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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Fast food cultural
    18/12/2009


    Filme "Crepúsculo" e videoinstalação "Variações sobre
    o Santo Job", exposta na 7ª Bienal do Mercosul


    Então é isso. A ‘onda’, a ‘febre’ do momento é um filme romântico de vampiros adolescentes chamado “Lua Nova”, o segundo de uma série iniciada com “Crepúsculo”. O longa, lançado com pompa na maioria das salas de cinema do Brasil, é uma adaptação do livro da escritora americana Stephenie Meyer, há tempos na lista dos mais vendidos ao lado dos outros dois da série, “Eclipse” e “Amanhecer”. Nas salas de cinema, formam-se filas enormes para assistir à história da garotada vampiresca.

    Na verdade, isto não mais me espanta. Recentemente também se tornou fenômeno de bilheteria a história de um cachorro inserido na maçante vida de uma típica família dos Estados Unidos, “Marley e Eu”. Fui conferir o filme – igualmente uma adaptação, do best-seller do jornalista John Grogan – e, constatando como era fraco e previsível, me indaguei por que ele conseguia extrair lágrimas da plateia. Não via nada de intrigante na tela, não era mais do que uma historiazinha inspirada numa outra, a da cachorra Lessie (sucesso dos anos 1940 a 1980), mas as pessoas ao meu lado fungaram praticamente durante o filme todo. Tentei entender a cabeça dos seres humanos naquela sala. O que levaria a tamanha emoção? Seria somente o triste destino do cãozinho? Ou quem sabe todos estavam vislumbrando ali suas próprias vidas pacatas, estavam “projetando” suas frustrações nos personagens? Eu, que pouco entendo de psicologia, detive minhas especulações e achei melhor apenas continuar observando aqueles comportamentos.

    Mas o fato é que, atualmente, as pessoas parecem combinar seus gostos culturais. Desfrutam da mesma forma – e entendem da mesma maneira – livros, filmes e músicas. Empurram-se para ver filmes hollywoodianos com repetitivos roteiros e cheios de efeitos especiais, devoram livros sobre teses mirabolantes “contidas” na bíblia e mergulham em sagas de vampiros, feiticeiros e alquimistas. “Harry Potter” e “O Código da Vinci” viraram acontecimentos no mundo inteiro – as aventuras do pequeno bruxo arrebataram jovens de todas as classes, e o autor Dan Brown, de “O Código...”, se tornou um revelador de mistérios do novo testamento, sem nunca ter querido ser. As músicas, por sua vez, não precisam mais, necessariamente, ter uma melodia ou uma letra inteligente: faça apenas uma batida eletrônica eficiente, um refrão cujos versos tenham rimas fáceis e pronto, você vira um novo ídolo musical. Será que perdemos o senso crítico, ou nunca o tivemos?

    Existe hoje uma necessidade de prazer prático e imediato. É escassa a atenção para a cultura de reflexão, para a arte que incite o pensamento. Basta uma produção artística mais complexa, que exija reflexão e apreciação calma do público, para que este se assuste e reclame. Um exemplo é essa grande discussão desenvolvida na mídia de Porto Alegre, nos últimos meses, sobre a validade da arte contemporânea, para dentro da qual a 7ª Bienal do Mercosul acabou sendo empurrada – o “desabafo” de Voltaire Schilling, que despertou a polêmica, foi publicado antes da abertura das mostras. Tal tipo de reação irada a formas não-convencionais de arte, como a de Schilling, porém, não é novo. Nos seus primórdios, a arte moderna também obteve pouca aceitação e foi alvo de muita crítica descabida. Quando não se compreende uma obra artística, é mais fácil refutá-la e xingar quem a criou. Mas não é apropriado fazer isso. Descartar terminantemente um determinado tipo de arte não é uma atitude que podemos chamar de inteligente. Não sem ao menos conhecê-lo primeiro.

    E esse é o problema. Saber criticar adequadamente uma forma de arte é uma questão de ter conhecimento e contato com essa arte. As obras expostas em bienais, embora pareçam complexas, têm sentido e objetivos; o intuito dos artistas que as produziram é despertar o espírito crítico do público e sempre comunicar um pensamento. É importante, sim, que a arte seja entendida e estudada. Deve-se ter um mínimo de contato e de conhecimento prévio sobre a história do autor e o que ele pretende expressar com seu trabalho. E talvez seja por isso que tanta gente execra arte contemporânea – porque nem ao menos sabe como é ou o que pretende.

    Claro que nem tudo que se apresenta como arte contemporânea é imune a críticas. Existem boas e más produções, como em qualquer tipo de criação (o Lucas também comentou isso aqui, no blog). O poeta e crítico Ferreira Gullar constantemente repreende e contesta instalações ou trabalhos de vídeo-arte, os quais, segundo ele, não passam de meros filmes sem coesão. Mas está fazendo o papel dele, como crítico. Gullar pelo menos acompanha o tema e pensa a respeito. A proposta da arte contemporânea, como a de qualquer época, é justamente incitar as pessoas a ver, ouvir e pensar, o que, nessa sociedade que exige soluções prontas, pode ser mesmo algo de grande dificuldade. Se as obras contemporâneas são consideradas “abomináveis”, será que não é o reflexo deste momento, em que só é dado valor a coisas “fáceis”, de consumo rápido, tal qual os livros de Stephenie Meyer e os filmes baseados neles?

    O fast food cultural pode até matar a fome rapidamente, mas não traz benefícios para a saúde – ou melhor, para o intelecto – em longo prazo. Ficarmos todos consumindo e pensando as mesmas coisas é o verdadeiro crepúsculo.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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