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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Livro ou e-book: o duelo
    21/12/2010




    Em uma de minhas colunas deste ano, aqui no MM, comentei sobre o, por muitos, desacreditado futuro do teatro, manifestando minha contrariedade à ideia de que essa arte “vai acabar” por causa das novas tecnologias de entretenimento. Pois a série “antiapocalipse” continua aqui, agora sobre uma questão em que toquei muito rapidamente naquele texto: o futuro do livro. Sei que o assunto é amplo, mas gostaria de entrar nessa que é uma das discussões do momento e em que os defensores do formato tradicional de livro, que acreditam na manutenção das edições em papel, discordam radicalmente dos aficionados por novidades tecnológicas, que acreditam numa total migração para e-books e tablets e na “morte” do suporte impresso. Eu fico no meio termo: creio que os dois formatos coexistirão, pelo menos por um bom tempo.

    Para começar, é bom trazer um pouco de História. Inicialmente forjada em lascas de argila ou pedra, a escrita depois ganhou facilidades ao ser fixada em papiro, muito prático, mas feito de um material sensível proveniente de plantas aquáticas. Em seguida, o suporte passou a ser o pergaminho, mais resistente, feito de pele de animais, que possibilitou o surgimento do “códex” – o formato de páginas compiladas, em vez de um rolo. E a partir daí, você já sabe: na primeira metade do século 15, Johannes Gutenberg inventou a prensa tipográfica e produziu sua famosa “Bíblia” – o primeiro livro impresso em grande escala. E o formato ‘livro’ permaneceu por muito tempo, mais de cinco séculos, como o principal meio de disseminação de ideias, pensamentos e conhecimento. Até chegarem os computadores pessoais e a internet.

    Esse início de terceiro milênio tem sido marcado pelos primeiros questionamentos sobre o destino do livro de papel. Não faltam motivos para quem se propõe a decretar o seu fim. Dizem que o formato ficou obsoleto, não atrai mais, etc... Até a questão ecológica é enfatizada, já que o papel vem de árvores. O cada vez mais elevado custo de impressão e distribuição, que, especialmente no Brasil, contribui para o alto preço e, por consequência, para o pequeno número de leitores, é outro fator que os defensores dos livros eletrônicos levam em conta. Sem mencionar razões mais ‘banais’, como o fato de que, para armazenar muitos livros, é necessário um grande espaço físico.

    Mas o que esse grupo considera inevitável ainda não aconteceu. Poucos conseguem ler um livro inteiro no computador, pois os olhos não aguentam por muito tempo a luminosidade da tela – parece que somente agora o tablet Kindle resolveu esta questão. Além disso, os e-books não se popularizaram ainda por não encontrar um formato que agrade a todos, e também pelo fato de muitas obras literárias não estarem disponíveis em formato digital ou liberadas para compra. O mercado editorial de livros impressos, inclusive, tem registrado expansão, mesmo com a facilidade de transportar uma biblioteca nas mãos oferecida por um e-book: ele pode armazenar até 1440 obras.

    Talvez um dos motivos da pequena adesão aos e-books seja o apego físico aos livros de papel, uma das principais bandeiras do grupo pró-impressos. O toque no papel, o manuseio das páginas é, claro, somente viável com o impresso, e isso dá ao leitor percepção de maior vínculo, intensifica a relação ‘emocional’ com o objeto (tem até aqueles que não imaginam uma boa leitura sem o cheiro do papel...). Livros ainda oferecem uma certa sensação de posse: muitos colecionam ou apenas os acumulam para formar uma biblioteca, e desta forma ainda é raro alguém se desfazer dos seus livros.

    O escárnio é que, enquanto discutem qual o destino do livro, se ele vai migrar para os suportes eletrônicos ou perder espaço de qualquer jeito, muitas escolas no Brasil ainda não tiveram a oportunidade de oferecer livros e menos ainda computadores para seus alunos. Então é difícil pensar em substituir um formato que, em pleno século 21, ainda não está largamente difundido. Mas, em contrapartida, num país de poucos leitores, os e-books podem ser uma ferramenta de incentivo à leitura, independentemente da sua pouca popularização ou aceitação. A questão, como todas, tem muitos lados.

    Só me pergunto por que tanto barulho ao tratar desse tema. A meu ver, não há dúvida de que o livro tradicional, por enquanto, não será extinto. Resistirá por pelo menos mais umas décadas. Por outro lado, existe a certeza de que, nesse mesmo período, milhões de indivíduos das chamadas gerações X e Y vão aderir a algum tipo de tablet – seja qual for a marca – para ler um livro eletrônico. Tudo é uma questão de tempo, já que estas gerações convivem com computadores desde cedo, e o primeiro e-book, o Kindle, surgiu há apenas três anos. Lembram-se das hoje peças de museu fita cassete, disco de vinil e fita VHS, tornadas obsoletas pelos CDs e DVDs? É um processo que não tem volta, mesmo.

    A pauta a ser pensada é como divulgar a leitura, independentemente do suporte. Pode parecer incoerente ou muito futurístico, mas há quem diga que, em muitas escolas brasileiras, os e-books podem chegar antes que o próprio livro de papel. Para que isso aconteça, porém, a nova ferramenta deve ser tratada como um divulgador de ideias, e não apenas como um produto ou alvo de business. Quem não quer perder tempo com a contenda, e sim ganhar com ela, acaba trabalhando nas duas mídias. Algumas editoras já estão publicando obras nos dois formatos, impresso e eletrônico, e alguns jornais, como a Folha de São Paulo, investem na ideia de site e impresso como “uma coisa só”. Já o New York Times antecipou que, no futuro, seus conteúdos devem ser oferecidos apenas na web.

    Como provocou o escritor italiano Umberto Eco, em entrevista ao caderno de cultura do jornal O Estado de São Paulo, “O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento”. É isso: desaparecer, o livro não vai. Vai é se instalar em outras plataformas que não somente a impressa. Na coluna sobre o futuro do teatro, terminei dizendo que “enquanto houver boas histórias e capacidade para desenvolvê-las, o teatro continuará”. Nesta, termino mais ou menos do mesmo jeito: livros são necessários e, enquanto houver conhecimento a ser compartilhado, continuarão.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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