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    Especial Eleições 2010

    Votar no menos pior
    Leandro Demori, de Roma*
    01/10/2010


    Nada muda de um dia pro outro, e todas as revoluções do século 20 descambaram em ditaduras, substituíram uma oligarquia por outra ou solaparam as eleições – à esquerda e à direita. A frase é metralhada de clichês, todos discutíveis, o que não os torna menos aceitáveis. As eleições (e aqui vai outro clichê) ainda são o modo mais seguro de tentar fazer do mundo aquilo que você acredita ser um lugar “legal”, mesmo sendo – o sistema eleitoral como um todo, e não o voto – arcaico e discutível.

    Há variações supostamente melhores.

    No Brasil, somos obrigados a votar no “menos pior”, como muita gente acredita. Se você vota no “menos pior”, assina embaixo daquele nome, de suas ideias, história e promessas, mesmo que assine sem muita convicção, mesmo que seja “obrigado” a assinar porque o voto é, enfim, obrigatório. Outra opção é votar em branco, nulo ou se abster, com consequências variadas dependendo do momento.

    Tenho um amigo que defendeu ontem que “é ingênuo não escolher o menos pior” em vez de anular. A metáfora utilizada foi a seguinte: “é como um treinador que vê o time jogando mal, ninguém correndo, e só vê ‘meia-boca’ no banco. Não dá pra trocar todo o time de uma vez. Bota uns menos ruins pra correr. É o que dá pra fazer. O pior a fazer seria simplesmente mandar o time todo sair de campo e desistir do jogo. Votar nulo, nas circunstâncias de voto no Brasil, é escolher o W.O.”

    É um argumento e, como todo argumento, discutível. No fim das contas, temos que ter em mente que quando morre um Papa, se elege outro, como dizem aqui pelas cercanias do Vaticano. Você pode até anular o voto, mas alguém ocupará a cadeira. Rei morto, rei posto.

    A democracia brasileira é jovem, nossa história democrática recente tem apenas 20 anos. Ainda daremos muitas voltas e bateremos muita cabeça. O PT, que era uma esperança moralizadora (não ‘santa’, mas, em tese, moralizadora) se derreteu na máquina e hoje não é melhor ou pior do que os outros partidos, é só mais cobrado porque foi referência a quem acreditava que as coisas poderiam ser diferentes. Não são, e hoje temos o quadro do voto no “menos pior”.

    Esse mesmo amigo da metáfora do futebol acredita que exista, apesar de tudo, um quadro de candidatos bem-intencionados. O problema dos bem-intencionados (eles existem?), acrescento eu, se chama ‘partido’.

    Aqui na Itália, não há necessidade de filiação partidária para se candidatar. Qualquer cidadão pode montar uma lista eleitoral, recolher um número de assinaturas proporcional ao número de habitantes da cidade onde quer concorrer para legitimar a lista e pronto. A partir disso, a lista escolhe se deve se aliar a um partido ou não.

    Nas recentes eleições regionais, listas independentes tiraram votos tanto da esquerda quanto da direita, e decidiram eleições importantes em regiões fortes como o Piemonte (Torino, Fiat etc). Lá, venceu a Liga Norte, por diferença mínima. A Liga derrotou o Partido Democrático (PD) que, teoricamente, poderia ter sido apoiado por uma lista de valores políticos semelhantes. O apoio faria o PD vencer. O apoio não veio.

    O caso de maior sucesso aconteceu na Emília-Romanha. Uma lista independente que não apoiava nenhum dos candidatos majoritários fez 8% dos votos e elegeu 22 pessoas. Não é um partido, é uma lista, um grupo de cidadãos que não vê nos partidos e candidatos do momento a representação de suas ideias.

    No Brasil, montar um partido exige muito esforço e dinheiro, é necessária uma representatividade nacional e muita gente filiada até chegar ao índice para ser reconhecido oficialmente e disputar eleições. O corpo organizado vira um mastodonte em que os fundadores perdem controle do que acontece. Os ideais iniciais, se é que existiam, são perdidos em meio a ganâncias pessoais e mesquinharias do poder.

    Caso um candidato bem-intencionado queira mesmo concorrer, ele precisa passar por duas obrigatoriedades, ao menos: os caciques do partido e os financiadores de campanha. O primeiro ponto é um jogo de interesses dos mais escuros. E o segundo?

    Por mais ‘idiota’ que pareça um candidato, ele não é escolhido por um partido se não traz financiadores ou potencial de votos para trazê-los. Tiririca, para ficar no exemplo mais afinado, já arrecadou R$ 594 mil. Pela pretensões iniciais, até que é pouco: ele declarou ao TSE teto máximo de R$ 3,5 milhões.

    Para manter os exemplos esportivos, é mais ou menos a história dos pilotos na Fórmula 1. Alonso, além de bom de braço, leva o Santander com ele. É também por isso que, historicamente, há japoneses na categoria — de lá vêm motores e boa parte da grana. Se Fernando Alonso fosse somente um bom piloto, mas não trouxesse grana, a decisão de contratação por parte de uma scuderia seria limitada. Bruno Senna não correu em Silverstone nessa temporada porque Yamamoto teria pago 5 milhões de dólares para correr em seu lugar.

    Mesmo os ‘bem-intencionados’ já começam o jogo perdendo, se submetendo a interesses que, teoricamente, não são os deles, jogados em um time lotado de potenciais corruptos e sendo financiados de alguma forma por dinheiro de intenções pouco claras. A tendência natural é que a boa intenção seja patrolada.


    * Leandro Demori é jornalista e integrante do braziu.org, em que este texto foi originalmente publicado.


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