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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Simplesmente Chaplin
    24/08/2011




    O já combalido Charles Spencer Chaplin, também conhecido por Carlitos ou O Vagabundo – como queiram chamar –, morreu dormindo, aos 88 anos, devido a um derrame cerebral, no Natal de 1977, na Suíça. Estava bem longe dos Estados Unidos, terra que o acolheu, lhe propiciou fama nos quatro cantos do planeta e depois o rejeitou. Morreu, porém, legando uma obra que remete a um mundo de sonhos e que deixa transparecer toda a paixão que ele nutria pelo cinema.

    Empregar a expressão “gênio das artes cinematográficas” para se referir a Chaplin já virou clichê, e é preciso ter cuidado com essas palavras que emitimos mecanicamente, pois nem sempre o adjetivo é justificado ou merecido pelo artista – hoje em dia, inclusive, muitas vezes confunde-se genialidade com popularidade. Mas quando pronunciamos o nome Chaplin inevitavelmente evocamos sua distinta capacidade de criação e seu pioneirismo para com o cinema. Tais atributos já estão colados nesse nome.

    Chaplin nasceu em 1889, em Londres. Ainda menino, teve os primeiros contatos com as artes cênicas por meio de seus pais, os quais tentaram sem sucesso cantar e atuar em cabarés. O pai separou-se cedo e foi morar com outra mulher, morrendo logo em seguida por problemas ligados ao alcoolismo. Já a mãe, após uma série de distúrbios psiquiátricos, perdeu Chaplin e o irmão deste para orfanatos – e, segundo os biógrafos, essa seria uma das histórias que originaram “O Garoto”, de 1921. Aos 21 anos e sem muito dinheiro, embarcou para os EUA numa turnê teatral. Chegando lá, fez seus primeiros filmes como ator de cinema. O sucesso rápido proporcionou-lhe assinar um contrato com a Mutual Film Corp, em 1916, já com o maior salário pago até então na recente história do cinema. Numa época de estresse, devido à 1ª Guerra Mundial, Chaplin acabou, com seus filmes de comédia, sendo uma espécie de antídoto contra o desalento da população. Este fenômeno se repetiu em outro período difícil, o da Grande Depressão dos anos 1930, quando o personagem Carlitos também propiciou alegria às plateias.

    Os filmes mudos de Chaplin foram um marco para o desenvolvimento das narrativas cinematográficas. Aliás, ele relutou muito em introduzir a fala em suas produções (o cinema falado veio em 1927), pois acreditava que o que pensava ser a essência cinematográfica, a pantomima, seria perdida se os atores utilizassem a voz. Por isso, investia no gestual e em alguns clichês pastelões como maior recurso de expressão. Entretanto, abriu uma exceção em “Tempos Modernos”, de 1936 (para alguns seu último filme mudo), e, numa até então rara exibição de sua voz, protagonizou uma cena em que canta uma canção de letra ininteligível num cabaré (veja aqui). Sempre que revejo esta cena primorosa, penso que realmente o vagabundo não tinha que ter pressa em tornar seus filmes falados, pois não precisava provar que atuaria com a mesma maestria.

    Ao lado de “Tempos Modernos”, os filmes “O Garoto” e “O Grande Ditador” (1940) foram os que mais contribuíram para a difusão da obra chapliniana no mundo. Essas produções, por assim dizer, ‘resumem’ Chaplin: trazem a combinação da ingenuidade do personagem Carlitos com a perspicaz crítica de seu criador, somada aos valores da época. A visão política do diretor inglês, aliás, nunca abertamente de esquerda ou de direita, era posta no roteiro de forma bastante sutil – e esse aspecto é, muitas vezes, subestimado pelo grande público. Chaplin sabia que, com um elemento político suave aliado a ironia e paródia, suas histórias teriam efeito muito maior nas telas do que uma simples comédia ou um simples filme panfletário. Sua arma, chamada humor, era de efeito bombástico. No entanto, ele só pôde criar filmes com tal teor crítico por ter, nos anos 1930, junto com outros diretores como D.W. Griffith, formado a companhia United Artists, independente dos grandes estúdios americanos. Isso lhe possibilitou maior liberdade para suas criações, numa época em que Hollywood, por questões de mercado, fechava os olhos para a ascensão do nazismo na Europa.

    Embora tenha feito, no início da carreira, alguns curtas para levantar o ânimo das tropas americanas em combate na 1ª Guerra, sua crítica ao estado de coisas da época fica mais evidente e aparece com maior vivacidade em “Tempos Modernos”, uma sátira ao enfurecido modo de produção industrial americano, decorrente da crise de 1929. Com tratamento sutil do tema, o filme mostra um Chaplin muito preocupado com o lado humano da questão, num momento de adaptação e interrogação dos trabalhadores em relação à chegada em massa das máquinas nas fábricas, com realização de greves e medo do desemprego. Além disso, uma das interpretações que se faz hoje de “Tempos Modernos” é a de que a linha de montagem da fábrica onde Carlitos trabalha era uma imitação da inventada pelo industrial americano Henry Ford, e que o chefe dele no filme também seria uma sátira de Ford – homem que simpatizava com o nazismo e, dizem, não suportava Chaplin, por causa justamente de “Tempos Modernos”.

    Em “O Grande Ditador”, por sua vez, filme já totalmente falado, Chaplin faz uma paródia do regime fascista da Itália e do nazista na Alemanha. Os personagens Adenoid Hynkel, interpretado por ele, e Benzino Napaloni, vivido por Jack Oakie, aludem à soberba dos ditadores Hitler e Mussolini. Uma das cenas célebres deste filme é a em que Hynkel e Napaloni, numa barbearia, disputam para ver quem elevava mais suas cadeiras, também numa sátira à “amizade” entre Hitler e Mussolini (veja aqui).

    Chaplin, que era considerado judeu pelos nazistas – fato nunca provado e que ele também não fez questão de contradizer –, encarou o totalitarismo através do riso. Para isso não bastava ter talento, mas também muita coragem, já que ditadores não suportam anedotas sobre si mesmos. O público, porém, recebeu “O Grande Ditador” com copiosas gargalhadas, e há historiadores que dizem ter o próprio Hitler assistido ao longa algumas vezes. “O Grande Ditador” sempre entra em listas de melhores filmes de todos os tempos, o que mostra que, como na História Hitler também saiu derrotado, no cinema o bigodinho vencedor é o de Carlitos.

    A política marcou também sua vida pessoal. Charles Chaplin foi um dos artistas com mais projeção mundial no século 20, e é ainda hoje um dos mais famosos do planeta, mas a relação com o país de que despontou para o mundo foi tumultuada, justamente por questões políticas. O velho vagabundo símbolo do riso, após muitas perseguições no período do macarthismo americano, por seu suposto esquerdismo, teve vetada sua entrada nos EUA, em 1952. Depois disso, desistiu de trabalhar com cinema no país em que fez carreira e se exilou em Vevey, na Suíça. Só voltou a pisar no território americano em 1972 – ano em que recebeu um Oscar honorário em função de outra injustiça, dessa vez dos críticos e da academia de cinema de Hollywood, que, por décadas, teimaram em compará-lo apenas com os astros do cinema mudo Buster Keaton e Harold Lloyd. É notório, contudo, que estes se espelhavam na obra do inglês para compor seus personagens. O Oscar honorário foi a segunda tentativa em 44 anos (em 1928, também lhe deram um Oscar especial pela “versatilidade”, por ter escrito, dirigido e interpretado “O Circo”) de apagar a falta de reconhecimento pela obra de Chaplin no próprio país em que ele trabalhou. Mesmo assim, até hoje se lamenta que “Tempos Modernos” e “Luzes da Cidade”, por exemplo, não tenham recebido nenhum Oscar.

    Charles Chaplin conseguiu, como diretor, roteirista, ator e produtor, povoar o imaginário de muitas gerações. Ainda neste século 21, desperta curiosidade por sua obra e biografia, sendo objeto de livros, documentários e pesquisas. Muitos já disseram isso, mas não custa reforçar: sua presença ficará imortalizada na história dos maiores realizadores da sétima arte. E nesses “tempos modernos” tão acelerados que vivemos, vê-lo é sempre uma oportunidade de contato com delicadeza, beleza e espírito.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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