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    Minhas objeções ao politicamente correto
    Carlos Orsi*
    28/09/2011


    No ano passado, o blogueiro de ciência Roberto Takata publicou uma longa e bem-pensada postagem em defesa da preocupação com o politicamente correto; outro dia, o médico e escritor de ficção científica Flávio Medeiros fez uma longa postagem em tom de desabafo no sentido oposto. O texto de Medeiros não é uma resposta direta ao de Takata, mas a justaposição de ambos me levou a, finalmente, pôr no papel (ou no servidor) meus pensamentos a respeito.

    Acho que um bom jeito de começar é tirando um bode da sala – no caso, o fato de, no Brasil, a expressão “politicamente incorreto” ter virado um eufemismo (politicamente correto?) para grosso, malcriado, escroto. Nesses casos, a solução é milenar: em companhia civilizada, quem comete grosseria perde credibilidade e, se insistir, é gentilmente convidado a se retirar. Criança malcriada vai pra cama mais cedo, sem videogame, televisão e com mesada cortada. Adulto malcriado deve ser ignorado, desprezado ou, em casos extremos, entregue à polícia. Cantada escrota rende tapa na cara. Simples assim.

    (Em tempo: a ideia de que bons modos, consideração e simples cortesia devem ser estendidos a todos, e não apenas a uma determinada classe, grupo étnico, etc, não é uma bandeira “politicamente correta”, mas mero bom-senso republicano.)

    Enfim, uma vez que deixemos de equalizar “ser politicamente correto” com “honrar a educação que mamãe me deu”, o que resta? E isso que resta, presta?

    Acho que o leitor já deduziu, a partir do título desta postagem, é que em minha opinião há, sim, resíduos, e que, não, esse resíduos não prestam lá muito. Os resíduos que vejo seriam:

    1. Determinismo etimológico: “denegrir” e “judiar” viram palavras malditas porque têm conotação negativa e, oh, céus, contêm alusões a “negro” e “judeu” em sua morfologia. Tá. E quantos usuários atuais da língua sabem disso? E, dos que sabem, quantos consideram essa ligação algo além de uma mera curiosidade histórica? O determinismo etimológico faz tábula rasa da história da língua, e atribui aos usos de hoje as (presumidas) intenções de ontem.

    2. Descontextualização paranoica: expressões como “a coisa está preta” ou “nuvens negras no horizonte” são transmutadas em ditos racistas. Como assim? Certa vez, discutindo o assunto com um colega de redação, perguntei: “Por esse raciocínio, a criança que chora de medo do escuro quando os pais apagam a luz do quarto é racista”. E ele concordou...

    3. Raciocínio mágico: no fim e ao cabo, o politicamente correto acaba sendo uma espécie de nova superstição, como a das vovós que dizem “aquela doença” em vez de “câncer”, ou o pessoal que bate na madeira antes de falar em coisas desagradáveis. Trata-se de uma fé no poder dos nomes que lembra o credo dos antigos demonologistas, para quem conhecer o verdadeiro nome de um demônio significava controlá-lo. Isso me parece mais uma power-trip de acadêmicos de humanidades, principalmente do pessoal da linguística e da crítica literária, do que qualquer outra coisa (“Os físicos fazem lá as bombas atômicas deles, mas nós vamos transformar a sociedade por meio das palavras, sem que um só tiro seja disparado!”).

    Mas o efeito me parece ser mais o de uma atenuação das consciências do que qualquer outra coisa: os aleijados viraram deficientes, que viraram portadores de necessidades especiais, mas os ônibus adaptados ainda são poucos, e tente pegar um táxi em São Paulo usando cadeira de rodas. Por outro lado, “fogo amigo” e “dano colateral” soam bem melhor que “mortos por engano”.

    @carlosom71


    * Carlos Orsi é jornalista e escritor e vive em São Paulo. Publicou os romances “Guerra Justa” e “Nômade”. Mantém um blog, em que este texto foi originalmente veiculado.


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