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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Delírios monumentais
    14/08/2009


    Revi em DVD, recentemente, o grande documentário “Arquitetura da Destruição”, dirigido pelo sueco Peter Cohen e lançado em 1992 (veja trecho aqui). Certamente, é um dos melhores filmes já produzidos sobre o nazismo. Além de um conteúdo muito informativo, o doc ainda apresenta uma interessante tese sobre os desvarios de Adolf Hitler: a de que a organização nacional-socialista foi, também, um projeto estético.

    O objetivo principal do diretor, ele mesmo filho de um judeu refugiado, é demonstrar a intenção do ditador alemão de “embelezar o mundo” através de uma nova arquitetura e da limpeza racial de cunho único, com a eliminação de judeus, poloneses, ciganos e deficientes físicos.

    No desenrolar do filme, sabemos que o próprio Hitler, embora fosse um artista fracassado, criou a propaganda nazista. Desenhou uniformes, bandeiras e estandartes. A insígnia do partido também foi feita por ele, em 1923. Tudo deveria ter um tom cinematográfico e artístico, tanto nas dimensões dos desfiles, como nas coreografias dos soldados, das quais Hitler era o ator principal. O líder nazista, além disso, era fascinado por Richard Wagner. Para ele, diz o filme, o maestro alemão “era o artista perfeito, criativo e político, inspirava o culto ao legado nórdico, bem como o mito do sangue puro”. Essa opinião propiciava um contorno à visão de mundo do Führer. De acordo com Peter Cohen, de Wagner ainda vieram as noções de arte para uma nova civilização. Hitler constantemente afirmava: “O artista-príncipe, nascido do povo, unirá a vida e a arte, anunciando o Estado Novo”.

    “Arquitetura da Destruição” enfatiza toda esta obsessão hitlerista por instituir uma nova forma de se fazer arte, que fosse digna da “nova Alemanha”. Trata, por exemplo, da fundação, em 1928, da primeira organização cultural nazista, a Sociedade Nacional-Socialista de Cultura Alemã, que teve como um dos fundadores Heinrich Himmler, comandante da SS. Mais tarde, essa organização trocou o nome para Defesa da Cultura Alemã. Seu objetivo era impor uma ofensiva contra a arte moderna e levar adiante a política de embelezamento, visto que, para Hitler, as obras dos artistas modernos apontavam sinais de ‘doença mental’ dos seus criadores. Os nazistas defendiam pinturas e esculturas que mostrassem belas paisagens e corpos perfeitos, tais como na arte grega. A arte seria “o espelho da saúde racial”. Foi, porém, outra tentativa frustrada de Hitler, pois os críticos, hoje, avaliam essa arte que ele promovia como sentimentalista e de muito mau gosto.

    Seguindo a ordem cronológica dos fatos, o documentário informa também que, em 1935, Hitler ordenou a produção de filmes e de pequenos documentários com a finalidade de convencer a população da ‘necessidade’ de se acabar com os doentes mentais. Nesses filmes, era salientado que a maioria da população germânica vivia em extrema pobreza, enquanto que as pessoas com distúrbio mental viviam confortavelmente nos sanatórios, sustentados pelo governo. Aos poucos, esta mesma campanha de eugenia atingiu também crianças com alguma deformação e, mais tarde, a população judaica. Cohen resgatou alguns desses filmes e os inseriu no documentário, contribuindo ainda mais para a riqueza de informações dele.

    O perfil psicológico de Hitler é igualmente traçado em “Arquitetura da Destruição”, e de um jeito irônico. Através da narração em off, é revelado um homem que apreciava e citava o autor de livros infantis Karl May e um artista de intelectualidade mediana, um pintor e arquiteto frustrado por não ter conseguido entrar na Academia de Artes de Viena. Até o inicio da 2ª Guerra, o Führer despendeu seu tempo e seu “talento” para a arquitetura desenhando pilhas de projetos, em que esboçava gigantescas construções para seu país, algumas quase impossíveis de serem concretizadas. Estava nos planos de Hitler, aliás, superar Paris esteticamente com a arquitetura que ele desejava para a Alemanha. “Meditei muito se deveria destruir Paris, mas, quando Berlim estiver pronta, Paris será uma sombra. Então por que destruí-la?”, delirou, logo após sua primeira visita a França, em 1940, quando o país que conhecia apenas por fotos e livros estava tomado pelas tropas alemãs. Seus projetos audaciosos incluíam erguer um grande museu na Alemanha e, para isso, confiscou e adquiriu obras de Leonardo da Vinci, Rembrandt e Jacob Jordaens.

    Cohen também mostra a predileção do líder nazista pela Antiguidade Clássica. Cidades-Estado como Esparta e Roma seriam os modelos para a Alemanha não padecer na guerra. Esparta seria “o Estado de raça mais puro”, enquanto que a Roma Antiga, na visão de Hitler, era a república mais poderosa que já existiu. Durante a invasão do território grego na 2ª Guerra, por sinal, foi evitado qualquer bombardeio ao país.

    Mesmo com a guerra já em curso, o ditador alemão ordenou a seu arquiteto e ministro Albert Speer que levasse adiante os projetos de criar obras monumentais em Berlim, a “futura capital mundial”. Entre elas, as construções do Arco do Triunfo – duas vezes maior que o original de Paris – e do Palácio do Führer, um imenso complexo arquitetônico que serviria de residência para Hitler. Na cúpula, abrigaria o maior centro cultural do mundo, com capacidade para 180 mil pessoas. As medidas deste projeto eram inacreditáveis: 17 vezes maiores que a basílica de São Pedro em Roma. Para a entrada, Hitler sugeriu uma imensa estátua de si mesmo, é claro.

    O propósito nazista de eliminar todos os judeus do país – naquilo que foi um dos maiores genocídios da História – também carregava, como “Arquitetura da Destruição” indica, razões ‘estéticas’. As execuções com gás promovidas pela SS começaram em 1941, em Auschwitz, e no ano seguinte Hitler declarou que estava continuando a luta dos cientistas Louis Pasteur e Robert Koch contra as bactérias. “Seremos saudáveis quando eliminarmos os judeus”, dizia ele. Seguindo essa ideia de “limpeza e higiene”, era reproduzido nos principais cinemas da Alemanha “O Judeu Eterno” – outra produção nazista que Cohen insere no documentário –, filme gravado nos guetos da Polônia que comparava judeus com ratos e insetos. A população era incitada a entender que doenças como malária e tifo eram oriundas desse grupo étnico. Segregar judeus, portanto, seria o mesmo que acabar com traças ou piolhos. Esse foi um dos pilares do culto nazista à limpeza e à beleza, à ‘transcendência’ do novo homem alemão. “As câmaras de gás seriam o instrumento principal de embelezamento”, como diz o filme.

    Sem deixar a desejar no que diz respeito à densidade informativa, Peter Cohen consegue ditar ritmo ao filme – coisa rara em documentários históricos – e, durante os 121 minutos em que ficamos ‘presos’ à tela, é possível contemplar, além de todos os filmes doutrinários citados anteriormente, também imagens raras de combate da 2ª Guerra, algumas gravadas pelos soldados alemães em batalhas na Rússia. “Arquitetura da Destruição” é um retrato dos objetivos megalomaníacos de Hitler, para quem, na intenção de embelezar e purificar o mundo, valia tudo, até mesmo destruí-lo totalmente. Ao traçar a história estética do III Reich, levando ao público algumas dessas pouco conhecidas (mas nem por isso menos repugnantes) tentativas nazistas de se elaborar uma “arte pura”, a obra presta um valioso serviço de documentação e informação, ao alcance de todos. Grande filme.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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