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    Letra A
    by Rafael Fais

    Páginas contra o fanatismo
    12/09/2011


    No prefácio de “O Livreiro de Cabul”, livro em que relata o período que passou com a família do livreiro afegão Sultan Khan, a jornalista norueguesa Asne Seierstad é direta sobre a violência a que o fanatismo islâmico submete as mulheres:

    “O que me revoltava era sempre a mesma coisa: a maneira como os homens tratavam as mulheres. A crença na superioridade masculina era tão impregnada que raramente era alvo de questão. Em discussões ficava claro que, para a maioria deles, as mulheres são de fato mais burras que os homens, que o cérebro delas é menor e que não podem pensar de maneira tão clara quanto os homens.”

    Essa família de Cabul é formada pelas duas esposas do livreiro, cinco filhos e outros parentes, com os quais Asne conviveu três meses, a fim de escrever sobre a vida em família numa sociedade islâmica fundamentalista.

    A releitura dessas linhas me proporcionou a mesma sensação de indignação que tive ao ler, recentemente, as páginas de outro livro: “Lendo Lolita em Teerã”, da iraniana Azar Nafisi, em que a repressão islâmica às mulheres também aparece, em meio a relatos de um dia a dia que poderia ser comum, se não fosse marcado por tal agressividade. No livro, Azar, que lecionava na Universidade de Teerã, relembra as aulas extracurriculares de literatura que organizava em sua casa. Suas alunas mentiam para os pais para se reunirem na casa da professora e discutirem autores ocidentais como Vladimir Nabokov e F. S. Fitzgerald, dentre outros proibidos no país. Em meio a leituras de obras como “Lolita” e “O Grande Gatsby”, as alunas falavam de suas vidas. Uma delas, Sanaz, conta que o irmão mais novo a tratava com violência e a perseguia por achar que ela estava namorando sem o conhecimento de seus pais. Além da perseguição das jovens pela Guarda Revolucionária, braço ideológico do exército do Irã, que inspeciona nas ruas se o véu as cobre por inteiro, se suas unhas não estão pintadas, se têm “comportamento sedutor”, o regime está presente na vida dessas meninas também dentro de casa. Dessa forma, em todas as esferas sociais elas estão submetidas à repressão cultural brutalmente imposta pela deturpação que o poder político faz do Islã.

    O interesse maior pela cultura islâmica no mundo surgiu há dez anos, depois do ataque que derrubou as Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Por serem muçulmanos os terroristas que jogaram os aviões contra os edifícios, termos como islamismo, Islã e fundamentalismo passaram a aparecer mais fortemente no noticiário no mundo todo, o que aumentou a curiosidade e a necessidade de se saber mais sobre a cultura dos povos que seguem a religião criada por Maomé.

    Especialistas e historiadores ressaltam que só uma minoria dos adeptos do islamismo é radical e pratica o terrorismo. Mas essa minoria arrasa com a imagem da religião – que, na essência, prega a igualdade entre os sexos – e torna a vida das mulheres um martírio nos países em que a Lei Islâmica é levada ao pé da letra.

    Outro relato do livro de Azar que exemplifica esse radicalismo é contado pela mesma Sanaz. Ela ficou três dias presa e teve que passar por dois exames de virgindade quando a Guarda Revolucionária a flagrou com um grupo de jovens, durante uma simples visita de amigos. Os guardas diziam ter recebido uma denúncia sobre atividades ilegais. Sem encontrarem nada, acusaram Sanaz e outras jovens de terem atitudes ocidentais, o que as levou à prisão por três dias e ao castigo de 25 chibatadas.

    Agressões como essa comprometem a autoestima e a identidade dessas mulheres, além de privar a sociedade do papel que elas poderiam desempenhar no seu desenvolvimento e na composição de famílias plurais. É fácil concordar com os estudiosos para os quais o fundamentalismo religioso impede a implementação da democracia plena em países islâmicos. Pois qual país pode se desenvolver culturalmente, ou de qualquer outra forma, se suas mulheres não podem pensar e se expressar por terem membros de suas famílias e uma guarda especializada constantemente as vigiando, as submetendo a castigos por estarem sozinhas em companhia de homens, por fumarem ou deixarem uma mecha de seus cabelos expostos? Nem o Irã de Azar Nafisi nem o Afeganistão visitado por Asne Seierstad. “Afinal, é necessário duas pessoas para criar um relacionamento, e quando se transforma a metade da população em seres invisíveis, a outra metade sofre também”, escreve Azar.

    O interesse desse tema pela literatura ganha ainda mais legitimidade quando lemos notícias sobre a pena de morte por apedrejamento imposta à iraniana Sakineh Ashtiani. Em 2006, ela foi condenada a 99 chibatadas por adultério, depois sentenciada à morte pelo suposto assassinato do marido, sem o crime ser totalmente esclarecido. No ano passado, o fato virou assunto dos principais jornais. Seus filhos e o advogado criaram campanhas pela libertação de Sakineh e ganharam adesão de governos e personalidades no mundo todo. A pressão internacional resultou na mudança da pena para dez anos de prisão, mas o governo do Irã diz que a decisão não é definitiva.

    Para a escritora Ivana Arruda Leite, “a literatura pode ajudar a trazer este e outros problemas à tona, gerar discussões em torno e com isso batalhar por minimizar as atrocidades que são feitas em nome da religião ou de qualquer outro valor que se sobreponha à vida e à liberdade”. A única ressalva é que o valor literário do texto deve prevalecer sobre as bandeiras que ele defende, me disse a autora.

    Best-sellers como “Lendo Lolita em Teerã” e “O Livreiro de Cabul” ajudaram a dar mais visibilidade, nos países ocidentais, à questão do fanatismo islâmico e da repressão em que este envolve as mulheres. Essas histórias cotidianas e íntimas fazem pensar que, guardadas as proporções, a violência e o sofrimento que os seguidores radicais do islamismo levam a milhares de pessoas em espaços públicos não deixam de ser, também, um reflexo do que praticam entre quatro paredes.


    @rafaelfrancfais