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    Arqueologia no presente
    Tobias Vilhena*
    01/06/2011


    (Foto: Zanettini Arqueologia/IPHAN-RS)


    A cena bem que poderia ter sido tirada de um daqueles programas do Discovery Channel, quando, após anos de escavações, antigos escombros de uma construção são finalmente desenterrados, revelando os restos de um mundo perdido. Pois recentemente, em nosso próprio país, na região oeste do Rio Grande do Sul, uma equipe de arqueólogos descobriu, enterrado a poucos metros do solo, um grande reservatório de água do século 18 (foto acima). Foi no município de São Miguel das Missões, mundialmente conhecido pelas ruínas da sua antiga igreja. A descoberta é um indício, é claro, da farta quantidade de informação que ainda existe sob a terra, escondida de nossos olhos.

    Durante o século 18, havia naquela localidade uma cidade chamada São Miguel Arcanjo. Habitada por milhares de indígenas e administrada por dois ou três padres europeus, a missão – outro nome dado para o povoado – cresceu como parte do processo de ocupação do Brasil meridional, no período colonial. Ao lado dela, outras missões floresceram e representaram uma das experiências sociais mais interessantes em solo sul-americano, por meio da inserção indígena no mundo cultural e econômico europeu.

    Na busca pela sobrevivência e consolidação desses povoados, a água era um dos elementos da natureza mais importantes, pois só com ela era possível dar de beber aos animais, saciar a sede das pessoas e cultivar o alimento necessário para a sobrevivência de todos. Daí a conclusão do pesquisador responsável pela escavação, Paulo Zanettini, contratado pelo IPHAN, órgão do governo federal responsável pela preservação do sítio arqueológico, de que “a escolha da cidade certamente levou em conta a existência de fontes naturais que brotavam por toda a região”.

    Outras escavações da década de 1990 já haviam revelado alguns dutos de água. Agora, com a abertura de uma parte significativa do sítio arqueológico, a complexidade da infraestrutura erguida para o aproveitamento hídrico ficou evidente. Além de construírem um tanque para guardar a água, os habitantes da época desenvolveram um sistema de condução e distribuição tão articulado quanto o encontrado nas grandes cidades atuais. Canais feitos de pedra, por exemplo, levavam a água da boca da fonte principal até uma grande piscina construída com pedras naturais. Outros tanques para decantação da água completavam o intricado sistema.

    Se, por um lado, o desenvolvimento tecnológico daquela sociedade fica evidente através desses achados, um outro dado, menos positivo, chama também a atenção. De acordo com vários documentos da época, só agora recuperados por historiadores, a vida daqueles habitantes era muito mais difícil do que se pensava. Relatos de crises de pestes e abastecimento que atingiram toda a população abundam nas fontes históricas. O cenário idealizado de um mundo bucólico, descrito muitas vezes por filósofos e historiadores do passado como uma experiência quase mítica, não se sustenta e começa a cair por terra. Doenças e fome eram parte do cotidiano. Nesse cenário complexo, o bom manejo dos recursos disponíveis certamente desempenhou um papel estratégico na sobrevivência. Tal como hoje, a abundância ou a escassez de recursos naturais e matérias-primas disponíveis, no período colonial, era um dos elementos reguladores do desenvolvimento. Assim, a falta de elementos como a água para irrigação durante períodos de estiagens, por exemplo, poderia agir como catalisador de crises de abastecimento de produtos alimentícios e, consequentemente, aumentar o índice de mortalidade e conflitos por suprimentos no interior da comunidade.

    O foco sobre esta questão apenas recentemente passou a ocupar o tempo de reflexão de historiadores e arqueólogos, mas certamente não podemos dizer o mesmo da população missioneira (denominação dos moradores da região) atual, que nos últimos anos têm passado por períodos sucessivos de estiagem. A preocupação com a falta de água cresce entre os fazendeiros locais (grandes ou pequenos) e pode ser percebida em cada roda de conversa, ou mesmo durante as preces por chuva realizadas nas missas de domingo. A perda da colheita e a morte de animais, em uma comunidade voltada para a produção agrícola, podem significar o fim do sustento de milhares de famílias.

    Por todo o estado do RS, antigos vestígios de ocupação têm sido identificados e relacionados com parte de nossa história colonial. Estruturas arruinadas de edificações, estradas e objetos antigos há pouco descobertos têm ajudado a compor o cenário e a recuperar a história dos habitantes das regiões. Neste caso recente de São Miguel das Missões, as soluções dadas no passado para as dificuldades enfrentadas por aquelas pessoas, ou pelo menos os caminhos tomados nessa direção, ainda não são totalmente conhecidos. Mas, quando a pesquisa chegar ao fim, talvez haja alguma resposta e, a partir disso, possam os pesquisadores oferecer alternativas para a população contemporânea enfrentar certos problemas. Um compromisso social aproxima o passado do presente.


    * Tobias Vilhena é historiador e arqueólogo e vive em Porto Alegre.


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