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    Redemoinho
    by Flávio Aguilar

    Às vias de fato?
    25/05/2010


    A atual novela da política internacional em volta dos planos nucleares iranianos ganhou visibilidade extraordinária no Brasil nos últimos dias. A importância “nunca antes vista na história desse país” que começou a ser dada, na mídia nacional, aos negócios do Oriente Médio reside na saliente atuação da diplomacia brasileira nas negociações com o Irã. A cobertura da imprensa local tem, no entanto, falhado ao tratar do tema – ora fazendo leituras ingênuas das posições e objetivos dos atores envolvidos, ora avaliando os resultados possíveis a partir de discussões ideológicas de ordem interna.

    As posições dos países inseridos na contenda nuclear devem ser esclarecidas. Há nelas mais interesses políticos e econômicos do que quaisquer valores subjetivos. As nações que lideram a defesa de sanções imediatas ao país de Mahmoud Ahmadinejad (comandadas pelos Estados Unidos) veem um Irã nuclear como ameaça à estabilidade do Oriente Médio e, mais especificamente, aos preços do petróleo. Tampouco interessa a Rússia, China e Brasil que o governo iraniano desenvolva esse tipo de armamento. A posição mais comedida que esses países assumiram desde o início das atuais negociações se deveu à possibilidade de continuar lucrando por mais tempo possível nas fortes relações econômicas mantidas com o Irã, principalmente as que Rússia e China têm mantido no campo nuclear.

    O Brasil já vinha há algum tempo estreitando laços comerciais com o Irã, mas essa relação por si só não explica a insistência de diálogo, mesmo após Rússia e China começarem a se articular com Estados Unidos, Inglaterra e França por novas sanções aos aiatolás (resumindo, após os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU iniciarem uma fase de convergência). A posição do Itamaraty no caso Irã é emblemática por sintetizar conceitos caros à diplomacia brasileira há algum tempo, e não necessariamente vinculadas ao PT e a Lula, como muitos analistas tendem a simplificar. A ideia de Política Externa Independente (PEI) remonta aos anos 1960 e perdurou no Regime Militar, como forma de contrapor a polarização política da Guerra Fria. A “diplomacia presidencial”, em que o presidente se torna a figura central das relações exteriores, virou modus operandi ainda nos mandatos de Fernando (Viajando) Henrique Cardoso. A busca por um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU remonta aos tempos da Liga das Nações – e, naquela época, motivou a saída do Brasil dessa entidade. Tudo isso faz parte de um projeto historicamente ambicioso de inserção internacional, muitas vezes confundido com arrogância, mas que não pode ser colado a essa ou aquela linha partidária. As relações exteriores brasileiras têm residido, na maior parte do tempo, numa política de Estado.

    Voltando ao Irã, resta avaliar a posição desse país no contexto de crise que se intensifica. Em primeiro lugar, seria inocente crer que o país desenvolve suas pesquisas no campo nuclear com objetivos pacíficos. Essa é a posição oficial, a que a diplomacia brasileira dá crédito apenas como forma de assegurar confiança dos iranianos como país mediador, mas faz parte de um mero jogo de cena. O Irã busca a bomba atômica desde a revolução de 1979; algo compreensível, dada a delicada posição a que o país se viu desde então. Teoricamente, não há armas nucleares no Oriente Médio; no entanto, é senso comum que Israel tem um arsenal cuidadosamente cultivado. Dessa forma, possuir armas nucleares é a única forma que os aiatolás teriam para garantir a segurança e longevidade do seu regime político, além de voz e influência regional. Para resumir: ninguém se meteria a besta com o Irã. Artefatos nucleares foram sempre fortes armas políticas, antes de qualquer outra coisa; artefatos militares fabricados para não serem usados na prática.

    Ao Brasil, as consequências de um Irã nuclear seriam menores do que as sofridas pelos demais países ocidentais envolvidos nas discussões do Conselho de Segurança. Economicamente ou politicamente, não sairíamos perdendo. Entretanto, é demais pensar que nossos líderes comprariam uma briga pelo Irã na hora em que as tensões se aproximassem das vias de fato. Os cálculos da diplomacia brasileira são eminentemente políticos e seguem um raciocínio correto. A questão é lembrar que todos os agentes nessa novela são racionais e não estão para brincadeira. O sucesso ou não da mediação brasileira no Oriente Médio depende não só de suas escolhas, mas também das linhas que forem seguidas pelos outros atores envolvidos, principalmente pelos Estados Unidos.


    flavioaguilar@gmail.com



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