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    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    Português (politicamente) correto?
    26/02/2010


    (Imagem: Herbert Bender)



    Viver fazendo referências a Paulo Francis faz-me incomodar muita gente. Certa vez, um leitor, que não se identificava no email, mandou-me texto espinafrando-o, com a mesma deselegância pela qual o autor dos “Diários da Corte” deixava-se tomar em dados momentos (uma conduta justifica a outra?). Talvez achasse o anônimo que, por salientar as qualidades de Francis como jornalista e intelectual, eu não conhecesse seus defeitos. Mas admiro Francis pelas razões certas. Ele transmitia sua grande bagagem cultural por meio de uma redação coloquial e solta, acessível a todos, e exprimia suas opiniões de modo contundente e irônico, afiado, sem medo de dizer o que pensava – atitude rara nesse cordial Brasil, em que o consenso é mais valorizado do que o dissenso. Francis, morto em 1997, tinha, além disso, a capacidade (e a coragem) de, feito seus amigos e também mestres do jornalismo cultural Daniel Piza, Ruy Castro e Millôr Fernandes, ir de encontro ao que, nas últimas décadas, se convencionou chamar de “politicamente correto”: aquele amontoado de clichês vindos do feminismo, do marxismo, do cristianismo e de outros “ismos” que as universidades americanas, à medida que a Guerra Fria terminava e as ‘grandes’ ideologias políticas caíam de podres, trataram de exportar ao mundo como um conjunto de posturas ‘apropriadas’ em relação a minorias. Tal “onda”, você já sabe, nos brinda até hoje com eufemismos hipócritas do tipo “afro-americanos”, para se referir a negros; “moradores em situação de rua”, para mendigos; “creche geriátrica”, para asilo de idosos; “gênero” feminino, no lugar de “sexo” feminino, etc. etc. Igualmente, trouxe para as rodas de discussão ideias (sem acento agudo, mesmo) com as quais todos já nos deparamos um dia: “homem deve, e tem aptidão inata a, fazer absolutamente tudo o que a mulher faz no cuidado com os filhos: ninar, dar mamadeira, escolher a roupinha, etc.”, ou “fazer piada com gays, mulheres e pobres é falta de respeito”, ou “toda idade tem sua beleza”, ou ainda “não fale mal do Big Brother, do Diário Gaúcho e de música popneja ou funk carioca: o povo gosta, e daí?”. É tudo, como bem humoradamente constatou o site inglês Butterflies and Wheels, uma imensidão de bobagens, que, a despeito da boa intenção inicial, mais cerceiam e fossilizam as questões do que contribuem para que evoluam através de um verdadeiro debate de idéias. E Francis era por tantos odiado em grande parte devido a isso, porque, embora com aquele seu estilo sem meios-tons, desconfiava da “onda” e não se deixava conduzir por ela. Frases suas quais “É preciso ter mingau na cabeça para acreditar em astrologia” ou “Quando ouço falar em ecologia, saco logo meu talão de cheques” despertavam a fúria da tropa dos politicamente corretos. A mesma que, aqui no Brasil, possui como um de seus mais eloquentes chavões o de que “não se pode criticar alguém por não falar ou escrever bem o Português”. Pois é a tal pensamento que quero, em especial, me remeter – depois deste longo, mas necessário, parágrafo inicial.

    Quero discutir essa noção porque, atualmente, a língua portuguesa está, “nessepaís”, tão maltratada quanto a paciência de quem acompanha política. Por todo canto, encontra-se gente que comete erros de concordância (“A maioria das pessoas não estão...”), que conjuga mal um verbo (“O que tu dissesse mesmo?”), que pronuncia mal ou incorretamente palavras (“A situação era tão rúim, que entrei em disispero – ou seje, fiquei muito aflito”). Fora quem esquece que existe algo chamado “plural” (“Já arrumei as cadeira”) ou se entrega ao gerundismo (“Vou estar passando sua ligação...”) e a modismos (“Na real, o que ele afirmou foi...”). Fazer rodeios com o sujeito da ação, na linha “O Papa Bento 16, ele fez um apelo para que o mundo ajudasse o Haiti...”, quando se poderia dizer diretamente “O Papa Bento 16 fez um apelo...” é outra mania irritante, verificada hoje. E há mais itens na lista de vícios de linguagem e de atentados ao idioma: “Estou meia nervosa” (está nervosa da cintura para cima? No sentido de “um pouco”, o certo é “meio”), “A tarefa é para mim fazer” (mim conjuga verbo? Só para índios: “mim querer”, “mim fazer”... o correto é “para eu fazer”), “Há dez anos atrás” (redundância. O “há” já indica que o tempo passou, que está ‘atrás’), “A cada dia que passa” (também redundante. Todo dia passa), “Vou no supermercado” (a regência do verbo “ir” pede a preposição “para” ou “a”), “Antes de mais nada, queria dizer...” (entende-se que a pessoa vai parar de falar em vez de começar, porque depois do que disser virá “mais nada”). Poderia citar outros tantos.

    Mas onde entra o politicamente correto nessa questão? Onde houver alguém que ouse reclamar.

    Queixar-se de quem comete erros de português, para os adeptos brasileiros do politicamente correto, denota, além de “preconceito”, ainda “elitismo” – é o retalho marxista do pacote definido no início desse texto. Seria, conforme tal ótica, uma aversão às classes “menos favorecidas”, aos “excluídos”, que “se comunicam do jeito que podem”. Ora, isso é uma enorme besteira. Em primeiro lugar, o fato de alguém defender o vernáculo não quer dizer que esse alguém odeia as classes C, D e E. Em segundo, falar e escrever direito não é exclusividade de quem é rico e tem diploma de curso superior. Já ouvi pobre falando sem comer nenhum “s” no final de palavras no plural, assim como já ouvi rico usando o pronome relativo “onde”, que só indica lugares, em referências de tempo, como em “o ano onde meu filho nasceu” (para tratar de tempo, o correto é “em que”, “no qual”, “quando”). Que certos indivíduos nem saibam o que é língua portuguesa porque realmente nunca tiveram oportunidade de estudar é perfeitamente compreensível. A discussão sobre correção linguística nem chega a esse grupo. O que não parece razoável é que pessoas que passaram por uma escola e têm televisão, aparelho de som e computador em casa não apresentem o menor cuidado no trato com o idioma, nem se importem com isso. E achar que corrigir o português dessas pessoas é humilhá-las, menosprezá-las, em vez do contrário, também não é razoável. Esta é outra bobagem politicamente correta. Eu já pedi a próximos que atentassem para determinados erros que cometiam ao falar, e hoje eles não os cometem mais. Corrigir também é educar, e quem tem maturidade sabe que não há nada de humilhante nessa atitude. Pelo contrário: chama-se a atenção para um erro que uma pessoa comete porque se sabe que ela pode melhorar.

    Igualmente bobo, e politicamente correto, é encarar a defesa da leitura como “elitismo cultural”, como – outra vez – “preconceito” em relação a quem não toca em livros. Desculpem-me, mas esse argumento é que soa preconceituoso, porque pressupõe que apenas gente com dinheiro para gastar na livraria teria hábito de ler... A quem vem com essa lengalenga para cima de mim, sempre conto uma singela e breve história: tempos atrás, no interior do estado, conheci uma senhora que, todo mês, retirava um livro na biblioteca pública da cidade para ler. Dizia adorar Erico Verissimo. Sua profissão? Empregada doméstica. Formação? Ensino fundamental. Que mulher “elitista”, não?...

    Já houve quem me dissesse: “Lucas, você não pode reclamar do português dos outros e exigir que todos tenham a mesma relação com o idioma que você, jornalista cultural, tem”. Mas eu não estou exigindo que tenham. Desejar ver a língua portuguesa adequadamente empregada não significa que, para mim, todos precisam ser Machado, Euclides, Lima, Pessoa ou Eça (mas como é bom ler esses caras...). Só não vejo incompatibilidade entre usar, no cotidiano, uma linguagem acessível, simples, e, ao mesmo tempo, zelar pela sua correção e clareza. Assim é bem mais agradável, para todos. Basta um pouco de boa vontade. E o vernáculo, já tão bem tratado por sujeitos como os citados acima, agradece por não apanhar.

    Ninguém é aprovado em entrevista de emprego se não falar com correção. Ninguém passa no vestibular, ou em algo tão apreciado aqui em Pindorama, o concurso público, se não conhecer, pelo menos, normas básicas da língua. Ao defender tolerância extrema com os socos no idioma, o politicamente correto, sem querer, acaba contribuindo para o que tanto procura combater, pois, cometendo erros de português, aí sim que o indivíduo corre riscos de “exclusão social”... É preciso cuidar da língua, sim. Sem paranoia, sem purismos, sem exageros (falar “chegar em” em vez de “chegar a”, por exemplo, não é tão horrível assim), mas cuidar. Se não existir um mínimo de regras, emerge o caos. E esse não é um “argumento opressor”, não. Para lembrar novamente o mestre Millôr, ele já afirmou que “Se não houver norma não há como transgredir. A língua tem variantes, mas temos de ensinar a escrever o padrão”. Não ver problema em falar ou escrever erroneamente é fazer o elogio da ignorância. Língua também traz cultura e história em si. Não é só uma simples ferramenta de comunicação, que pode ser utilizada de qualquer maneira, sem que ninguém proteste. Pensar desse jeito é empobrecê-la. Assim como empobrece o pensamento rezar pela cartilha do politicamente correto. O Francis, se vivo estivesse, faria um sonoro pfui para essa turma...


    lucas.colombo@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Caro Lucas, o teu alerta é corajoso e provavelmente rende(rá) muita controvérsia. Eu mesmo não concordo ou tornaria discutíveis muitos dos teus argumentos, mas me parece que é justo esse o sentido da coisa, trazer o debate à tona. De minha parte, vou dar uma cuidada no meu português, a língua define a identidade e é a matriz da cultura. O descuido na língua é uma radiografia da nossa identidade e da nossa cultura. E ainda me pergunto: o que pode haver de profundamente interessante e particular também nesse descuido que nos caracteriza? Um abraço! Muriel Paraboni

    Sugiro a leitura do livro de Marcos Bagno, Preconceito Linguístico - O que é, como se faz. Gostei de seus textos, mas neste achei que você pisou na bola. Faltou fundamento. Fernanda Vier

    Fernanda, obrigado pela leitura. Mas seria bom se você apontasse quais “fundamentos” faltaram. Seu comentário, sinceramente, não diz muita coisa. Trabalho duro aqui, penso que eu mereceria pelo menos umas observações mais claras... Lucas Colombo

    Oi Lucas. Escrevi em meu blog um post em que falo, de certa forma, sobre isso. Se te interessar, leia em http://fernandavier.blogspot.com/2009/12/o-portugues-que-eu-conheci.html. Em todo o caso, acho que tu confundiu (confundiste?) um pouco a língua falada da língua escrita e ignorou (ignoraste?) as variações linguísticas que existem em todas as línguas do mundo. Por isso a sugestão da leitura do livro do Bagno. É esclarecedora. Porque é fácil ser preconceituoso, especialmente nós, os letrados, estudados, pós-graduados. Há pouco tempo eu teria concordado com tudo o que tu escreveu. Hoje, depois de estudar um pouco (não sou nenhuma especialista, apenas curiosa e interessada no tema), vi que minha visão era bastante conservadora, limitada e preconceituosa. Como acho que é a tua. Mas enfim, são só opiniões. Segue aí no teu trabalho duro que tá bem legal. Abraço! Fernanda Vier

    Para quem levanta a voz contra bordões e lugares-comuns, dizer que "mim fazer" é "só para índios" é, no mínimo, incoerente. De onde você tirou isso, seriado do Tarzan da década de 50? Você já escutou algum índio (ou melhor, aborígene/autóctone brasileiro) dizer isso? E se ele te forçar a falar tucano ou nhengatu, debaixo de pancada, e depois rir da sua cara enquanto você fala "tudo errado"? Faço coro com a Fernanda: a leitura de "Preconceito linguístico" te faria muito bem. Thiago

    Fernanda: não preciso citar um "especialista" para me valer de um argumento de autoridade. Mas veja: sua reação à minha opinião só tem adjetivos. Você diz que ela é "conservadora, limitada e preconceituosa", sem explicar por quê. Chamar de "preconceituoso" é fácil, é clichê brasileiro. Já percebeu que toda contestação ao senso comum, aqui no país, é considerada "preconceituosa"? E "conservador" não é quem gosta do status quo? Pois a tradição brasileira é justamente a da complacência com erros...
    Mas não escrevi que não há diferença entre língua falada e língua escrita. Escrevi que não vejo incompatibilidade entre falar, no cotidiano, de modo simples e, ao mesmo tempo, zelar pela correção e clareza da linguagem. É possível falar com correção e sem afetação (usar mesóclises, por exemplo, é um exagero). Uma coisa é inovar a linguagem, outra é cometer erros puros e simples. Falar "menas" ou "pra mim fazer" não é bancar o Guimarães Rosa... E não vejo nossos comentários como "só opiniões", não. Opinião também existe para ser discutida.
    Thiago: e eu faço coro a favor da ironia, do bom humor e de entender piadas. E contra ataques pessoais. (Ufa, é hoje!...)
    Lucas Colombo

    O problema é que o Português é uma língua complexa, mesmo. Se fôssemos analisar à fria luz da Gramática, encontraríamos erros (perdoáveis, claro) inclusive no teu texto, Lucas. Rigorosamente falando, são raros os que escrevem 100% certo – e talvez aí esteja uma razão para a indignação do teu povo-leitor.
    Mas eu concordo com a essência do texto – isto é, a de que muita gente comete não esses erros miúdos, mas sim erros bisonhos, que se tornam ainda mais bisonhos quando cometidos por pessoas pretensamente cultas, que ocupam posições de liderança e são, portanto, exemplos involuntários para que os lê.
    O resumo da coisa é que a nossa língua é mal tratada, sim. Concordo. E também concordo que isso não tem muita relação com a classe social do "infrator", não. Ao contrário: é comum vermos esses erros também entre o pessoal "daselite".
    Não são poucos os advogados, engenheiros, jornalistas e outros profissionais – teoricamente cultos – que despejam "irônias" por aí, ou que pregam "taubas", dizem que "tenque fazer", etc. E o "piór" é que muitos nem se "encomodam" com isso.
    Mas também é verdade que muitos erros acabam sendo incorporados à língua culta e, com o tempo, começam a passar lotados até pelos olhares mais atentos. O que não pode é ver esses erros como o resultado de uma incapacidade mental ou de uma simples condição social. Na maior parte das vezes, o caso é bem menos simples do que parece.
    Abraço e parabéns pelo trabalho que vens fazendo aqui no Mínimo Múltiplo.
    Andreas Müller

    Caro Andreas, realmente "erros" já foram assimilados (o substantivo "janta", por exemplo, não era bem visto tempos atrás, e hoje está dicionarizado) e sei que eu também não falo ou escrevo 100% certo, nem desejo isso. Assim como sou contra "avacalhação" com a língua, sou contra purismos. Numa roda de amigos, eu não falo "poder-se-ia dizer que...", mas também não falo "a bebida está meia gelada" ou "Vou na padaria comprar mais salgadinhos". Eu, porém, não defendi no texto que as pessoas escrevam 100% - inclusive, já houve vez em que questionei a atitude de um profissional que parecia membro da ABL: escrevia ABSOLUTAMENTE correto, não podia ver advérbio deslocado sem vírgulas... O que fiz foi protestar contra a avacalhação e pedir um pouco mais de cuidado, não de paranoia.
    E, de fato, a língua é maltratada por gente de todas as classes. Meu principal objetivo com a coluna foi desconfiar do politicamente correto que considera "elitismo" a defesa do falar e escrever bem. Ricos e poderosos, como bem lembramos, igualmente cometem erros primários. Achar que só pobres falam errado é que é "preconceituoso"... As questões, conforme indicaste, são sempre mais complexas do que parecem.
    Por fim, tens total razão: como escrevi, o pior de tudo é passar a mão na cabeça, não se "encomodar". Obrigado pela leitura e pelo elegante comentário. Sabes que também gosto muito do teu trabalho.
    Lucas Colombo

    Lucas, não sei se entendi, tu criticou o fato de eu ter citado o livro do Marcos Bagno para defender meu ponto de vista? Nossa... se for isso, sinto muito, mas eu costumo, muitas vezes, fundamentar minhas opiniões em autoridades e estudiosos nos assuntos, especialmente quando eu não domino tal assunto. Essa é uma das maneiras como eu formo opinião sobre as coisas, as mais diversas, e que me dão condições de concordar ou discordar, de debater, enfim. Tu, não? Sobre língua falada X escrita, tu realmente não falou, eu que identifiquei a mistura que tu fez das coisas, provavelmente sem se dar conta. Vou explicar: tu confundiu a norma padrão da língua com a língua em si. Veja: uma receita de bolo não é o bolo, certo? Pois a gramática também não é a língua. A chamada norma padrão (talvez tu não saiba, mas é a ela que tu alude em teu texto) é uma tentativa de normatizar, de descrever a língua, mas a língua pertence aos falantes, e não às gramáticas ou aos gramáticos. A língua falada, tu deves saber, veio bem antes do código e das normas. E mesmo tu, eu e todo mundo aprendemos a falar antes de aprendermos a escrever, veja só! Não sabíamos regência, sintaxe, nada disso, mas já nos comunicávamos perfeitamente! A questão é que a norma padrão não considera algo intrínseco em todas as línguas do mundo: o fato de que a língua é um fenômeno social, e por isso, complexo – por isso considero teu texto leviano, por não levar em conta de que o furo é bem mais embaixo. Continuando, existe uma ciência chamada sociolinguística, que entende, entre outras coisas, que as variações do modo de falar dos diferentes grupos sociais fazem parte da cultura desses grupos. A língua não é estanque, não existe apenas uma maneira - a correta, a padrão - de dizer as coisas, mas sim várias, vide as enormes diferenças entre gaúchos, cariocas e nordestinos para se referir às mesmas coisas. Alguns exemplos que aparecem no teu texto refletem bem isso. Aquele velho comentário do gaúcho que volta de suas férias no nordeste dizendo que "aquele povo não fala português" - tu já deve ter ouvido ou quem sabe até falado isso - é um ótimo exemplo. A pessoa talvez nem saiba, mas está sendo preconceituosa, da mesma maneira que um nordestino seria se fizesse comentário semelhante ao nosso jeito de falar. Porque tudo é língua portuguesa, mas a língua é assim, tem inúmeras faces, e nenhuma é melhor ou pior do que a outra. Há que se ter noção de que existe, sim, o contexto, nós nos adequamos às diferentes situações e interlocutores para sermos mais bem compreendidos, e isso equivale afirmar que não há problema nenhum em dizer que “eu vou no supermercado” ou “na padaria” se o contexto não me exige o uso da regência padrão, pois essa regência é perfeitamente aceita pela língua culta. Hum, agora você deve estar pensando, como assim? Pois é, existe diferença entre língua padrão e língua culta. Mas acho que já escrevi demais. O assunto é extenso e complexo, impossível de resumi-lo num comentário de blog, e também num post inteiro, que foi o que tu tentou fazer, de forma infeliz, na minha maneira de ver, e na de alguns estudiosos de quem me vali para formar essa opinião. Fernanda Vier

    Rápido e direto:
    1. Não, não critiquei a citação. Apenas disse que não é necessário citarmos acadêmicos para dar um verniz de autoridade a um argumento. É aquela coisa: "eu tenho razão, porque o doutor em Linguística Marcos Bagno pensa o mesmo que eu"... Nada mais senso comum brasileiro do que isso: pensar que, só porque a pessoa tem diploma e lançou um livro sobre o tema, tem de ser ouvido e enaltecido.
    2. De fato, uma receita de bolo não é o bolo, mas se torna um. Se não fosse a receita, o bolo nao existiria. E, se não contarmos com certos ingredientes fundamentais, não sai bolo. Sai uma maçaroca.
    3. Não é preciso tentar me desqualificar com ataques pessoais ("talvez você nao saiba") ou sugerindo atitudes minhas ("tu já deve ter ouvido ou quem sabe até falado isso"). Não nos conhecemos pessoalmente, até onde sei.
    4. Em momento algum do texto afirmei que a língua é "estanque" ou que existe apenas uma maneira de falar. Aliás, o comentário do Millôr reproduzido no último parágrafo comprova isso. Leia outra vez.
    5. Que o furo é bem mais embaixo, é tudo o que tentei dizer com esse texto.
    6. Sugiro que você pergunte às pessoas "por aí", de todas as faixas de renda, se elas consideram importante falar bem e corretamente, ou se acham "bonito" falar errado. Só acadêmicos de Letras dirão achar bacana ouvir um "seje".
    7. Te pergunto: você falaria de qualquer jeito numa entrevista de emprego, por exemplo? Acredito que não, pois, como frisou, existem contextos e contextos. Então, pensemos no caso oposto: quando eu estiver em presença de pessoas que cometem erros ao falar, preciso cometer erros também, porque o contexto é outro? Que paternalismo. Não deixa de ser a mesma linha de raciocínio seguida por políticos corruptos: "se todos roubam, qual é o problema de roubar também? O meio me levou a fazer isso..."
    8. Também pergunto: se você defende tanto assim que as normas sejam "deixadas pra lá", por que tem escrito seus comentários de modo gramaticalmente correto? Seria o "contexto", ou aquele verso do Cazuza: "tuas ideias não correspondem aos fatos..."?
    Lucas Colombo

    Volto aqui motivado pela leitura deste comentário do editor da L&PM, Ivan Pinheiro Machado (que certamente contribui mais para a cultura brasileira do que Marcos Bagno): http://www.lpm-editores.com.br/blog/?p=934.
    Gostaria, depois desse tempo, apenas de repetir o que argumentei no texto: não podemos ficar só no cada um por si, cada um do seu jeito. Regra existe para impedir isso; uma lei, por exemplo, é um acordo que mantém a sociedade funcionando. Se eliminarmos todas as normas, vira um caos. Foi para esse preceito simples que chamei a atenção, no texto. Only.
    E é claro que o linguajar depende da situação, como tudo. Não se toma banho de piscina de smoking. Mas o bom senso também recomenda que não se use sunga ou biquini desbotados ou rotos. Só ressalto, porém, que não foi a adequação de linguagem que pus em questão no texto. Foram os erros primários que ouvimos nos mais diversos contextos e das mais diversas bocas. Torno a repetir: não é porque se está numa mesa de bar que falar "menas" é justificável.
    João Ubaldo, outro sujeito de importância muito maior que Bagno, escreveu recentemente no Estadão: "Tudo bem, a língua é viva e não para de mudar. Mas não se pode deixar que ela corra solta, a norma culta é indispensável para a sobrevivência da língua como instrumento de comunicação científica e artística."
    Ainda, para perceber que muita gente acha importante falar e escrever corretamente, cito algumas "entradas" de leitores no Mínimo Múltiplo, via Google, nas últimas semanas: "como faço para parar de falar errado"; "como combater o modo de falar errado"; "para falar em tempo o correto é a mais ou há mais?"; "é certo falar para mim ver?". Pesquisaram isso e foram conduzidos a esta minha coluna.
    Igualmente, e por fim, repito: não quero que escrevam como os grandes escritores ou que não cometam infração alguma. Apenas defendo mais atenção às regras do idioma. A elegância, esta desconhecida por tantos, sai ganhando.
    Lucas Colombo