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    Toca-disco

    Cole's the top
    Lucas Colombo
    19/12/2009


    (Foto: allmusic)


    Paulo Francis, certa vez, escreveu: “Uma das poucas razões por que morrer me incomoda é não ouvir mais Cole Porter.” Pois a possibilidade de deixar de ouvir as composições daquele que, ao lado de George Gershwin, Irving Berlin e da dupla Rodgers e Hart, é o maior cancionista americano também é algo que aborrece quando penso que num (longínquo, por favor) dia tudo se acabará para mim. Não acharia bom parar de saborear “You’re the top”, “Begin the beguine”, “Get out of town”, “I get a kick out of you”, “De-lovely”, “Just one of those things”, “The laziest gal in town”, “Let’s do it, let’s fall in love”, “I concentrate on you”, “So in love”, “Ev’ry time we say goodbye”, “Love for sale”, “I’ve got you under my skin” e outras centenas de fabulosos entrelaçamentos de melodia e letra que Cole Porter empreendeu. Ele, a propósito, se foi há 45 anos, em outubro de 1964, e tal efeméride é que me move a redigir estas poucas linhas.

    Não ficarei aqui, porém, apenas repetindo o que já se sabe sobre Cole: que compôs alguns dos maiores clássicos da música popular americana; que já foi gravado por um sem-número de grandes intérpretes do mundo todo, de Nat King Cole a Gal Costa; que suas canções embalaram grandes musicais da Broadway e filmes de Hollywood, como a primeira e a última das citadas acima, entre as décadas de 1930 e 1950; que ele teve uma vida agitada e milionária; que é dele “Night and day”, talvez a melhor canção de todos os tempos. Ruy Castro, seu adorador, já escreveu bastante sobre ele, e certamente eu não escreveria melhor. Vou apenas ressaltar o prazer que se obtém ao se escutar uma composição de Cole, pelas harmonias e melodias intrincadas e pelas letras espirituosas e maliciosas (mas com uma leve melancolia latente), cheias de referências (“You’re the top” é grande exemplo) e rimas hábeis.

    Língua melhor para se fazer uma canção do que a inglesa, não há. É uma língua ‘redonda’, sintética, rica em monossílabos e dissílabos – que, quando em versos musicais, além de permitirem dizer muito com pouco, contribuem para o swing da melodia, já que cada nota corresponde a uma sílaba. E Cole, grande cancionista que foi, soube explorar isso. Versos como os de “Where is the life that late I led?”, uma de suas canções feitas para o musical “Kiss me, Kate” (1948), adaptação de “A Megera Domada”, de Shakespeare, mostram como ele era capaz de brincar com a sonoridade dos vocábulos, de fazer trocadilhos e, ainda, lançar mão de rimas inusitadas: “In dear Milano, where are you, Momo?/ Still selling those pictures of the scriptures in the Duomo?/ And Carolina, where are you, Lina?/ Still peddling your pizza in the streets of Toremina?”. Cole também desafiava a respiração de qualquer cantor ao escrever frases longas quais as de “Begin the beguine”, uma de suas composições mais gravadas: “What a rapture serene/ Till clouds came along to disperse the joys we have tasted/ And now when I hear people curse the chance that was wasted/ I know, but too well, what they mean”. Embora compridos, esses versos, no entanto, não são ‘quebrados’ pelo andamento da melodia. Ao contrário: a letra e a música de “Begin the beguine” fluem juntinhas, amparadas pela harmonia complexa. Todas as composições de Cole, aliás, conforme comentei lá no início, vão ao encontro da qualidade mais esperada em uma canção: vínculo forte entre música e letra. Seus versos são indissociáveis das melodias, são impossíveis de ler “a seco”. Ou dá para ouvir “Some Argentines, without means, do it/ People say in Boston even beans do it/ Let’s do it, let’s fall in love” sem querer cantarolar junto? (É por isso que fico incomodado quando tomam letras de canções como “poemas”... elas são feitas em função da música, meus caros!). Difícil.

    Tais atributos já forneceriam razões de sobra para considerar a obra de Cole um deleite, mas há mais. Afora serem uma delícia em musicalidade, suas canções também tratam, na maioria, das delícias da vida (“das delícias dos ricos”, diria um politicamente correto, talvez nervoso com a presença de ostras, champanhe, Paris e Boticcelli nas letras). “You’d be so nice to come home to”, disponibilizada aqui, por exemplo, fala do quão bom seria ter a pessoa amada ao lado, em casa, ao pé do fogo, ou sob uma lua de agosto no céu: “You’d be so nice to come to/ You’d be so nice by the fire/ (…) Under stars chilled by the winter/ Under an August moon burning above/ You’d be so nice/ You’d be paradise/ To come home to and love”. Cole a compôs para a trilha sonora do filme “Something to shout about”, de 1943 (que no Brasil, pra variar, saiu com o título besta “Canta coração”). Nele, é cantada em dueto por Janet Blair e Don Ameche. Essa, contudo, não foi a única vez em que “You’d be so nice to come home to” foi inserida em um filme. No seu “Radio Days”, de 1987, Woody Allen igualmente a usou, e de um jeito adorável: com a sua “Annie Hall” Diane Keaton, em participação especial, cantando-a num bar (assista aqui).

    Intérpretes vários já defenderam a canção: Sinatra, Ella, Chet, Mel Tormé, Helen Merrill e Clifford Brown, Nina Simone... No player abaixo, a versão acelerada é da competente cantora e pianista Keiko Lee. Sim, ela é japonesa, e o registro é de 1995. Uma prova de que a música de Cole Porter, como toda Boa Música, não tem fronteiras. E é eterna. Cole, you’re the top.





    * Faixa extraída da coletânea “This is Jazz” (Columbia/Sony Music)

    lucas.colombo@minimomultiplo.com



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