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    Uma paranoia patológica
    Moziel T.Monk*
    26/05/2010


    Nos anos 1950, o livro “Seduction of the Innocent”, do psicólogo alemão Fredric Wertham, acusou as histórias em quadrinhos americanas de induzirem a juventude ao crime. O volume tem versão em espanhol, mas é inédito em português e, assim, não gerou maiores repercussões por aqui. Entretanto, guardadas as devidas proporções, outro livro, escrito no Chile, também demonizou os singelos personagens dos quadrinhos e, este sim, teve ampla circulação no Brasil. Se, para Fredric Wertham, a dupla Batman e Robin era símbolo de viadagem, o Pato Donald virou instrumento de alienação das massas em prol do imperialismo americano no livro “Para Ler o Pato Donald – Comunicação de Massa e Colonialismo”, publicado em 1972.

    O embrião do livro foi um seminário, “Subliteratura e modo de combatê-la”. Os autores, o argentino radicado no Chile Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelard, eram funcionários da Quimantú, antiga editora de quadrinhos Zig-Zag que fora estatizada por Salvador Allende. Usando a semiótica – e a grana do contribuinte chileno, diga-se de passagem –, os dois então jovens autores empunharam a lupa ideológica para decifrar o “significado oculto” nos aparentemente infantis e inocentes personagens de Walt Disney. E o que “descobriram” foi uma conspiração engendrada pelo grande satã americano para alienar as massas e divulgar sub-sub-repticiamente a ideologia capitalista e pequeno-burguesa.

    Por exemplo: o Pato Donald, que é sobrinho do Tio Patinhas e comumente utilizado como mão-de-obra barata nas aventuras do seu tio sovina, é considerado por Dorfman e Mattelard um “agente do imperialismo”, corruptor da inocência infantil e sexualmente pervertido, não por se abster do uso de calças, mas porque não tem pais ou laços familiares diretos, e ninguém sabe quem é filho de quem. E Tio Patinhas, em suas viagens mundo afora em busca de riquezas e aventuras, seria, é claro, a essência do capitalismo selvagem, que invade as culturas dos países “subdesenvolvidos” para sugar suas riquezas materiais até o talo. Mas o livro tem acusação para todo mundo. Até o sortudo Gastão serve de exemplo de conformismo pequeno-burguês. Patópolis seria os próprios Estados Unidos, centro do mundo civilizado, e o “resto do mundo” seriam os países periféricos e em desenvolvimento, obviamente inferiores em relação à “matriz”. Nem os Irmãos Metralha escapam da condenação de não serem marxistas o bastante, já que querem expropriar o capital da classe dominante apenas para eles próprios se aburguesarem (mas, cá entre nós, mais comunista do que isso eu não posso conceber).

    Pior que essa mixórdia já foi, e ainda é, levada a sério. Eu mesmo fui apresentado a esta “obra” por um professor de OSPB (isso ainda existe?), no segundo grau. A primeira leitura foi como um choque, me surpreendi com o “significado oculto” e, admito, até levei a sério essa grande conspiração de idiotização mundial. Logo achei que Walt Disney e Carl Barks ganhavam dólares diretamente da CIA para conceber ardilosas histórias. Tudo bem que, durante a II Guerra Mundial, praticamente sob encomenda do governo dos EUA, Disney produziu desenhos e criou personagens para simbolizar a política de boa vizinhança entre os países das Américas, saindo dessa safra o galo mexicano Panchito e o papagaio malandro Zé Carioca. Mas daí a extrapolar que há todo um plano maligno para deturpar os valores das crianças do mundo, convenhamos, é dose difícil de engolir.

    Essa ideia, porém, foi muito popular nos anos 70 e 80. Mas, como diria Freud, às vezes um charuto é só um charuto. E um ceticismo saudável é sempre bem-vindo. Analisando friamente, hoje podemos ver que essas noções são apenas frutos de paranoia esquerdista e doutrinação marxista. Os autores apenas pegam das histórias os elementos que venham a corroborar suas ideias, forçando a barra nas interpretações e chegando a adulterar o significado dos quadrinhos, substituindo o texto original por outros mais convenientes, que reforcem sua tese – prática que não deixa de ser estelionato intelectual. E, se extrapolarmos a percepção e forçarmos a barra, veremos, então, conspiração e perversão em qualquer obra infantil. Ariel Dorfman ainda escreveria “Super-Homem e Seus Amigos do Peito”, levando a mesma teoria aos heróis dos quadrinhos americanos. Em anos mais recentes, é comum vermos pastores mais exaltados afirmarem que os funcionários da Disney são tarados, homossexuais e maconheiros que enchem os desenhos animados com símbolos fálicos e mensagens de conotação sexual (mas, de novo cá entre nós, quem vê pica em todo canto é que é, no mínimo, suspeito…).

    Em cima desse mote, o sacana Ruy Goiaba parodiou a ideia central do livro chileno no seu “breve ensaio” “Para Ler a Turma da Mônica”, publicado inclusive na revista Playboy, no qual também revela uma grande conspiração urdida por Maurício de Souza com seus personagens. Tem gente, no entanto, que leva a piada a sério, e, há poucos meses, um artigo intitulado “Violência na Turma da Mônica” causou rebuliço entre os fãs dos quadrinhos ao “apontar” significados negativos nos comportamentos de Mônica, Cascão e Magali.

    Embora muitos hoje ainda comprem as ideias de “Para Ler o Pato Donald”, só mesmo os esquerdistas mais xiitas (e ultrapassados) podem levar tamanha teoria conspiratória a sério. Em “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, uma obra dedicada a descascar com sólidos argumentos e fina ironia o mito de que a culpa do subdesenvolvimento latino é pura e exclusivamente dos planos malignos oriundos do Primeiro Mundo, os autores Alvaro Vargas Llosa, Plínio Apuleyo Mendoza e Carlos Montaner dedicam algumas páginas ao livro chileno, procurando explicar o motivo do sucesso de “Para Ler o Pato Donald” entre os que intitulam “idiotas latino-americanos”:
    “...está escrito em clave paranoica, e não há nada que excite mais a imaginação de nossos idiotas do que acreditar-se objeto de uma conspiração internacional encaminhada para subjugá-los. Para esses desconfiados seres sempre existem uns ‘americanos’ tentando enganá-los, tratando de roubar-lhes seus cérebros, arruinando-os nos centros financeiros, impedindo-lhes de criar automóveis ou peças sinfônicas, intoxicando-lhe a atmosfera, ou combinando com os cúmplices locais a forma de perpetuar a subordinação intelectual que padecemos”.

    Acho que nem o Professor Ludovico falaria melhor.


    * Moziel T.Monk vive em São Paulo e é autor do Blodega.


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