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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Onde estão meus livros?
    23/02/2010


    Sim, eu empresto livros. Muita gente não. Mas eu não costumo acumulá-los, nem faço questão de ter uma biblioteca gigante, a não ser um satisfatório acervo para pesquisas. Empresto meus romances, coletâneas e ensaios mesmo sabendo que a volta deles para minha mesa é incerta. A satisfação é entender que alguém terá a mesma oportunidade que eu de mergulhar numa boa história ou ser apresentado a um autor não tão conhecido que, no entanto, merece ser lido.

    Considero egoísta quem possui várias estantes recheadas de enciclopédias trancadas em uma sala escura. Afinal, livros precisam que suas páginas sejam folheadas e manipuladas. Não há outra utilidade. Eles até podem receber, dos seus donos, um tratamento tal qual uma pintura valiosa, mas a adoração só tem sentido quando seus conteúdos são lidos e entendidos.

    Sempre acreditei que não carecemos de livros no Brasil. Faltam, isso sim, bibliotecas públicas e privadas que proporcionem contato com a leitura e formem leitores. Enquanto algumas escolas aguardam a implantação de laboratórios de informática, outras ainda esperam a primeira coleção de livros, que podem estar parados num sótão qualquer.

    Livros foram feitos para circular. O colega Lucas Colombo deve pensar o mesmo, pois foi através dele, por exemplo, que chegaram em minhas mãos, no mesmo volume, os clássicos textos do teatro americano “Um Bonde Chamado Desejo” e “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Tennessee Williams e Arthur Miller, respectivamente. Ambos fazem parte de uma fase imperdível da literatura americana, a do pós-guerra. As duas peças foram enorme sucesso na Broadway, em Nova York, no final dos anos 1940.

    Com uma história simples e de fácil compreensão, mas de personagens altamente complexos, Williams conseguiu, com “Um Bonde...”, lotar plateias na época, sem deixar de causar polêmica pelos perfis psicológicos e atitudes de Blanche DuBois, Stanley Kowalski e Stella. A história foi traduzida para várias línguas e encenada em muitos lugares do mundo, inclusive no Brasil. Aqui, as montagens mais lembradas são a do diretor Ziembinski, de 1950; a de Augusto Boal, de 1965; e a de Kiko Jaess, dez anos depois – com a atriz Eva Wilma no papel de Blanche. O texto rendeu a Tennessee Williams os prêmios Pulitzer e Critics Awards, e foi levado ao cinema por Elia Kazan, também diretor da primeira montagem no teatro. O filme de 1951, que saiu no Brasil como “Uma Rua Chamada Pecado”, também se tornou um clássico, oferecendo belas interpretações de Vivien Leigh e Marlon Brando.

    Já “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller, traz a história de um homem comum, Willy Loman, um pai de família obcecado por sucesso e prestígio, por meio de quem o autor questiona o chamado “sonho americano”: a receita que, lá, muitos homens de classe média seguem para “vencer na vida”. “A Morte do Caixeiro Viajante” foi o primeiro texto escrito para o teatro contemplado com o Pulitzer. É uma daquelas obras que lemos em poucas horas, pela sofisticação da escrita e pelo tom contestador e crítico, característico de Miller, também autor de “As Bruxas de Salém”.

    Este volume, porém, que tanta satisfação me deu, voltará ao seu dono. Eu, por minha vez, fico me perguntando: onde estará meu exemplar de “A Metamorfose”, de Franz Kafka? Quem levou, mesmo, meus 23 livros de quadrinhos das aventuras dos gauleses Asterix & Obelix, que ganhei quando ainda era menino? E por onde anda minha edição do clássico “A Peste”, de Albert Camus? Sei que tal novela confirmou a vocação para a medicina de um amigo, e que meu “A Morte de Ivan Ilitch”, do russo Leon Tolstoi, foi levado pela maior bailarina de Flamenco que já vi – cinco meses antes de ela partir desta vida.

    Estes livros devem estar circulando por aí. Sinceramente, não acredito que voltarei a vê-los em minha casa. Mas, pelo menos, estão sendo lidos. Que bom.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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