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    Redemoinho
    by Flávio Aguilar, de Londres

    Racismo: teoria e prática
    27/10/2009


    Em Londres, cidade cosmopolita, multicultural, cabem todas as raças, credos e preconceitos. O negro aqui, porém, não sofre pior tratamento do que no Brasil. Aliás, as maiores demonstrações de racismo que presenciei ou das quais tomei conhecimento nos últimos meses vieram justamente de brasileiros.

    Miguel Schertel, atendente em uma das inúmeras filiais da Pizza Express espalhadas pela cidade, narrou recentemente as palavras amargas de uma garçonete brasileira com quem trabalha. Ela reclamava da “sacanagem” a que vinha sendo submetida pela recepcionista do estabelecimento, que, segundo a moça, tinha mania de levar famílias de negros para sua área na pizzaria:

    – Olha, não tenho nada contra essa gente, mas também não quero depender da gorjeta deles...

    Poucos dias antes eu havia visitado um flat – onde moram apenas brasileiros – em busca de novo quarto para alugar. Apos a tour rotineira pelo imóvel, ouvi do camarada que me atendeu as “vantagens” que ele identificava em morar naquele apartamento. Entre elas, uma peculiar:

    – Aqui você não vai ter que morar com qualquer um, morar com preto. O que às vezes acaba acontecendo por aí...

    Eu descobriria pouco tempo depois que essa preocupação não era exclusividade dele. Um pernambucano, negro, dormiu no meu flat – já habitado por dois gaúchos – por dois dias. Não foi necessário mais do que esse curto espaço de tempo para que eu ouvisse dezenas de piadinhas sobre ele e para que uma reclamação informal chegasse ao nosso landlord, feita por um dos colegas de quarto do rapaz, sobre o “tipo de gente” que ele estava colocando no flat.

    Os ingleses não são santos, claro. Mais de uma vez, em frente a pubs, escutei vindo de carros rápidos – e medrosos – ofensas racistas dirigidas a negros que estavam parados perto de mim. São genuinamente inglesas, também, as gangues juvenis que, com ação similar a dos “bondes” que proliferam nas grandes áreas urbanas do Brasil, fazem pequenos furtos, cometem vandalismos e, principalmente, espancam pessoas por motivos banais, ou por motivo nenhum. A diferença da versão britânica é a forte motivação racista na hora de escolher suas vitimas. Que o diga o segurança negro de um shopping center londrino, que, tentando impor respeito sobre quatro pirralhos que faziam baderna num Subway, foi brindado com uma imitação de macaco e muitas risadas. No entanto, o garoto responsável por essa cena vergonhosa deixou o shopping chorando, dentro de uma viatura de polícia.

    A diferença principal? Os negros que vivem na Inglaterra têm menos barreiras sociais e econômicas do que as enfrentadas pelos negros brasileiros. Assim, dá-se com rapidez a efetiva inclusão deles na sociedade, o que colabora em muito para que sentimentos de ódio racial arrefeçam. O racismo no Brasil sobrevive além do preconceito velado. Ele sustenta a desigualdade social através de um sistema judiciário e de uma economia elitistas, e ainda encontra o descaso de políticos que enxergam os negros apenas como massa de manobra, com apelo francamente populista. O brasileiro é racista na teoria e na pratica, em grau similar apenas ao de poucas outras nacionalidades.


    flavioaguilar@gmail.com



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