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    À luz de Lampião
    Deise Martins*
    01/07/2008


    Maria Bonita e Lampião, em foto do livro "Cangaceiros"
    (Benjamin Abrahão, 1936)


    Você ainda duvida de que Lampião existiu? De que Maria Bonita, Corisco e toda a sua trupe andaram mesmo pelo nordeste brasileiro nos anos 20 e 30 do século passado, cortando cabeças e fazendo justiça à sua maneira, numa vida de sangue e medo pelo sertão?

    Pois o livro fotográfico e histórico "Cangaceiros" (Terceiro Nome, 2006) escancara a veracidade desses fatos. Com fotografias de quem acompanhou o fenômeno do cangaço naquela época, o fotógrafo Benjamin Abrahão, o livro expõe um impactante período da História brasileira, ainda pouco explorado.

    Abrahão – que era libanês e veio ao Brasil fugindo do serviço militar de seu país – foi secretário de Padre Cícero, por quem Lampião tinha veneração. Ele conheceu o chamado "rei do cangaço" em 1926, quando este recebia em Juazeiro do Norte, no Ceará, a patente de capitão. Depois da morte do padre, Abrahão procurou Lampião e se ofereceu para registrar sua vida em fotografias. Obtida a permissão para fazer o serviço e para conviver entre os cangaceiros, ele buscou parceria com Adhemar Bezerra de Albuquerque, fundador da Abafilm, que forneceu equipamento, filmes e o ensinou a fotografar e a filmar. O libanês conquistou a confiança de Lampião e tornou-se o fotógrafo "oficial" dele e de seu bando.

    A primeira fotografia de Lampião foi feita no final dos anos 1920. Diante do pedido de Abrahão, o cangaceiro pensou alguns dias, mandou fazer uma nova roupa, até que, finalmente, aceitou ser fotografado. Sobre uma foto dessa época, escreveu de próprio punho: "Lampião (legítimo)". Quando ele foi morto, trazia junto ao corpo várias fotos de família, além da foto do militar responsável pelo seu assassinato.

    Em outra fotografia tirada por Abrahão, a pose solene e frontal de Maria Bonita sugere o papel das mulheres no cangaço. Deve-se a elas o adoçamento dos costumes dos cangaceiros. Nessa fase de quase sedentarismo do grupo nômade, nos últimos anos do movimento (1936, 1937), Lampião entrava nas cidades e dizia: "É Lampião que vem chegando, amando, gozando e querendo bem". Enunciava o oposto da fama terrorista do bando.

    Em outras quatro fotos, Lampião aparece envolvido com a cultura letrada: numa, segura o jornal O Globo, noutra, a revista O Cruzeiro. Numa terceira, lê um livro de Edgar Wallace (o autor de novelas policiais e de suspense mais popular dos anos 1920) e, noutra, escreve uma carta. Talvez estivesse querendo dizer que ali, no fim do mundo, também era Brasil letrado.

    Lampião fazia-se fotografar para ser mostrado na capital do país, sem dúvida. Ao Estado Novo getulista, incomodava muito o cangaço, a barbárie do sertão que sempre repercutia na imprensa do Rio de Janeiro como um escândalo. O golpe das fotos foi sentido pelo governo, na época. Tanto é, que os militares perseguidores de Lampião passaram também a tirar fotos e a divulgá-las, introduzindo, através delas, o espetáculo do horror como forma intransigente de combate. Cabeças decepadas e fotos de prisioneiros executados tinham o claro propósito de intimidar, senão aos cangaceiros, à população civil que lhes dava suporte. Além disso, mostravam à opinião pública a presença do Estado no sertão. Curioso que não haja, da parte dos cangaceiros, uma só foto de inimigo morto ou profanado. Na única imagem em que aparecem prisioneiros de Lampião, estes estão misturados, quase indistintos, como se fossem uma só família.

    Ao todo, "Cangaceiros" traz 86 fotos, acompanhadas do texto minucioso da historiadora francesa Élise Jasmin. As imagens feitas por Benjamin Abrahão, cedidas por vários colecionadores e restauradas para a publicação no livro – assim como as de outros fotógrafos, nem sempre identificados –, já foram divulgadas na imprensa algumas vezes, mas nunca na extensão e com o tratamento gráfico que receberam aqui. A iconografia começa com os primeiros retratos do "rei do cangaço" e seu grupo, em 1926, e termina com o aniquilamento do bando e as imagens espetaculares da decapitação de Lampião, em 1938. Setenta anos depois do término do fenômeno, vê-se em "Cangaceiros" um significativo painel do cangaço, que entrou para a História como um movimento de contestação à política e à situação social do Brasil na época. Nas fotos do livro, os cangaceiros se apresentam através de cenas domésticas, mas também posando para a câmera. É como se aqueles homens e mulheres soubessem que a História os absorveria, ainda que não os absolvesse.


    * Deise Martins é jornalista e vive em São Paulo.


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