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    Redemoinho
    by Flávio Aguilar, de Londres

    Cultura no Underground
    28/08/2009


    (Foto: Miguel Schertel)


    Grande parte da vida do londrino médio se passa debaixo da terra, ou seja, viajando de metrô entre as dezenas de estações que, espalhadas pela cidade inteira, ajudam a fazer Londres ser reconhecida como dona de um dos melhores sistemas de transporte público do mundo. Poucos lugares são melhores em matéria de veiculação de publicidade na capital inglesa quanto os interiores dos trens e das estações, frequentados por milhões de pessoas todos os dias. Do que é exposto nesses inúmeros cartazes e banners eletrônicos, podemos entender um pouco dos hábitos de consumo dos ingleses – incluindo aí a massa de imigrantes que aos poucos tira de Nova York e dá a Londres o título de cidade mais cosmopolita do globo.

    A primeira impressão que temos ao repararmos nesses anúncios publicitários é a de que a cultura, aqui, é um mercado forte, com produtos vendidos e consumidos avidamente. Cartazes de filmes, peças de teatro, musicais, livros, exposições e outros eventos culturais dominam os espaços do underground londrino; um bombardeio de opções ao qual nenhum brasileiro está acostumado. O Brasil, no entanto, têm espaço marcante entre essas centenas de atrações.

    Nas últimas semanas, nomes da terra de Sarney têm sido presença constante nas estações do metrô londrino, com rostos estampados em cartazes que ultrapassam dois metros de altura: o inusitado José Mojica Marins, nosso querido Zé do Caixão; e o óbvio Paulo “Mago” Coelho. Enquanto Zé do Caixão divulga na Europa seu mais recente filme, “Encarnação do Demônio”, com status de cineasta de terror cultuado por um público restrito, porém fiel, o “Mago” coloca à disposição dos ingleses seu último lançamento, o livro “O Vencedor Está Só”, com status de celebridade – um autor respeitado/consumido pelo público e pela crítica europeia.

    Nada melhor do que exemplos brasileiros, mais próximos de nós, para ilustrar a complexidade do mercado cultural inglês, que produz e vende para todos os gostos e consegue manter, assim, tanto o alto padrão de escritores como Ian McEwan e David Mitchell quanto a literatura barata e facilmente digerida de autores como Paulo Coelho e centenas de outros do mesmo nível e sucesso, lidos com voracidade nos nem tão longos trajetos de trem dos subúrbios para o centro de Londres.

    A critica literária britânica não exibe mais o rigor consagrado por Bernard Shaw, assim como o leitor moderno cada vez menos se importa com isso (infelizmente). Desse modo, somos obrigados a conviver com deformidades artísticas como a supervalorização de Coelho, expressa em estantes dedicadas inteiramente a ele em grandes livrarias londrinas, decoradas com a frase “Be Inspired by Paulo Coelho”. Outro exemplo atroz é a presença de “O Alquimista” ao lado de obras como “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, em uma nova coleção da editora Vintage que busca definir os “novos clássicos da literatura universal”.

    Muito além da discussão sobre qualidade, contudo, o caso inglês demonstra a importância da quantidade, expressa no número suntuoso de pessoas com o hábito da leitura, que, invariavelmente, podem mudar e aprimorar seus gostos. Por enquanto, podemos travar uma comparação do mercado cultural brasileiro com o britânico usando escalas diferentes, as mesmas que, talvez, poderíamos empregar para calcular a diferença de qualidade entre os sistemas públicos de ensino dos dois países – aqui, a chave real dos nossos problemas.


    flavioaguilar@gmail.com



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