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    Palimpsesto
    by Lucas Colombo

    Entrevista com um brasileiro
    23/10/2009


    1. Primeiramente, gostaria de explicar que a ideia de fazer esta entrevista partiu de algumas observações minhas sobre o Brasil, sobre os brasileiros, sobre a sociedade do país. Muitos traços do comportamento nacional dão o que pensar, e gostaria de tratar deles com você, de entendê-los melhor, jogar luz sobre. Podemos?
    - Tudo bem. Só não sei até que ponto você pode perguntar sem ofender. Mas estou à disposição, mande lá.

    2. Hum. Bem, comecemos. Você é mesmo um brasileiro típico?
    - Com certeza! Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor.

    3. O que lhe faz ter orgulho do Brasil?
    - Ah, muita coisa... Muita, mesmo. Basta olhar para esse país, que você se apaixona. É ou não é? Temos uma natureza exuberante, um povo cordial e pacífico, a melhor música do mundo, um cinema maduro e variado, escritores que são sucesso internacional, carnaval, futebol... sei lá, tanta coisa!... Na economia, também damos show. Veja os fatos recentes: fomos os primeiros a sair da crise, e seremos grandes produtores de petróleo com a exploração da camada pré-sal! Nossa raça mestiça possui a vocação para constituir o país do futuro. E, como se não bastasse, as Olimpíadas de 2016 serão realizadas no Rio, graças à beleza da cidade e à garra do povo daqui! Isso tudo não é demais?

    4. Vamos por partes. A escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 não se deveu menos à incontestável beleza da cidade e mais aos fatos de que a América do Sul nunca levou os Jogos e de que é ‘politicamente correto’ realizar um evento esportivo mundial num país emergente?
    - Não, não... É uma vitória do povo brasileiro, sim, e da nossa natureza linda. Como disse o presidente, o Brasil venceu porque mostrou emoção, usou o coração. Ganhamos até do lobby do Obama por Chicago! Que tal essa, ganhar do Obama?... Ninguém segura o Brasil!

    5. Ok, vou adiante... Você citou que o povo brasileiro é “pacífico”. Entretanto, o que acontece nas periferias das grandes cidades do país – como, inclusive, acabou de acontecer no Rio de Janeiro – não prova o contrário? E é “cordial” em que sentido?
    - Como “em que sentido”? Cordial no sentido de ser amigo, caloroso, hospitaleiro, simpático. Até o historiador Sérgio Buarque de Holanda – pai de um gênio absoluto da música, o Chico Buarque – já escreveu sobre isso.

    5. Mas será que essa ideia do Sérgio Buarque não é, muitas vezes, entendida erroneamente, ou só em parte? A expressão “homem cordial” foi empregada por ele apenas para designar essa informalidade do brasileiro, que é um fato, ou para fazer uma crítica também? “Cordial” vem do termo latino cordis, que significa “coração”. Sérgio Buarque, portanto, não estaria dizendo que o brasileiro age mais conforme os ditames da emoção do que da razão, que se deixa conduzir demais pelos sentimentos, pelo “coração” – como você mesmo falou há pouco? No livro “Raízes do Brasil”, ele menciona claramente o “predomínio do elemento emotivo sobre o racional”...
    - Imagina, rapaz. Onde é que você vê isso no Brasil?

    6. Em muitos casos. Na política, por exemplo, o afeto não vale mais do que a competência? Nepotismo não é isso? E a incapacidade de delimitar o público e o privado, tão forte na cultura política brasileira, não tem a ver com “cordialidade” também?
    - (pausa). Pode até ter, sei lá... Sinceramente, não estou a fim de falar de política hoje. Acho um negócio meio chato e também tenho amigos na área, prefiro não me meter muito. Faz outras perguntas, aí.

    7. Por política ser assunto “meio chato”, não deve ser debatido? Os tantos problemas que vemos em Brasília não vêm, em parte, dessa desmotivação da sociedade em fiscalizar o comportamento de seus representantes?
    - Cara, não insista. Eu não gosto de falar sobre política, e pronto. Eu sou eu, e você é você. Que preconceito!

    8. Não é preconceito, é uma crítica. Mas você mesmo lançou comentários de fundo político, quando disse que o Brasil foi “o primeiro a sair da crise” e que será o “país do futuro” com o petróleo do pré-sal. China e Índia, porém, não saíram antes, e melhor, da crise? E o petróleo do pré-sal, ainda não é só uma promessa? Ou já começou a jorrar?
    - Peraí, estamos fazendo uma entrevista ou um debate?

    9. Estou tentando fazer uma pergunta.
    - Sei. Mas uma pergunta inconveniente. Vocês, jornalistas, hein... francamente.

    10. “Francamente” o quê?
    - Se acham no direito de criticar tudo.

    11. Bem, criticar é uma das funções da imprensa. E a brasileira, aliás, é uma das menos críticas do mundo.
    - Mas somos bons em muitas outras coisas. Posso te dar vários exemplos. Como o de 2007. Esqueceu? O nosso Cristo Redentor foi eleito, merecidamente, uma das novas sete maravilhas do mundo!

    12. Sim, mas ele tem importância histórica ou estética para entrar numa lista que traz Muralha da China, Coliseu, Macchu Picchu, Chichén Itzá, Taj Mahal e ruínas de Petra?
    - Claro que tem, ele é lindo! Olha, cara, não estou curtindo o rumo dessa entrevista. Se conselho fosse bom, eu vendia, mas vou te dar um: seja mais humilde. Ponha-se no meu lugar pra você ver como são as coisas.

    13. Apenas estou questionando o senso comum, destoando do coro dos contentes. A propósito, você me fez lembrar um ponto importante: por que, no Brasil, quem tem opiniões fortes, quem desconfia do estabelecido e não baixa a cabeça para o status quo, é considerado “arrogante” e pressionado a ser “humilde”, a “concordar com os outros”? Contestação não é salutar e desejável numa democracia? Não contribui para que as questões não fiquem fossilizadas?
    - Não. Só contribui para destruir nossos mitos, nossos símbolos, dos quais devemos nos orgulhar.

    14. E mitos não podem ser questionados? Por exemplo, você afirmou, no início, que o Chico Buarque é um “gênio absoluto” da música. Ele, de fato, é um excelente compositor – mas será que absolutamente tudo o que ele faz pode ser considerado “genial”, conforme a definição do Ezra Pound? As canções recentes dele têm o mesmo vigor daquelas dos anos 1970, por exemplo?...
    - Quiê isso? Escuta aqui: você sabe com quem está falando???

    15. Sei, com você. Calma, por favor. Já que usou tal expressão, por que brasileiro adora dizer “você sabe com quem está falando”?
    - (levanta a voz) Porque serve para responder a sujeitos arrogantes como você, que só falam, falam, e não fazem nada. Falar não adianta nada, meu irmãozinho.

    16. Tem certeza de que não adianta nada? E arrogância não é exatamente dizer “Você sabe com quem está falando?”?
    - Negativo. Arrogância é ficar com esse ar superior, falando de tudo como se entendesse de tudo. Repito: falar não adianta. Importante é agir.

    17. Mas qual o motivo para o brasileiro pensar que falar não é agir? “Falar” não é um verbo de ação?
    - Ih, meu Deus... Começou o papo de gramática. Está insinuando que eu falo português errado?

    18. Não, não... Não leve para o lado pessoal, como vejo ocorrer com a maioria dos brasileiros quando têm argumentos contestados. Olha a “cordialidade” aí. Estou questionando o seu argumento, não a sua pessoa.
    - Humpf. É melhor mudarmos de assunto. Não quero brigar com você.

    19. Ah, boa: por que brasileiro sempre acha que debater é igual a brigar?
    - Amiguinho, não tenho nada contra debate. Apenas não acho legal gente sabichona, gente que emite opinião sobre tudo e que sente prazer em descer o sarrafo num país tão bacana como o Brasil... Nosso país é admirado no mundo inteiro! As Olimpíadas serão aqui! Mas aposto que você é daqueles que a-do-ram os Estados Unidos e acham os estadunidenses o máximo, né?...

    20. E o que uma coisa tem a ver com a outra? Esta também não é uma confusão muito marcante no país – associar crítica ao Brasil a concordância com tudo o que americanos ou europeus praticam e pensam? Como afirmei no início, quis fazer esta entrevista com você para entender alguns traços curiosos da cabeça do brasileiro, para pôr na mesa certas atitudes e pensamentos nacionais sobre os quais é importante conversar, e você topou. Podemos continuar?
    - Tá bom. Vou te dar mais uma chance.

    21. Obrigado. A propósito, sobre a sua resposta anterior: por que brasileiro vive usando palavras no diminutivo? E qual a razão para esse preciosismo de chamar quem nasce nos EUA de “estadunidense”?
    - (sorri) Ah, usar diminutivo é uma coisa carinhosa do brasileiro... Faz parte do nosso jeito amigável de ser. Amizade precisa estar acima de tudo, né? Quanto ao uso de “estadunidense”, bom, você deveria saber disso. Chamá-los de ‘americanos’ é vago. América é um continente, não um país.

    22. Mas está dicionarizado: “Americano – relativo ou pertencente aos Estados Unidos”. O que há de mal em usar esta palavra?
    - E eu com o dicionário? Gramática, dicionário... essas coisas só servem para impor amarras, para humilhar quem não as conhece.

    23. Você não respondeu à pergunta, mas tudo bem: tocou em outro ponto que eu gostaria de abordar. Continue, por favor.
    - Pois é, interessante comentar essa questão do “português correto”. É elitismo querer que todo o mundo fale direito. Não é necessário entender de pontuação, colocação pronominal... essas regrinhas só intimidam! O fundamental é se comunicar, é saber escrever um texto. Mas tem sempre alguém pedindo rigor, cuidado, protocolo... Que neura! Protocolo existe para ser quebrado, isso sim.

    24. Saber redigir um texto é deveras importante. Como, no entanto, é possível escrever bem e inteligivelmente sem saber pontuar, por exemplo? E não é perigoso encarar todo protocolo como algo a ser ‘quebrado’?
    - Pôxa, mas você está mesmo com a corda toda hoje, hein? Não estou gostando dessa sua tendência de querer sempre dar a última palavra. Melhor acabar a entrevista.

    26. Já estou me encaminhando para o final. Não queria terminar sem abordar música e cinema, dos quais você diz se orgulhar tanto.
    - Me orgulho mesmo. Todo brasileiro deveria fazê-lo, aliás.

    27. Bem, que a música brasileira tem qualidade elevada, já se comprovou. Ela se ombreia com o jazz americano. É uma das melhores do mundo, embora tê-la como “a” melhor seja um pouco de exagero. Mas e o cinema? Por que você o considera tão bom?
    - Não sou só eu. Muita gente considera! O cinema nacional cresceu intensamente nos últimos anos. Produzimos filmes ótimos desde a Retomada. Nosso cinema tem-se diversificado e aprimorado. Isso você não pode negar. Até ao Oscar, aquela premiação dos seus “americanos” queridos, já concorremos.

    28. É fato que os filmes brasileiros têm melhorado tecnicamente. Depois de tantos anos, porém, eles não permanecem divididos em filmes “de favela”, comediazinhas bobocas tipo Daniel Filho e experimentalismos tipo Glauber Rocha? Não é só o que se vê na atual produção nacional, esses três eixos?
    - Ah, não... mais um para criticar as temáticas sociais do nosso cinema e não reconhecer a variedade dele... sempre tem alguém torcendo contra... impressionante... Merrmão, você pode falar o que quiser do cinema brasileiro, tá? Só saiba que a maioria tem gostado. E se a maioria aprova, é bom. Ficar só discordando assim, como você procurou fazer durante toda a entrevista, é, se me permite dizer, uma atitude ranzinza. Brasileiro não é dessa maneira, por sinal. Somos um povo doce e alegre. Se você quer saber, eu acredito que a maior contribuição do Brasil para a cultura mundial, a maior de todas, mesmo, é a alegria.

    29. Quem afirmou isso não foi o Sarney?...
    - Amiguinho, vamos encerrar por aqui. Não gostei da entrevista e, além disso, tou meio sem tempo agora. Preciso estudar para um concurso público.

    30. Ok. Agradeço sua disposição. Podemos voltar a conversar em outra ocasião?
    - Poder, a gente pode. Não sei se vou aguentar ouvir você fazendo essas perguntas inconcebíveis de novo, mas posso tentar.

    31. Obrigado pelas declarações. Até a próxima, então.
    - Tchauzinho.


    lucas.colombo@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Lucas Colombo... muito legal o seu texto!!! Aliás, como todos os outros que li. Já "valeu" o dia!!! Abraço. Santelmo Marin