Uma pessoa lamentou o destino do “pobrezinho” do bezerro, outra indagou se ele era de verdade. Sim, é.

    Mas a discussão, é claro, vai muito além disso. Algo que se pode debater no caso desse trabalho de Hirst é sua apropriação de uma imagem ou elemento já existente na natureza, e a exposição disso como se fosse de sua autoria. Não há mistura de tintas, combinação de materiais, ou interferência do autor. Há criação artística, então? O que ele teria criado? Ao ver essa obra, também me pergunto qual novidade ela traz, pois afinal podemos ver esses animais e sua anatomia em livros da área ou em laboratórios. A busca por uma imagem nova, que choque ou transforme o espectador, levou Hirst a transferir o animal de um ambiente – o dos laboratórios, das clínicas e faculdades de medicina veterinária – para as salas de arte mundo afora.

    Sua jornada em busca do que é incomum, do que ainda não foi feito, da arte inusitada e original, levou-o justamente a uma imagem comum. Algo tão simples, abundante e banal como é um bezerro, na nossa cultura.

    O insight do celebrado (e monetizado) Hirst foi deslocar o animal para as silenciosas salas de exposição. Seu mérito está na escolha do objeto, na proposta. Ver esses animais vivos em cidades como Londres, São Paulo ou Nova York não é comum. Entende-se o frissom do público ao se deparar com eles serrados ao meio e mergulhados num aquário. Estão ali calmos, passivos, imobilizados. Eram seres vivos com movimentos próprios. Agora são tratados como uma imagem congelada, expostos a qualquer olhar, do mais rápido ao mais demorado.

    Apropriar-se do corpo de um bezerro e cortá-lo ao meio para exposição em um tanque de formol, com cada víscera à mostra, foi um dos atos mais celebrados e atacados da carreira de Hirst. É mesmo uma das funções do artista questionar e dar novo significado aos símbolos culturais. Isso acontece com frequência: imagens e símbolos são revisados, repaginados, trocados de contexto, reformulados. Marcel Duchamp expôs um simples mictório, objeto do nosso cotidiano, e nunca mais foi esquecido. Independentemente da análise que se faça de sua obra e da importância dela para as artes, a escolha desse objeto será para sempre lembrada.

    Já essa escolha de Hirst, a do bezerro e sua mãe, causa espanto, aguça e aplaca a curiosidade, sendo que está tudo lá: os animais e suas vísceras, suas patas, todos seus órgãos internos expostos. E o que estamos vendo? Do que estamos falando? Arte ou anatomia? Medicina veterinária ou artes visuais? Estamos na época em que informação e conhecimento se encontram, provocando debates sobre o que é ou não arte.

    Sinto que ficou em mim uma interrogação, mas não sei bem qual. Por que essa escolha, a de um bezerro? O que significa esse animal? Nos deparamos com ele morto, mergulhado num tanque, à nossa disposição, sem função. Não estamos lá para aprender sobre a anatomia do bicho, sobre suas funções reprodutivas ou seu valor no mercado pecuarista. Ele está coisificado, escravizado para nosso deleite ou espanto visual. Seu corpo atenderia a um capricho da arte, do artista ou do interlocutor? Atende, talvez, ao interesse pelo diferente. E o artista alcança seu objetivo: fez o mundo da arte questioná-lo, desafiá-lo, os interlocutores elaborarem perguntas. Seja pelo mérito da escolha do tema ou do conceito, seja pela facilidade com que torna sua obra valorizada no mercado, ou ainda pela sua capacidade de chamar a atenção da mídia, Damien Hirst fixou seu nome na história do que se convencionou chamar de arte contemporânea.

    @rafaelfrancfais



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    Páginas contra o fanatismo - 12/09/2011