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    Redemoinho
    by Flávio Aguilar

    Bandini e a cidade proibida
    20/12/2010


    Fante (Imagem: mediabistro.com)


    Não decidi escrever esta resenha por ocorrência de uma efeméride ou devido a qualquer reedição. Seguindo a mesma linha de pensamento, adianto que não o li por essas razões presumidamente óbvias que, hoje em dia, parecem ser as únicas capazes de justificar comentários na “grande mídia” – eis que inventaram a Internet e resolveram grande parte do meu problema de espaço. Comprei “Pergunte ao Pó” na mais recente Feira do Livro de Porto Alegre, em novembro. Quis repartir minhas impressões por puro deslumbre.

    Quando estudamos a escrita literária, frequentemente deparamos com esse conceito simples e preciso: conquistar o leitor é uma arte que deve ser trabalhada a cada capítulo, parágrafo e linha, começando bem do começo. John Fante sabia disso e de muito mais. Não à toa, o primeiro parágrafo de “Pergunte ao Pó” funciona como uma síntese do universo de seu alter ego no restante da obra – uma narrativa crua, deliciosamente irônica e com ar despreocupado:

    “Uma noite, eu estava sentado na cama do meu quarto de hotel, em Bunker Hill, bem no meio de Los Angeles. Era uma noite importante na minha vida, porque eu precisava tomar uma decisão quanto ao hotel. Ou eu pagava ou eu saía: era o que dizia o bilhete, o bilhete que a senhoria havia colocado debaixo da minha porta. Um grande problema, que merecia atenção aguda. Eu o resolvi apagando a luz e indo para a cama.”

    Badalado por Charles Bukowski (que prefaciou, em 1979, a edição que tenho em mãos) e pelos autores da Geração Beat, “Pergunte ao Pó” é a obra-prima de um autor preciso na tarefa de gravar profundidade em uma história aparentemente banal. O dia a dia do pobretão Arturo Bandini em busca da fama como escritor e sua relação com a garçonete Camilla Lopez são contados por meio de uma prosa espontânea, que inspiraria e seria exacerbada por autores como Jack Kerouac. Em Bukowski, a influência chegaria ainda mais forte. O Velho Safado, assim como Fante, criou um alter ego (Henry Chinaski) para levar peripécias autobiográficas à prensa.

    Provavelmente, não foi apenas pela poesia e pelas virtudes técnicas que Bukowski passou a admirar Fante. Arturo Bandini e Camilla Lopez podem ter sido, para ele, uma representação de sua própria condição social e ideológica. Ambos eram “quase-americanos” – ela, imigrante mexicana, ele, filho de imigrantes italianos –, assim como Bukowski se sentia, tendo nascido na Alemanha e vivido à margem da sociedade tradicional estadunidense. Esse recorte de origem é vital para que o leitor comum também se encontre na obra. A época (logo após a crise de 1929) e o local em que a história é retratada (uma Los Angeles até hoje extremamente desigual) são importantes nesse processo de identificação: o leitor também se vê como um estranho, um outsider.

    O carisma de Bandini é grande. Sua predisposição ao fracasso, maior ainda. Não se faz necessário vestir a pele de pseudo-intelectual ou escritor wannabe para torcer por dias melhores para ele, que torra o pouco dinheiro conquistado como se não existisse o amanhã. Suas atitudes irresponsáveis são uma síntese do anti-herói, do herói moderno. Faria sentido louvá-las como atos de revolta contra a desolação da sociedade norte-americana pós-1930. Uma sociedade desigual como aquela – similar a tantas outras, né, Brasil? – sempre há de formar gerações tomadas por um sentimento de violenta desilusão e fina poesia.


    flavioaguilar@gmail.com

    @flavioaguilar




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