Get Adobe Flash player
 

O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Etc...

    H.L. Mencken
    Moziel T.Monk*
    26/04/2011




    Henry Louis Mencken, ou H.L. Mencken, foi um jornalista, ensaísta, crítico e editor americano, nascido em Baltimore em setembro de 1880, cujo estilo influenciou e influencia gerações de jornalistas e escritores de seu país e mundo afora. Seu modus operandi iconoclástico basicamente se resumia a expor ao ridículo ideias e argumentos, com floreio e estilo, mostrando que o rei, além de estar pelado, tinha o pau pequeno. E nada era sagrado para ele. Sua arma demolidora era o humor rebuscado, afora uma série de frases e referências de entortar o juízo de um eventual antagonista. O “American way of life” foi por ele empenado a marretadas retóricas. Mencken desprezava o chamado homem de classe média americano, camada à qual se referia pejorativamente como “Booboisie”, normalmente lhe reservando adjetivos pouco louváveis, de “besta” pra baixo. O próprio regime democrático, definia como “a arte de gerir o circo a partir da jaula dos macacos”.

    Era assumidamente elitista, não defendendo a supremacia de uma raça, nacionalidade ou credo sobre outra, e sim a superioridade intelectual de poucos indivíduos em relação à grande maioria. Para Mencken, o ser humano era, em grande parte, um grande embusteiro, covarde e incompetente na maioria de suas atribuições. Um dos mais acirrados ateus de seu (e de outro) tempo, afirmava que religião alguma merecia maior reverência. Os grupos fundamentalistas americanos, como os puritanos, a igreja batista e os metodistas eram alguns de seus alvos preferidos. Seus textos frequentemente desconstruíam com fina ironia e elegância todo e qualquer argumento que sustentasse credos religiosos, desqualificando a existência de Deus e ridicularizando seus representantes, carinhosamente chamados de “cambistas do paraíso”. O artigo “Cerimônia memorial”, por exemplo, enterra todas as divindades na mesma vala comum e as cobre com uma pá de cal. Isso décadas antes de Richard Dawkins começar sua rixa pessoal com o Todo-Poderoso, e com mais finesse e graça do que o professor inglês (sorry, Dawkins). Nem sua terra natal, Baltimore, era poupada, já que, segundo Mencken, “trocava de moda a cada estação e de preconceito a cada geração”. Muito menos sua profissão era protegida: o famoso artigo “Sobre jornalismo”, de 1920, traça um retrato sem retoques da imprensa de sua época – que, em muitos pontos, ainda poderia servir para a atual...

    Com – e apesar de – todos esses predicados politicamente incorretos, Mencken era de uma popularidade incrível nos anos 1920 e 1930. A partir de seu bunker no jornal Baltimore Sun, distribuía petardos e obuses verbais a torto e a direito, e seus artigos, ensaios, contos e críticas eram devorados por um grande público, inclusive pelo homem médio a quem tanto esculhambava. Um mistério inescrutável, já que a concorrência procurou emular o jeitão de Mencken, tentando criar seus clones em cativeiro e devidamente domesticados, o que normalmente se revelava um fiasco, pois as imitações baratas nem chegavam aos pés do original.

    Também bom repórter, Mencken se tornou célebre ao cobrir o que ficou conhecido como “Julgamento do macaco”, quando um professor do Tennessee foi processado por ensinar a Teoria da Evolução, em 1925. Em seus textos, Mencken desqualificou os criacionistas, com tiradas como afirmar que os macacos é quem deveriam processar os homens ou que os criacionistas acreditariam que Jonas engolira uma baleia se isso estivesse na Bíblia. Esse episódio inspirou a peça “O vento será tua herança”, de Jerome Lawrence e Robert Edwin Lee, cujo personagem E. K. Hornbeck era visivelmente o próprio Mencken. Na primeira versão para o cinema, foi vivido por Gene Kelly.

    Igualmente forte como crítico de livros, Mencken e seu sócio da esnobe revista Smart Set, George Jean Nathan, eram dois fanfarrões que espalharam o terror entre os autores da época. As críticas de ambos poderiam reduzir a pó as pretensões literárias de algum pobre candidato a escritor. A dupla era implacável e irônica, e nem autores consagrados ou clássicos eram perdoados. Dostoievski encabeçou a sua lista de escritores mais chatos de todos os tempos. Em compensação, quando gostava de um artista, movia céus e pedras para exaltá-lo. Mencken elevou à categoria de gênio escritores como Joseph Conrad, Edgar Allan Poe, Mark Twain e Ambrose Pierce. Admirava o filósofo Friedrich Nietzsche, idolatrava a música clássica, principalmente Beethoven. Poesia e artes plásticas ele considerava “menores”, e gêneros musicais mais populares, como o jazz recém-nascido e ainda cru, coisa indigna de civilizados. Mesmo temido, circulou livremente no meio da elite cultural americana daqueles anos.

    Algo que também apreciava bastante, por que não dizer?, era o precioso líquido. Para Mencken, uma noite perfeita poderia se resumir a ouvir música clássica e encher a cara com um amigo, enquanto ambos frescavam de Deus e do mundo. Além do mais, em plena vigência da Lei Seca nos EUA, o jornalista defendia abertamente a liberação do consumo de bebidas alcoólicas. Um de seus mais famosos artigos, “O periélio da proibição”, é um ataque bem fundamentado à emenda constitucional que, teoricamente, privava os americanos de molharem suas gargantas com algo mais substancial do que água ou suco de uva. Mencken mostrava que a lei era cheia de pontos fracos e que era, na verdade, um retumbante fracasso, até porque todo mundo estava pouco se fodendo para a proibição e bebia do mesmo jeito. Em outro divertidíssimo texto, também escrito nesse período negro para os bebuns, ele defendeu a teoria de que as pessoas seriam melhores se a atmosfera estivesse borrifada com álcool, “obrigando” todos a se manterem levemente altos, sem o perigo de ninguém ficar sóbrio o suficiente para cometer desvarios como iniciar guerras.

    Alguns de seus artigos, aliás, eram pura gozação. Um deles, sobre o “dia da banheira”, em que cria uma ficcional, enciclopédica e absurda história da invenção da banheira, foi durante um bom tempo citada em outras publicações como verdadeira. Imagine isso hoje, em tempos de internet e hoaxes fáceis...

    Sua popularidade caiu um pouco durante e após a II Guerra Mundial, visto que era assumidamente germanófilo, além de contrário ao presidente Roosevelt e à política do New Deal. Em 1948, teve um derrame que o tornou incapaz de ler ou escrever, o que deve ter deixado muita gente aliviada. Morreu – ou melhor, foi “assumir suas funções públicas no inferno” – em 26 de janeiro de 1956.

    Para quem quiser conhecer mais sobre o trabalho do sujeito, não falta material. Em português, o jornalista Ruy Castro organizou uma coletânea de artigos, frases e pensamentos de H.L. Mencken em “O livro dos insultos”. Há também “O diário de H.L. Mencken”, escrito por Charles A. Fecher. Essa biografia, porém, não é tão bem vista por alguns, por tentar rotular algumas declarações e posições de Mencken como racistas e antissemitas. Uma biografia mais recente, “Mencken, the American iconoclast”, foi escrita por Marion Elizabeth Rodgers em 2005, mas ainda não está disponível em português. E, como visto no decorrer deste texto, na rede não faltam sites e reproduções de seus artigos mais famosos. Tenha uma boa – e perturbadora – leitura.

    @blodega


    * Moziel T.Monk vive em São Paulo e é autor do Blodega.


    Mais Moziel T.Monk
    Uma paranoia patológica - 26/05/2010
    Ruy Castro - 11/12/2009
    Relembrando Clifford - 24/09/2009


    Leia também
    O uso crítico do senso crítico - Carlos Orsi - 12/04/2011
    2010 foi um ano ruim - Lucas Barroso - 18/12/2010
    Sim, eu tenho preconceito - Leandro Narloch - 17/12/2010
    Twitter não-revolucionário - Leonardo Schabbach - 20/07/2010
    Trinta Minutos com o Repórter do Século - Jeison Silva - 11/06/2010
    Jaguar: aprecie com moderação - Michelle Horovits - 16/04/2010
    Mudanças - Carlos Rodrigo Schönardie (de Dublin) - 13/04/2010
    O Manifesto Sabe-Tudo - Fabiano Schüler - 12/05/2009
    “O Segredo” é estelionato - Marcelo Träsel - 15/07/2008
    TODOS OS TEXTOS