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    Ele é Carioca - Ruy Castro
    Moziel T.Monk*
    11/12/2009




    Antes de tudo, uma rápida correção: na verdade, Ruy Castro é mineiro de nascença, mais especificamente de Caratinga. Mas se tornou tão ou mais carioca quanto qualquer um nascido no Rio de Janeiro, tanto que recebeu o título de cidadão benemérito da Cidade Maravilhosa. Isso, para mim, já é suficiente para justificar o título deste texto, uma óbvia alusão ao nome de uma famosa música da bossa nova (a qual também empresta seu título a um dos livros de Ruy). Além do que, certamente, com seus livros e atuação na imprensa, Ruy já fez mais em prol da imagem carioca do que qualquer governante ou burocrata nas últimas décadas, e, apesar de Garotinhos, Rosinhas e Maias, para ele o Rio continua lindo. Pode-se considerá-lo o mais carioca dos escritores mineiros, e olha que não falta séria concorrência nessa área: Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos... Ruy, porém, conta com a nítida vantagem de ainda estar vivo.

    Meu primeiro contato com o jornalista e escritor foi justamente em matérias de revistas como Set e Playboy, em que seus textos, cheios de informação e humor, se destacavam dos demais. Em uma dessas matérias na Set sobre críticos de cinema, aliás, saiu a informação de que ele nunca fora pegar o diploma de jornalista, um detalhe pitoresco e digno de se tornar lenda. Logo seu nome me chamaria a atenção e, onde quer que ele estivesse impresso, já era por mim considerado certificado de qualidade. Passei a conferir livros e antologias cujas organização e tradução ficaram a seu cargo, e, assim, em minha juventude fui apresentado às crônicas e contos de Woody Allen para a New Yorker em “Cuca Fundida”, aos escritos de H.L. Mencken em “O Livro dos Insultos” e aos bombons com fel das tiradas witty de “O Melhor do Mau Humor”, tudo por obra e graça de Ruy Castro. E daí para ler os livros de sua autoria foi um pulo, um vício saudável que mantenho até hoje.

    Mais uma breve retificação, antes de continuar: Ruy Castro não terminou o curso de jornalismo – na realidade, ele levou bomba, concluiu Ciências Sociais, mas de fato nunca quis saber de pegar o diploma. Mas diploma não lhe fez muita falta, não. Atuando na imprensa desde 1967, quando começou como um simples foca no Correio da Manhã, foi picado pela mosca das letras após Paulo Francis o chamar como colaborador fixo para o Correio e para a prestigiada, mas efêmera, revista Diners. A partir daí, é história, e nessas mais de quatro décadas ele já passou por diversos jornais e revistas, muitos já extintos, e conviveu com monstros das letras, como Francis. E foi “culpa” de Francis também o estilo de Ruy escrever, pois este costumava assinar apenas os artigos sérios e usar pseudônimos para os textos mais fanfarrões, até o dia em que o amigo perguntou o porquê, já que os textos de humor eram justamente os melhores. Então, em pouco tempo, os escritos “sérios” de Ruy foram perdendo a sisudez e se deixando contaminar pelo bom humor que, hoje, lhe é peculiar, “como um Dr. Jeckyl, quando passou a se transformar em Mr. Hyde mesmo sem beber a gororoba”, conforme diz em “O Leitor Apaixonado”, seu mais recente livro, num texto, inclusive, sobre Francis.

    E seu estilo é mesmo bem característico: sempre com uma alegoria ou metáfora inteligente e hilária para soltar no meio do texto, Ruy faz citações e referências sofisticadas sem soar afetado ou esnobe, enquanto nos fornece uma torrente de informações. Tudo sem que nos cansemos ou percebamos, de tão leve e agradável que se torna a leitura. É como ouvir uma boa história em uma mesa de bar enquanto bebericamos um chope estupidamente gelado. Ou, em suas palavras, quando se refere às crônicas, em sua coletânea “Ungáua!”: “A crônica, ainda mais quando praticada por cariocas, é o feudo da conversa fiada e nela, todo assunto é válido, desde que irrelevante”.

    O grande público, contudo, conhece mais Ruy Castro por suas ótimas biografias. No início dos anos 1990, lançou “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova”, conseguindo a proeza de ressuscitar o interesse pela então combalida e esquecida bossa nova, a deliciosa e sofisticada mistura de samba e jazz que embalou os jovens cariocas no final dos anos 1950. Com o livro, trouxe à tona a história dos precursores e protagonistas daqueles anos dourados da música brasileira. Pouco depois, escreveu “O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues”, com que mostrou que a trajetória do maior dramaturgo brasileiro foi tão ou mais emocionante e trágica quanto sua obra. Ruy alcançou, com essa biografia do “reacionário”, o mesmo feito obtido com a bossa nova, ao despertar no público da nova geração o interesse por Nelson. Além da biografia, também foi responsável por organizar e relançar a igualmente muito boa produção literária do autor, como os contos de “A vida como ela é...”.

    Antes de se dedicar inteiramente a um único biografado, Ruy presenteou o público com “Saudades do século 20”, declaração de amor (e de profundo conhecimento) à cultura americana dos anos 1920 aos 1960, em que aborda de forma breve a biografia de 13 personalidades da música, literatura e cinema americanos daquele período.

    Na área de biografias, Ruy ainda reconstituiria a trajetória do jogador Garrincha e da “pequena notável” Carmen Miranda. Mas ambos foram um parto para o autor, por motivos diversos. No caso de “Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha”, de 1995, a editora Companhia das Letras enfrentou um processo movido pelas filhas do jogador, menos por se sentirem ofendidas do que por oportunismo financeiro de algum advogado, mal que assolou Garrincha até depois de morto. O processo proibiu o livro de circular por um bom tempo, até a editora e as filhas chegarem a um acordo financeiro. Por esse episódio, Ruy nunca perde oportunidade de, em diversos artigos, demonstrar sua insatisfação e repúdio perante a sanha monetária de descendentes de mortos famosos.

    Carmen – Uma Biografia” igualmente demorou para sair. Uns dez anos, por sinal. Foi lançado em 2005, e, nas dedicatórias, havia uma em especial para alguns médicos, sem os quais aquele livro não seria possível. Isso se explica pelo fato de Ruy ter diagnosticado um câncer na garganta enquanto elaborava a biografia, e durante sua conclusão, ter passado por um severo tratamento. Como um de seus ídolos no cinema, Humphrey Bogart, que teve câncer no esôfago, Ruy não se entregou à doença. Além de sua persistência e dedicação ao trabalho, porém, tinha décadas de avanços na medicina a seu favor, o que lhe permitiu sobreviver ao câncer e ao tratamento e finalizar o livro. “Carmen salvou minha vida”, costuma afirmar.

    Célebre por suas biografias, Ruy é prolixo o bastante para não se resumir a elas, mesmo porque sempre jura nunca retornar a uma enquanto conclui outra. Escreveu romances, como “Bilac vê estrelas” e “Era no Tempo do Rei”, mas seus textos são, na maioria, dedicados às suas paixões: música, literatura, cinema. E futebol, obviamente. Muitos de seus artigos para jornais e revistas já foram reunidos em antologias. Sobre MPB e bossa nova, temos “A Onda que se Ergueu no Mar”, meio que um complemento ao “Chega de Saudade”. Sobre música, principalmente americana, “Tempestade de Ritmos”. Cinema? “Um Filme é Para Sempre”. Faltou literatura? Não mais: “O Leitor Apaixonado” está aí nas livrarias. Ainda temos Ipanema em “Ela é Carioca”. E o futebol, além de “Estrela Solitária”, está nas páginas de “Flamengo – O Vermelho e o Negro”. Acha pouco ainda? Procure em jornais como a Folha de São Paulo ou revistas como a Brasileiros, e você terá uma boa chance de encontrar algum texto de autoria de Ruy, desde uma breve crônica até uma extensa matéria sobre alguns de seus temas preferidos.

    Enquanto esperamos o que Ruy Castro ainda aprontará, sugiro aos leitores irem tomando intimidade com seu trabalho por meio de suas crônicas disponíveis na internet. Em algumas, quase dá pra sentir a maresia de Ipanema. Basta o jeitinho de ele andar – ou escrever.


    * Moziel T.Monk é autor do Blodega.


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