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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    O propalado teatro do fim
    23/06/2010


    Num bate-papo descontraído, um amigo realizador cinematográfico me revelou seu pessimismo quanto à sobrevivência não do cinema, mas do teatro. Segundo ele, em pouco tempo essa arte irá sucumbir diante de outras formas de produções cênicas, e as mídias digitais a tornarão obsoleta e chata para os espectadores.

    Pensei realmente na tarefa árdua que é trazer para uma sala de teatro – muitas vezes de insuficiente conforto – o espectador contemporâneo, alguém que tem ao seu alcance computadores com internet, cinemas reproduzindo filmes em terceira dimensão e monitores de televisão futuristas. Mas achei exagerado o comentário. Estas observações apocalípticas, que não vêm de hoje, sempre caem por terra.

    Temos como atitude corriqueira prenunciar o fim de tudo que não represente muita “tecnologia”. Assim foi com o rádio, que, contrariando as expectativas, sobreviveu ao advento do aparelho televisor, na primeira metade do século 20. O mesmo se deu nos anos 1980, quando pensávamos que as salas de cinema seriam extintas por causa do videocassete – coisa que também não aconteceu. Agora, a “onda” é proclamar o fim dos jornais e dos livros, já que seus conteúdos podem ser encontrados na web. Parece, contudo, que as duas linguagens têm convivido bem, sem grandes conflitos, e um exemplo disso é o trabalho de Fabrício Carpinejar, que tem publicado seus poemas, aforismos e crônicas primeiro na internet, para depois editá-los em livros. As ferramentas interagem e se completam.

    Em relação ao teatro, ainda é cedo para saber como será sua adaptação às novas tecnologias. Mas elas são bem vindas, sim, pois muitos de seus recursos são empregados para incrementar e sofisticar as encenações. Mesmo assim, há um público que prefere as montagens mais “convencionais”, que não utilizam qualquer artifício computadorizado, como telões de vídeos para reproduzir cenários, imagens ou textos de personagens.

    Com ou sem esses artifícios, o certo é que o teatro tem exercitado novos formatos. Aqui no Brasil, uma forte vertente atual é a das chamadas “comédias stand-up”, em que, como os antigos arlequins, atores divertem a plateia contando piadas e casos engraçados. Tal gênero – que muitos dizem não ser teatro – já é há tempos aclamado nos Estados Unidos, mas por aqui não era muito difundido, ainda que comediantes de peso como Zé Vasconcelos, Jô Soares e Chico Anysio tenham realizado, no passado, espetáculos individuais de sucesso. É verdade que atualmente há uma avalanche de atores se lançando nos stand-ups, mas aos poucos haverá uma seleção natural dos mais talentosos desse formato que, parece, veio para ficar. E também não é despropositado citar que o circo igualmente tem oferecido novidades nos últimos tempos. Animais amestrados foram substituídos por apresentações cênicas com recursos e estilos de interpretação antes somente utilizados no teatro. Exemplo é o grupo pelotense Tholl, que, ao empregar o corpo como principal ferramenta, em performances de muita criatividade, talvez esteja inventando um novo modo de se fazer espetáculos circenses. O detalhe, no caso do Tholl, é que suas apresentações se adaptam facilmente a um palco de teatro.

    Estritamente na forma de apresentação teatral, se existe algo distinto sendo produzido e que talvez possa contemplar uma significativa mudança é o que o diretor americano Bob Wilson mostrou em 2009 no Brasil, em Porto Alegre e em São Paulo, com o espetáculo “Quartett”. Nessa montagem, se vislumbrou o que há de novo nas artes cênicas contemporâneas. Os diálogos poéticos dos personagens e os jogos de cores (predominando o roxo, o amarelo, o vermelho e o branco), feitos por meio dos figurinos, da iluminação e do cenário, estabelecem uma estética original e impactante. Mas o que Wilson propicia não é uma mera experiência visual, e sim uma nova forma de juízo da montagem, em que o espectador é quem toma suas decisões sobre o entendimento do enredo da história. No trabalho de Wilson, a inovação não é tratada com extravagância, e isto o torna uma referência.

    Esses fatos todos nos fazem perceber que o teatro, independentemente das novas formas de reproduções digitais cênicas, continua sendo necessário e tendo seu espaço. Ainda pode ser revelador, transgressor, político, leve ou denso, e é uma forma intensa e precisa de interação com o público, seja através de uma montagem com efeitos especiais ou de uma simples encenação de rua. Ah, sim, existem as dificuldades da falta de salas e seus velhos problemas estruturais, além da escassa criatividade de alguns realizadores. Isso, porém, são outros quinhentos. Os descrentes e fanáticos do mundo digital que me desculpem, mas, enquanto houver boas histórias e capacidade para desenvolvê-las, o teatro continuará.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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