Get Adobe Flash player
 

O que vai acontecer com Temer?

Fica até 2018
Sai antes
Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Toca-disco

    O bom, a bela e o “cara”
    Lucas Colombo
    22/02/2011


    O “toca-disco”, dessa vez, é um “três em um”. Vamos às notas (jornalísticas e musicais):


    (Foto: Fáustulo Machado)


    Há tempos quero escrever sobre Chico Pinheiro, jovem e grande violonista e compositor brasileiro, prestigiado nos Estados Unidos e na Europa e, para variar, ainda pouco conhecido por aqui. A chegada de “Flor de fogo”, seu quarto CD, justificadamente aclamado como um dos melhores de 2010, não me permitiu mais adiar.

    Chico toca um senhor violão e é também um compositor admirável. Eu já tinha ouvido o seu álbum de estreia, “Meia-noite meio-dia”, de 2003, e gostado muito. “Flor de fogo” mantém o alto nível. Nele, Chico passeia por ritmos diversos – jazz, valsa, samba – com tranquilidade e competência. Vai de versões para George Gershwin (“Our love is here to stay”) e Stevie Wonder (“As”) a composições próprias, como “Boca de siri” e a faixa-título, ambas com letra de Paulo César Pinheiro, e “There’s a storm inside”, com letra do americano Jesse Harris. As influências assumidas de Tom Jobim, Moacir Santos, Cartola, John Coltrane e Thelonious Monk ecoam nas suas harmonias ricas e envolventes e nas melodias que permanecem na cabeça após a audição – permanecer na cabeça é diferente de ser “grudenta”, como sabem.

    Associar o canto de Chico ao de Chet Baker é inevitável, depois de ouvir a sua voz pequena, mas afinada, em oito das doze faixas. Sua performance ao violão e suas composições, porém, são o que realmente interessa. Um disco só com ele tocando já seria bom. Mas, se tem participações de músicos de jazz americanos do padrão do saxofonista Bob Mintzer e da cantora Dianne Reeves, fica melhor ainda. Mintzer acompanha “As”, “Mamulengo” (tema instrumental, de Chico) e “Flor de fogo”, marcando especialmente esta última com seu sax vigoroso. Dianne, além de também aparecer em “As”, defende “There’s a storm inside”. E o faz muito bem. Sua voz, somada ao arranjo de cordas e ao violão de Chico, faz da canção aquele tipo de música que parece nos suspender no ar enquanto dura.

    Ouça quatro minutos da faixa (que tem quase sete) abaixo.





    O violão brasileiro, com Chico, Yamandú Costa, Guinga et alli, vai muito bem, obrigado. “Flor de fogo” é exemplo.


    * * *


    (Foto: Reprodução)


    Aliás, o disco anterior de Chico, “Nova”, de 2007, é uma parceria entre ele e outro ótimo guitarrista, Anthony Wilson, americano. Wilson é integrante da banda de Diana Krall, uma das cantoras contemporâneas que mais me agradam e sobre a qual igualmente penso em escrever já há algum tempo. Também pianista e, agora, compositora, a canadense é da geração de intérpretes com um pé no jazz (k.d. lang, Madeleine Peyroux, Norah Jones, Jane Monheit), mas que, na verdade, gostam é de uma boa canção, com boa melodia, boa letra e excelente relação entre ambas, não importa o gênero. Diana, por sinal, adora música brasileira e já gravou Tom Jobim. Sua versão bossa nova para “Let’s face the music and dance”, de Irving Berlin, no álbum “When I look in your eyes”, é memorável. Ouvi-la cantando e tocando “Let’s fall in love” (Arlen/Koehler), “Just the way you are” (Billie Joel), “Temptation” (Tom Waits) e “Almost blue” (do marido sortudo Elvis Costello), com sua voz grave e sensual que combina com seu piano conciso, também é puro prazer.

    Diana gravou “A case of you”, uma das composições mais festejadas da sua conterrânea folk Joni Mitchell, no CD “Live in Paris”, mas neste vídeo aqui (*não aceita incorporação) sua voz está mais encorpada. A interpretação está para a original, de Joni, como vinho para chope. Ao piano, a bela faz uma versão intimista e elegante, com um canto mais falado, sussurrante como de praxe, no que revela a beleza deste casamento de letra e melodia. Só o comovido “Oh, Canada...” que ela emite aos 0:59 já é arrepiante. Falando em vinho, é melhor buscá-lo.


    * * *


    (Foto: allmusic.com)


    E, ainda na seara dos instrumentistas/cantores, das interpretações certeiras e da elegância (esse artigo tão raro), tratemos, por fim, de John Pizzarelli, fabuloso jazzista americano que faz shows com frequência no Brasil e é, do mesmo modo, um dos músicos contemporâneos que mais me interessam. Como Chico, ele é hábil guitarrista, mas cantor de voz limitada. Como Diana, gosta é de boas canções: sempre visita os cancioneiros americano e brasileiro e põe pegada jazzística até em Beatles (disco “Pizzarelli meets the Beatles”). Como ambos, mostra o que sabe fazer com classe e inteligência.

    Pizzarelli tem 50 anos e uma longa e celebrada carreira. Relatá-la aqui não é o objetivo. Antes de ir ao Google, ouça a breve “Unforgettable” abaixo, sua releitura da canção de Irving Gordon imortalizada por Nat King Cole, registrada no disco que dedicou ao intérprete, “Dear Mr. Cole”, de 1994. Com apoio do arranjo econômico (guitarra, baixo e piano), Pizzarelli retira o “melo” da versão de Nat e aplica swing e malícia no lugar, deixando a música acelerada e cool, como ele gosta.





    Para ficar nos álbuns das últimas décadas, vale escutar, além dos linkados acima, “Kisses in the rain”, de 2000, em que Pizzarelli transborda delicadeza em “I’m in the mood for love”, de Dorothy Fields, e executa um scat vocal em uníssono com um baita solo de guitarra semiacústica em “I got rhythm”, de Gershwin. Vale ainda “New standards”, de 1994, em que ele apresenta composições próprias. O título deste último é pretensioso – as músicas, na maioria, não têm potencial para se tornarem novos clássicos –, mas, se você quiser ouvir uma canção espirituosa e atrevida a la Cole Porter, com letra de rimas incomuns, não perca “I’m your guy”, a quarta faixa. Pizzarelli é o cara.

    * * *

    Três belas canções, a ampliar nossa sensibilidade. Cientistas mesmo já comprovaram que ouvir boa música aumenta a capacidade cognitiva. Fruir sutilezas harmônicas e melódicas contribui para que percebamos as sutilezas cotidianas e processemos melhor as informações. Nietzsche era um louco, mas concordo com ele: “sem música, a vida seria um erro”.

    * Faixas extraídas, respectivamente, dos CDs “Flor de fogo” (CT Music/Sunnyside) e “Dear Mr. Cole” (BMG)

    lucas.colombo@minimomultiplo.com

    @lucas_colombo




    Leia também
    Cole's the top - Lucas Colombo - 19/12/2009
    Iguaria musical (Nouvelle Cuisine) - Lucas Colombo - 03/07/2009
    Jobim bossa sempre - Lucas Colombo - 04/12/2008
    As rosas não calam (Cartola) - Flávio Aguilar - 21/10/2008
    Meu nome é Gal, novas cantoras - Lucas Colombo - 13/08/2008
    Um toque de Billie - Lucas Colombo - 08/07/2008
    I Remember You, Chet - Lucas Colombo - 13/05/2008
    George Gershwin (1898-1937) - Lucas Colombo - 20/02/2008



    Comentários dos leitores


    Até que enfim encontrei alguém com bom gosto musical e com um texto bem escrito. BRAVO! Wilson G. Souza