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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Ida ao teatro
    06/10/2009


    A 16ª edição do Porto Alegre Em Cena, transcorrida de 8 a 25 de setembro, mais uma vez conseguiu lotar os teatros da cidade. Além de peças do circuito nacional, o público também teve a oportunidade de conferir montagens internacionais. Espetáculos de diretores consagrados como o americano Bob Wilson (“Quartett”, protagonizada pela atriz francesa Isabelle Huppert) e o francês Patrice Chéreau (“Le Grand Inquisiteur” e “La Douleur”) tiveram ingressos muito disputados. Shows musicais, palestras e oficinas completaram a programação.

    Comento, aqui, quatro espetáculos a que assisti – as peças “Medida por Medida”, de Shakespeare; “Frida Kahlo, Viva la Vida”, de Humberto Robles; “Tercer Cuerpo”, de Claudio Tolcachir; e a performance do grupo vocal israelense The Voca People, um dos novos ‘fenômenos’ da internet. Vamos a eles:


    “Medida por Medida”, de William Shakespeare

    Uma das mais divertidas comédias do bardo inglês, “Medida por Medida” foi apresentada no Teatro Renascença, nos dias 15, 16 e 17 de setembro. O texto, escrito em 1604, ganhou tradução da crítica de teatro Barbara Heliodora, uma das maiores conhecedoras de Shakespeare no país, e é, até onde se sabe, encenado pela primeira vez no Brasil.

    O diretor Gilberto Gawronski – que começou sua carreira nos palcos de Porto Alegre – trouxe do Rio de Janeiro um elenco totalmente masculino, composto por 13 atores, os quais interpretam também as personagens femininas da trama. Trata-se de uma referência à época em que Shakespeare viveu, quando as mulheres não podiam atuar. Isso, inevitavelmente, dá à peça um tom de comicidade, bem trabalhado pelo grupo de experientes e conhecidos atores, como Nildo Parente – ainda se recuperando de um AVC – e Luis Salem.

    Adaptações de textos “clássicos” geralmente ficam mais livres para a criatividade do diretor (isso porque, ao contrário dos dramaturgos contemporâneos, os “antigos” não faziam tantas indicações de cenário, figurinos e etc. no script), e Gawronski não poupa artifícios. Em algumas cenas, dois atores praticam o chamado “tecido acrobático” – coreografias com o corpo suspenso por tecidos – em bonitos movimentos que contribuem para o enriquecimento visual da montagem. A trilha sonora, também, é formada por músicas eletrônicas, o que, no começo, até gera estranhamento, mas gradativamente vai combinando com o contexto do espetáculo. O figurino dos atores, por sua vez, é um misto de roupas medievais com peças de aspecto futurista. Tudo, enfim, foi concebido para ser diferente, mas, no geral, a montagem de Gawronski não chega a surpreender ou trazer algo de realmente novo – embora o público, que aplaudiu bastante, tenha parecido aprovar, sem restrições, a apresentação.

    Marcante, mesmo, é a constatação de que a história do Duque de Viena e do lorde Ângelo, escrita há quatro séculos, segue atual, ao tratar de corrupção, desvios éticos e hipocrisia dos homens no poder, temas ainda muito presentes nas sociedades, especialmente na nossa. Shakespeare sabia como ninguém que o teatro é um ótimo espaço para se discutir as fraquezas humanas. E, em “Medida por Medida”, o fez com uma visão bem humorada – o que é o melhor de tudo.


    “Frida Kahlo, Viva la Vida”, de Humberto Robles

    Se interpretar uma mulher polêmica e de personalidade complexa como a artista plástica mexicana Frida Kahlo (1907-1954) já é difícil, imagine quando o texto prioriza, justamente, as emoções vivenciadas por ela após o grave acidente de trem que sofreu ainda jovem e que lhe rendeu sérias sequelas. Pois a atriz uruguaia Adriana dos Reis não só consegue viver Frida densamente, como deixou perplexo o Teatro de Arena, na noite do dia 17, com sua desenvoltura cênica à frente desse monólogo (*atualmente, monólogos são chamados de ‘solo’, o que, na verdade, é a mesma coisa) de Robles, dramaturgo mexicano.

    Conduzir a encenação sem nenhum tropeço e com envolvimento comovido da plateia não é problema para o diretor Daniel Torres. O palco é dividido em dois ambientes, entre os quais Adriana se move para falar de fases diferentes da vida de Frida, e a iluminação que a acompanha nas marcações, por ser branda no ambiente escuro do teatro, contribui muito para sua intensidade no papel. Texto, atuação e cenografia estavam em equilíbrio, atingindo um bom resultado estético.

    A peça, em seus 55 minutos, traz Frida relembrando os fatos de sua vida, no que percorre fielmente a trajetória artística da pintora e sua história pessoal apinhada de paixões e de envolvimento com drogas. As limitações físicas de Frida, consequências do acidente, não a impediram de continuar investindo no seu talento e na sua criatividade, nem mesmo a deixaram distante do amor. Todos esses nuances da vida da artista mexicana são transmitidos pela encenação e fazem do ato de assistir à “Frida Kahlo, Viva la Vida” uma experiência vibrante.


    “Tercer Cuerpo”, de Claudio Tolcachir

    Já com passagens por edições anteriores do Porto Alegre em Cena no currículo, o grupo argentino Timbre 4 participou novamente do evento neste ano, dessa vez com a peça “Tercer Cuerpo”. O trabalho já foi exibido em mostras teatrais importantes como o Festival Internacional de Teatro (FIT) de São José do Rio Preto, em São Paulo, e em festivais na Bolívia e no Chile. Ambientada em um prédio governamental, “Tercer Cuerpo” apresenta cinco velhos funcionários públicos que “lutam para encontrar um sentido na vida” (desculpem o clichê), em meio a estantes e arquivos típicos de um obsoleto escritório.

    Se a peça não surpreende por sua encenação – bastante tradicional, sem a pretensão de ir além do chamado “teatro clássico” –, tampouco o faz pela atuação do elenco. Os cinco atores – com exceção, quem sabe, de José Maria Marcos – estavam muito frios nos papéis. Talvez não estivessem no seu melhor dia, mas os portenhos realmente não pareciam vivenciar seus personagens, “entrar na pele” deles. Não foi possível verificar um olhar mais forte ou uma fala com elocução mais verdadeira. Tudo bem que a história se passa em um ambiente em que não exatamente ocorrem fatos ‘excitantes’, mas o clima de monotonia da peça não justifica a falta de entrega dos atores para com os personagens. Suas interpretações não precisavam ser igualmente monótonas.

    O texto de Tolcachir (também diretor da montagem) poderia ter rendido melhor apresentação, pois tem humor irônico e a intenção visível de retratar os desejos melancólicos dos agentes públicos e seus sonhos desmanchados através do tempo. O que faltou, mesmo, foi ser mais bem defendido pelos atores. O simpático, mas nada confortável, Teatro Carlos Carvalho da Casa de Cultura Mario Quintana pareceu ter sido ocupado pela peça certa.


    The Voca People

    Extraterrestres também participaram do Porto Alegre em Cena. Bem, não eram exatamente ETs, mas, sim, o grupo vocal israelense The Voca People, certamente um dos destaques desta edição do festival de teatro. Os oito membros do grupo se autodenominam “aliens”, provindos do fictício planeta “Voca”, e são capazes de produzir inúmeros sons apenas com a voz, no que conseguem executar músicas de vários gêneros sem nenhum outro recurso ou instrumento.

    Muitos que foram vê-los no Salão de Atos da UFRGS, no dia 14, sabiam que a apresentação não seria uma “peça de teatro”, mas um show, já que o coletivo tornou-se sucesso no mundo todo depois de divulgar suas performances na internet (a apresentação ao vivo, porém, é insuperável). No entanto, decepcionaram-se aqueles que esperavam um coral erudito, pois o intuito do Voca People, além de fazer rir com suas caras e bocas, é percorrer um repertório variado, desde sucessos populares até composições clássicas.

    No palco, o único “elemento cenográfico” era uma caixa de luzes coloridas, a qual funcionava, cenicamente, como uma espécie de “provedor de energia” para o grupo. Os integrantes, caracterizados com roupas e maquiagem branca (sem dispensar um forte batom vermelho nos lábios, é claro), também desciam à plateia para fazer ‘intervenções’ com as pessoas, que visivelmente se divertiram. Qualquer expressão diferente dos artistas no palco ou uma brincadeira com o público era motivo para fortes aplausos. O caráter variado da apresentação (performance, teatro e música), contudo, não ofuscou o maior trunfo do Voca People: a apurada técnica vocal que os permite imitar sons de diversos instrumentos musicais com a voz – o chamado beatbox.

    O espetáculo do grupo israelense não chegou a ser “coisa de outro mundo”, como muitos, referindo-se aos “ETs”, afirmaram, mas sem dúvida o Voca People conseguiu marcar Porto Alegre com sua performance eloquente e bem ensaiada. Realmente, um show.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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