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    Vasto Mundo

    Viagem ao interior da China - final
    Márcia Schmaltz*, de Pequim
    07/08/2008


    A China tem muitos encantos. Viajar pelo seu interior é percorrer caminhos da humanidade e deparar-se com tradições milenares. Desafios de reconhecimento e, às vezes, de estranhamento. É uma viagem inesquecível, em que se faz um mergulho em outro paradigma.

    Este segundo ‘percurso’ da viagem inicia em Dengfeng, a uns 80 Km de distância de Kaifeng, cidade em que foi visitado o parque Songdu Yujie. Cerca de um terço da população de Dengfeng freqüenta escolas de artes marciais. Há uma grande quantidade de estrangeiros na cidade, que estão lá com o objetivo de aprender essa luta, de tradição milenar. Por todos os cantos, pode-se ver escolas, cursos e faculdades que ofertam aulas de artes marciais. Todo habitante de Dengfeng aprende, no ensino fundamental e no médio, a teoria e a prática destas técnicas, que não se constituem apenas em modalidades de luta, mas também em um tipo de metafilosofia zen.

    Templo Shaolin

    Nessa mesma cidade, fui visitar o Templo Shaolin. Este mosteiro budista foi fundado há quase 1500 anos, em 527, por um monge zen-budista indiano, chamado Bodhidharma. O Shaolin conta com séculos de tradição no fomento às artes marciais, visto que abrigou muitos praticantes desta técnica, provenientes das mais diversas regiões da China. No seu tempo áureo, chegaram a morar no Shaolin mais de dois mil monges. Atualmente, restaram apenas duas dezenas, que prestam assistência social a órfãos de até 18 anos. Esses jovens, se quiserem, poderão se tornar monges ou lutadores de artes marciais. O Shaolin é, hoje, um parque temático. Conta não só com o templo, mas também com um teatro para apresentações, floresta de pagodes e a montanha Song, com 1440 metros de altura. Nessa montanha, a atração é subir até o topo e visitar a caverna aonde o monge Bodhidharma retirou-se para meditar, com o objetivo de atingir o nirvana. Ele o atingiu de tal maneira que, em sua cabeça, um pássaro fez um ninho.

    O templo em si tem por volta de 300 metros quadrados. Em todos os cantos, vê-se “marcas” de artes marciais, como concavidades deixadas no piso de pedra pelos lutadores do passado e o moinho de soja de doufu “tofu”, que, ao invés de ser tocado por burros, o era pelos próprios discípulos, como um tipo de treino. E assim segue uma infinidade de coisas. O teatro do Shaolin oferece um show de meia-hora. É impressionante: o lutador repele duas lanças, seguradas por outros lutadores, apenas com sua “energia interna” - a chamada “qi”. Em outra apresentação, o lutador consegue furar um balão, através de um vidro de cinco milímetros, também com sua energia interna. Acredite se quiser!


    Apresentação no Templo Shaolin
    (Fotos: Márcia Schmaltz)


    Por fim, há a floresta de pagodes. São mais de 230 construções desse tipo, onde estão sepultadas as cinzas dos monges mais importantes do templo. Lá, é possível ver pagodes de todos os tamanhos e formatos, de acordo com a dinastia e a posição do monge, em termos hierárquicos. É muito imponente e bonito, principalmente ao pôr-do-sol.

    Cavernas Longmen

    Da cidade de Dengfeng, fui à antiga capital da China, Luoyang, no oeste da província de Henan. Neste local, estão situadas as belas Cavernas Longmen. Estas cavernas foram cavadas e esculpidas no período da Dinastia Tang, a partir do ano de 493. São 2345 cavernas, que abrigam mais de 100 mil budas de todos os tamanhos, ricamente esculpidos. As grutas distribuem-se em duas montanhas, uma em frente à outra, separadas por um rio. A montanha do leste chama-se Xiangshan, e a do oeste, Longmenshan. A maioria das cavernas foi construída durante o reinado do imperador Tang Gaozong e da imperatriz Wuzetian, a única da China. As grutas eram encomendadas pelo imperador, para demonstrar seu mérito e sua virtude.

    Inaugurada em 675, a caverna Fengxiansi é considerada, entre todas, a mais representativa. Contém a maior escultura do complexo: um Buda de 17 metros de altura, com dois discípulos, duas “pussas” (“pussa” é a única divindade feminina do Budismo; equivale à Nossa Senhora, na religião católica) e dois guerreiros, ao lado dele. A Fengxiansi apresenta riqueza de detalhes e simboliza todo o patrimônio material e espiritual acumulado pela Dinastia Tang. Enquanto as “pussas” e os guerreiros têm trajes ricamente adornados, nos mínimos detalhes, o buda e os seus discípulos vestem roupas simples, mas elegantes. Sugerem, assim, a simplicidade como padrão de beleza. Esta construção foi erguida com a doação da verba destinada à compra de cosméticos para a imperatriz Wuzetian. Por isso, dizem que o rosto do buda é semelhante ao dela.


    Estátua de Buda da caverna Fengxiansi, feita, supostamente,
    à semelhança da imperatriz Wuzetian


    A biografia desta figura emblemática e misteriosa que foi Wuzetian, inclusive, chega a arrepiar, tamanha a ferocidade das atitudes que ela tomava para atingir seus objetivos. Conto um episódio: quando Wuzetian tornou-se rainha, a antiga monarca e a consorte foram mandadas para o limbo. Uma noite, o imperador lembrou-se de suas antigas mulheres - afinal, já as conhecia havia dez anos - e decidiu visitá-las. Wuzetian tomou conhecimento desta ação do marido e, no segundo dia, aproveitando que ele fora trabalhar, foi até o limbo e mandou cortar os braços e as pernas das duas. Em seguida, atirou-as numa tina cheia de vinagre (inclusive, há uma expressão metafórica em chinês para ciúmes: “chicù” - tomar vinagre), para que elas se afogassem no seu próprio ciúme. O imperador, no entanto, chegou neste momento e, vendo tal cena, caiu doente, devido ao choque causado por tamanha crueldade da sua mulher.

    Wuzetian foi uma mulher fria, cruel e calculista. Suas ações foram motivadas pelo objetivo de ser imperatriz. Chegou a matar os filhos e a não deixar o imperador deitar-se com nenhuma concubina. Dispensou todas elas, com rica recompensa, para que não houvesse herdeiros a reclamar o trono. Apesar de sua personalidade sagaz, porém, tinha forte sensibilidade para a política e realizou um bom governo, seguindo os ditos confucianos, que recomendam austeridade e governar para o bem do povo. Na filosofia confuciana, contudo, a mulher não tem autonomia: quando criança, deve obedecer ao pai; quando casada, ao marido; e quando viúva, ao filho mais velho. Neste sentido, talvez, poderia se dizer, por caminhos sinuosos, que Wuzetian foi uma precursora da libertação feminina, por ter chegado ao poder e governado com mão-de-ferro.

    Após visitar as cavernas de Xiangshan e Longmenshan, ainda visitei o templo Xiangshan, o primeiro templo budista construído após a entrada do Budismo na China, na Dinastia Wei do norte. Conheci, ainda, a tumba de um dos maiores poetas chineses, Bai Juyi. Ele, na sua velhice, retirou-se a este lugar, onde recebia os amigos poetas e, olhando para as águas, escrevia poemas que satirizavam a corrupção na corte imperial.

    Ter realizado essa viagem ao que denominei de “núcleo-duro” chinês foi muito enriquecedor. Tive a oportunidade de conhecer outras histórias dessa nação formada por mais de 56 etnias. Nos locais que percorri - das margens do Rio Amarelo às margens do rio Yangtze -, está localizada, há mais de cinco mil anos, a etnia Han, que hoje constitui 93% da população chinesa. Ocorreram nesta região, ainda, várias disputas de poder e outros fatos históricos. Caminhar por estas terras fez-me, a todo instante, pensar: quantos pisaram este mesmo solo? Quanto sangue já não foi derramado por aqui? Olhando o mesmo rio para o qual outrora olhou o poeta Bai Juyi, sorri, abaixei meu olhar e pensei comigo mesma: “Poeta, se você estivesse aqui, hoje, o que escreveria sobre o seu país?”

    Em uma viagem à China, é claro que não se pode deixar de conhecer a Grande Muralha, a Cidade Proibida e os Guerreiros de terra-cota em Xi'an. É altamente recomendável, porém, fazer este roteiro pelo eixo Norte-Sul, entre o rio Amarelo e o Yangtze, para conhecer outros aspectos, igualmente interessantes, desse país milenar.


    * Márcia Schmaltz é professora da Universidade de Macau e responsável pela tradução do romance “Viver”, de Yu Hua, para o português.


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