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    Toca-disco

    Iguaria musical
    Lucas Colombo
    03/07/2009


    Maurício Tagliari e Carlos Fernando
    (Foto: Reprodução)


    Mencionar “quinteto Nouvelle Cuisine” pode desencadear três reações. Os leitores mais bem informados dirão sem pestanejar: “claro, eram músicos paulistas que faziam versões acústicas e delicadas para standards do jazz e clássicos da MPB”. Outros arriscarão: “hum... é aquele que acompanha a Marisa Monte numa faixa do primeiro disco dela?...”. E, finalmente, haverá quem emita um “Hã? O quê?”, talvez pensando que ‘nouvelle cuisine’ é apenas uma expressão para designar o estilo da culinária francesa caracterizado pela leveza e pela sofisticação dos pratos. É a tais pessoas que gostaria de me dirigir, para apresentar essa que foi uma das melhores coisas do cenário musical brasileiro nos anos 1990.

    Antes, esclareçamos: sim, o Nouvelle Cuisine foi um quinteto surgido em São Paulo no final dos horrorosos anos 1980, com a proposta de reler canções americanas em formato acústico e intimista. E, também, sim: o conjunto gravou com Marisa Monte a ária “Bess, you is my woman now”, da ópera “Porgy and Bess”, de George Gershwin. O encontro, registrado no disco de estreia da cantora, “MM”, de 1989, pode ser visto aqui. Embora, porém, seja mais comumente recordado pela performance com Marisa, o Nouvelle Cuisine, por deus!, não se resume a isso (e a Marisa atual, aliás, quase nem lembra a intérprete criativa e refinada de 20 anos atrás). Formado inicialmente pelos músicos Guga Stroeter (bateria e, olha só, vibrafone), Luca Reale (piano e clarinete), Flávio Mancini (baixo), Maurício Tagliari (guitarra) e Carlos Fernando (vocal), o quinteto lançou discos bastante elogiados pela crítica e tocou nas maiores casas de espetáculo do país, para auditórios lotados (depois dizem que não há público para boa música...). Ancoradas nos vocais de Carlos Fernando, as interpretações do NC eram muito suaves, muito cool, cheias de sutileza. O nome do grupo tinha tudo a ver: assim como naquela vertente da gastronomia francesa, os ‘pratos’ servidos pelo Nouvelle Cuisine eram minimalistas e eficientes, elegantemente apresentados, diferentes da sonoridade pop da música brasileira da época, voltada em demasia para a estética do bobo “rock nacional”. O NC teve existência breve, mas marcante – e a história merece ser contada aqui, ainda que resumidamente.

    A revista Veja de 30 de dezembro de 1987, em edição de retrospectiva do ano que se encerrava, deu a seguinte nota, na seção que relacionava os melhores shows do período: “O grupo combina magicamente nostalgia e modernidade. Com novos arranjos para antigas canções românticas americanas e um cantor requintado, o desconhecido Carlos Fernando, o Nouvelle Cuisine (...) transformou-se no mais brilhante representante da nova música produzida em São Paulo. Apenas em shows e sem qualquer disco gravado.” Realmente, o NC começou a chamar atenção antes de lançar o primeiro disco, o que não é lá muito comum. Incomum também era o fato de jovens músicos se reunirem para tocar Cole Porter, Duke Ellington e Rodgers/Hart por gosto e sob tanta personalidade. Com concertos aplaudidos pela imprensa, eles então, finalmente, gravaram um LP, em 1988, batizado com o nome do grupo. O repertório, claro, amparava-se em standards da música americana: “My funny Valentine”, “Day dream”, “St. Louis Blues”... A recepção foi muito boa, e o NC despertou também a admiração de figurões da música brasileira. Tal admiração foi materializada no segundo disco, “Slow food”, lançado em 1991. Aberto à MPB, trazia, entre composições de Charles Mingus e Stephen Sondheim, também uma canção de Caetano Veloso, “Luzes”, feita especialmente para o quinteto, uma participação inspirada de Gal Costa na faixa “Notas”, composição de Carlos Fernando, e produção assinada pelo violonista Oscar Castro-Neves. Alguns prêmios da crítica depois, veio “Novelhonovo”, o terceiro álbum, em 1995, quase que totalmente direcionado à música brasileira: o standard “Stormy weather” (Arlen/Koehler) aparecia sozinho entre canções de Gilberto Gil, Edu Lobo e Carlos Lyra. Os arranjos, porém, seguiam com um pé no jazz. E que bom.

    Dois anos depois, no entanto, Carlos Fernando deixou o grupo, e o NC esvaziou-se. Identificando-se então apenas como “Nouvelle”, os remanescentes chegaram a editar outro disco, “Free Bossa”, em 2000, com repertório que ia de Dorival Caymmi a Otis Redding, mas sem a repercussão de outrora. Hoje, ainda em atividade, o Nouvelle tem, da formação original, somente Guga Stroeter, Luca Reale e Mauricio Tagliari. Quanto a Carlos Fernando, anda meio distante do mainstream. Antes de se desligar do grupo, gravou um (merecidamente) aclamado disco só com composições de Chico Buarque, “Qualquer Canção”, em 1994, ao lado do guitarrista Toninho Horta. Em 1999, já em carreira solo, começou a cantar regularmente no Baretto, discreto e sofisticado bar do Hotel Fasano, em São Paulo. Também parou, contudo, de se apresentar lá. Atualmente, faz shows eventuais, de repertório variado, e trabalha como arquiteto em São Paulo (leia bate-papo com o cantor na seção “Quatro Perguntas”, do blog). Pretende lançar um CD de sambas, intitulado “Quando Para o Samba”, com 16 músicas. As ‘bases’ do disco já estão prontas, segundo ele. Esperemos.

    * * *

    Agora que já apresentei devidamente o Nouvelle Cuisine, deixo a versão do quinteto para “Embraceable you”, de Gershwin (sim, ele de novo, gosto mesmo de sua obra), no player abaixo, com a recomendação forte: procurem ouvir mais itens do fino cardápio desses músicos. Youtube, downloads, sebos de LPs... Satisfação garantida. Na “Embraceable you” disponibilizada aqui – a faixa abre o primeiro disco do NC – pode-se ouvir limpidamente cada instrumento do grupo: guitarra, baixo, clarinete, vibrafone (a citar “Três apitos”, de Noel Rosa, no solo) e, à frente, a voz segura de Carlos Fernando. Ele vai dos graves aos agudos sem desafinar, com ótima dicção, controle do vibrato e fraseado macio e fluente. É um cantor de grande técnica vocal.

    Escrita em 1928 por Gershwin e seu irmão, Ira, “Embraceable you” é uma das canções do célebre musical “Girl Crazy” (1930). Já foi gravada por Chet Baker, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Nat King Cole e Billie Holiday – só entre os que eu lembro. Entretanto, em economia, em atmosfera cool, acho que esta aqui tem apenas a de Chet como páreo. Nouvelle Cuisine, com Carlos Fernando, faz falta. Se voltassem, fariam um bem danado à Boa Música.





    * Faixa extraída da coletânea “E-collection - Nouvelle Cuisine” (Warner Music/2001)

    lucas.colombo@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Gosto tanto da música do Nouvelle Cuisine. Pena que tenha terminado. Acho impressionante o Carlos Fernando, um dos melhores vocalistas que já ouvi, ter deixado a música meio de lado para ser arquiteto. Faz falta. Alexandre Biasi

    Nossa!!! Amo o Nouvelle Cuisine e principalmente o Carlos Fernando. Volta e meia procuro por eles no Google, tentando descobrir o que aconteceu. Hoje, ouvindo a versão com a Marisa Monte, "Bess you is my woman now", resolvi tentar mais uma vez e achei seu site. Finalmente descobri o que aconteceu e faço suas as minhas palavras: O Carlos Fernando faz falta! Espero ansiosamente seus próximos trabalhos. Obrigada! Roberta Ururahy Ramos de Azevedo