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Ele e Dilma vão descobrir que se amam, lembrar os bons momentos juntos e reatar

 
 



    Etc...

    Trinta Minutos com o Repórter do Século
    Jeison Karnal da Silva*
    11/06/2010


    Descemos de assalto em um hotelzinho na Região Metropolitana de Porto Alegre. Setembro ensolarado, 10h30min, trinta e poucos graus. Dentro de um Fiat Uno estão produtor, câmera e entrevistador. A bordo de um veículo baleado, o planejamento é de guerrilha. Direto para o front, o moral está elevado. A tropa chega ao teatro de guerra com vinte minutos de atraso.

    Ataque coordenado, estratégia de ocupação. A equipe técnica preocupa-se com o flanco da esquerda, sobe lances de escada. A unidade precisa arranjar uma locação decente para a entrevista, fonte para 220 volts, recuo de câmera. A conversa será gravada longe de morteiros, granadas ou buzinas de caminhão de lixo.

    Eu, de paletó preto, de microfone na mão e gel na cabeça, espero no Hall. No balcão, faço questão de pronunciar a senha de acesso à fonte: José Hamilton. José Ha-mil-ton Ri-bei-ro.
    – É repórter especial do Globo Rural, reforcei.

    Carranca de recepcionista. Maneira indiferente transparece na voz da moça de terninho que me atende:
    João Hamilton do quê?

    Ela definitivamente não conhece o tal senhor da guerra. Jamais ouviu falar da Revista Realidade. Tampouco tem noção se abriga um Vietcong ou Yankee. Eis o porquê de haver deixado um hóspede de setenta e poucos anos dormir no pior quarto do Hotel Suarez. Tiraram do velho até o direito de pernoitar em uma cama de casal. A companhia noturna ficou por conta do ronco dos carros e dos gritos vindos da Avenida Independência, reclamou Zé, horas depois. Uma típica madrugada de vigília, como nas bandas Vietcongs, em 1968.

    Ele não vai nos atender

    A funcionária inicia a comunicação com José Hamilton Ribeiro. Ele não atende. Enquanto isso, eu e minha camisa listrada olhamos para os dois pés, lamentando o desgaste dos coturnos. Por instantes, interrompemos a blitzkrieg jornalística e decidimos urinar (porque as pessoas continuam urinando mesmo durante a guerra). Depois, recorro à máquina de lustrar sapatos (porque os soldados continuam lustrando os sapatos mesmo durante a guerra). De volta ao balcão, insisto: “Tente mais uma vez, moça, acabamos de ligar e ele estava nos esperando”. A atendente resmunga, mas liga. O velho avisa que está a caminho. Desconfio que ZHR não vai falar com a gente.

    Em linha de combate

    Ainda em Saigon – ou Saguão –, sinto a proximidade do perigo. Um silêncio que precede a explosão e desnorteia os sentidos. Os números acima da porta do elevador movimentam-se em contagem regressiva. José Hamilton está descendo. Três, dois, um.

    Bomba-relógio. Atrás do aço, uma reputação blindada, três metros de altura. Um Urutu camuflado, quem sabe, vestindo a empáfia emocional de alguém que sentiu a história mundial tatuada em sangue. Na iminência do combate, o medo.

    Numa hora dessas, como agir? Camuflagem ou leveza no espírito, pinta de soldado raso em combate? A porta se abre, com ela a ficção jornalística e a realização do mito. Chega o Dia D.

    Cavei a entrevista um mês antes, liguei dezenas de vezes para o celular dele para insistir. Agora, me arrependo do circo que armei. Trata-se do repórter do Século. Esqueci até das perguntas que tinha planejado.

    Cartão de visitas do tempo

    Da caixa metálica sai um senhor de passos e gestos vagarosos. Um e oitenta, esguio, meio curvado. Nos olhos, um tom claro desbotado apresenta o cartão de visitas do tempo. Olhar manso, que por ter visto de tudo – da supremacia à derrocada –, hoje descansa misterioso sob as pálpebras enrugadas. Sorri ainda com bons dentes.

    Pensamentos nada honoráveis: reparei que o herói de guerra – que perdeu parte de uma perna em uma mina terrestre – não manca.

    As linhas de expressão lembram a argila seca do solo nordestino. A bota de vaqueiro dá um ar brejeiro, dos violeiros que José Hamilton documenta. Bom papo. A parca cor de areia, a calça de brim e a pochete a tiracolo lembram apenas um vovô.

    Café Preto X Égua da Noite

    Antes de conversarmos, o alto oficial tem poucas exigências: quer um café preto. Um café preto? Um café preto... Taça de cristal? Em copo de plástico!

    Voltamos ao mesmo elevador. A entrevista será gravada em um corredor de hotel. Dentro da caixa metálica estão o entrevistador, a recepcionista e o correspondente no Vietnã. Momentos em que se vasculha a mente atrás das palavras mais brilhantes, das histórias mais curiosas para impressionar. Epifânico átimo dividir o mesmo espaço com o repórter do século. Sensação de que se pode contrair talento como se pega uma gripe.

    – Sabe, rapaz, que não consegui pregar o olho. Passei a noite galopando uma “égua da noite”, puxa conversa Zé Hamilton. O sotaque é mesmo caipira, do interior de São Paulo. Chama a recepcionista de “galega” e não disfarça a simpatia por ela. Ela sorri, mas não parece ter se importado muito.

    “Égua da noite”... O que ele quis dizer com aquilo? Antes que o constrangimento fosse maior a porta do elevador se abre.

    Pesadelo

    “Égua da Noite” é Nightmare, em inglês. Nada mais, nada menos que o tradicional pesadelo tupiniquim. Ora, o velho faz jornalismo literário, dois mais dois, para ele, são cinco – os matemáticos é que não levam em conta o drama humano desses números. Fico sabendo que os responsáveis pela “pocotó da madruga” são o barulho da rua e o colchão de presídio. Quase nada abala a gentileza do repórter do século, só a demora do café.

    No set improvisado, a equipe de TV percebe que não há recuo de câmera, e a luz é uma merda. Não é o Projac, é um hotelzinho em São Leopoldo – a 27 quilômetros de Porto Alegre. Daí por diante é um tal de tira sofá, tira vaso, senta, levanta. E nem sinal do café. Eis que o velho resmunga.

    O Rei da Etiópia e a Escola de Samba

    Duas poltronas modestas servirão para o bate-papo televisivo. Os vilões serão o sobe e desce barulhento dos elevadores. As máquinas de lavar chacoalhando no fim do corredor atrapalharão também. A gravação tem que sair de qualquer jeito, e logo. Em vinte minutos chegará um motorista do sindicato para buscar ZHR: o velho será o palestrante.

    Parem as máquinas: chegou o café. Um tanto sonolento, Zé Hamilton pega o copo de plástico e empina o café sem açúcar. Antes de sentar-se de novo e colocar o microfone de lapela, pede para dar uma olhada nas perguntas elaboradas pelo entrevistador. Confessa que é um tanto antiético requisitar tal coisa, mas eu mesmo reconheço: um revisor como Zé Hamilton não se dispensa.

    – Aqui, ó, acho que você tem que mudar, adverte o velho enquanto rabisca meu papel com uma Bic azul. – A pergunta já entrega todo o ouro para o bandido, tem que deixar um mistério...

    José Hamilton refere-se à pergunta sobre o primeiro furo de reportagem dele:
    – Era um sábado quando recebemos a informação de que o rei da Etiópia havia sido deposto. Haile Selassie estava hospedado em São Paulo, virando notícia repentinamente. Fui escalado para cobrir o assunto.

    Chegando à porta do hotel, ninguém sabia do paradeiro. Eis que um funcionário tenta ajudar: “O quarto onde o tal rei está hospedado eu não sei, mas no andar tal certamente não. Lá está tudo ocupado por uma escola de samba!”

    As roupas coloridas da comitiva africana causaram a confusão. E essa foi a primeira grande matéria do velho...

    Vietnã: notícias de uma guerra particular

    Além das marcas físicas, as cicatrizes emocionais. Depois que voltou da cobertura no Vietnã, José Hamilton escreveu dois livros: um narrando os horrores da guerra (O Gosto da Guerra), e o outro mais filosófico, expressando o quanto a viagem mexeu com a sua cabeça (Deixem-me Ser Eu). Perdeu parte da perna no último dia de estada nos confins da Ásia. Estava em uma patrulha com soldados norte-americanos. Pisou em uma mina vietcong.

    Apesar da tragédia, precisava continuar trabalhando, ainda que utilizando uma perna mecânica. Conseguiu: já são 50 anos de carreira.

    O velho se lembra de como avisou a família de que cobriria uma guerra. Naquele momento sequer imaginava o que teria de enfrentar depois:
    – Quando fui convidado a seguir à Indochina, primeiro pedi a opinião da minha esposa. Ela disse para eu não ir, mas eu fui. Ele virou notícia nas agências internacionais.

    ZHR ri ao contar que, há alguns anos, a filha dele deparou-se com a mesma situação:
    – O marido dela, também jornalista, foi convidado para cobrir a Guerra do Iraque. Hamilton disse: – Você vai dizer para ele não ir, mas ele vai.

    Sobre o dia da explosão, ZHR se recorda mais do socorro. Lembra de estar de bruços em uma maca, dentro de um helicóptero militar. Ao olhar para o lado, viu um soldado com o rosto completamente desfigurado. O quadro tétrico nunca mais saiu de sua cabeça. Naquele momento a guerra – até então uma aventura romantizada – tornou-se de verdade.

    Sete Prêmios Esso depois, a experiência. Desconfiar é a mensagem do velho aos jovens repórteres. Três segredos básicos:
    – Geralmente a água quente vem da torneira da esquerda; as azeitonas pretas são tingidas e, por último, de ovo de cobra não sai canarinho.

    Lealdade na guerra

    Terminada a gravação, Zé Hamilton nem sai do lugar. Pede mais café e pergunta à equipe sobre os fatos políticos no Rio Grande do Sul. A conversa longe das câmeras dura mais meia hora. Acho que se esqueceu do compromisso.

    Aparece então o motorista do Sindicato para levar Zé Hamilton à palestra – quase à força. O velho se despede da equipe com um aceno. Voltamos para dentro, recolhemos nosso equipamento e embarcamos no Fiat Uno. Missão cumprida.

    Duas quadras depois, já seguindo à emissora pela BR-116, o cinegrafista pede que retornemos imediatamente ao Hotel Suarez:
    – Que foi? Esqueceu o pau-de-luz, a fonte ou os microfones?

    Nada disso. A garrafa de café não foi paga. Ia parar na conta do repórter do Século.

    De volta ao Hall do Suarez, pego três reais do bolso e os entrego à mesma recepcionista carrancuda.

    O soldo está pago.


    * Jeison Karnal da Silva vive em Porto Alegre e é repórter da TV Assembleia. Já atuou na Rádio Gaúcha, Portal Terra e jornal O Sul.


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