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    Toca-disco

    Jobim bossa sempre
    Lucas Colombo
    04/12/2008


    Jobim e Shirley Horn
    (Fotos: Allmusic)


    Este agonizante 2008 foi um período de celebrações ao produto cultural brasileiro mais apreciado no exterior. A bossa nova fez 50 anos, e tal número levou João Gilberto a sair da toca e se apresentar em São Paulo e no Rio, e Caetano Veloso e Roberto Carlos a se reunirem num show em homenagem a Tom Jobim – só para ficar nos eventos mais salientes. O cinqüentenário também estimulou especiais nos jornais e na TV e lançamentos de filmes. Renovou discussões a respeito da importância do gênero para a música mundial e do seu papel no cenário cultural brasileiro nos anos 1950 (quando o Brasil era um país que prometia... e não cumpriu). Além disso, contribuiu, por que não?, para convidar um público mais desatento a conhecer as requintadas harmonias e melodias daqueles músicos – Tom, João, Vinícius, Carlos Lyra, Menescal – que fizeram a bossa ser a bossa. Tudo muito justo.

    Aposto que alguns leitores (você aí, talvez) devem ter estranhado a primeira frase do texto, aquela em que identifiquei a bossa nova como o “produto cultural brasileiro mais apreciado no exterior”. Mas é isso mesmo. Futebol? Novelas da Globo? Fazem mais sucesso de público do que de crítica. Pintura? Só um ou outro nome alcança prestígio, como o que atualmente tem Beatriz Milhazes. Filmes? Poucos despertam admiração, pois realmente são poucos os que se salvam. Reverenciada, mesmo, é a bossa nova. E é uma reverência duradoura. Músicos do mundo todo gostam dela. Os jazzistas americanos, por exemplo, a admiram desde o seu surgimento. Não só porque a bossa tem muito de jazz; se fosse ‘apenas’ jazz, eles não dariam bola, pois sabem fazer melhor. Tem mais do que isso – tem samba no meio. Quando apareceu, a bossa nova era algo de fato inédito: o resultado do ‘mergulho’ do ritmo do samba nas harmonias do jazz (Tom Jobim contestou Paulo Francis quando este comentou que bossa nova era “50% jazz”, porém não negava a influência que tinha de música americana). Foi esse novo estilo, original, feito da combinação da batida do samba com uma harmonia mais sofisticada, jazzística, que fisgou os músicos americanos. E a amizade e o convívio existem até hoje. São inúmeras as parcerias entre jazzistas e bossanovistas ou discípulos de. Citá-las demandaria muito tempo e muitos caracteres. Mas uma boa ilustração de como esse gosto pela bossa nova é grande entre os músicos americanos é o CD “Antonio Carlos Jobim and Friends”, de 1996. Vejamos.

    Em 27 de setembro de 1993, segunda-feira, realizou-se aquela que seria a última apresentação de Jobim no Brasil: um concerto no finado Free Jazz Festival (hoje substituído pelo Tim Festival), em São Paulo. Nele, o maestro cercou-se de figurões do jazz e da MPB para tocar suas composições. O violonista Oscar Castro-Neves e a produtora do festival, Monique Gardenberg, haviam tido a idéia de trazer músicos americanos para prestar homenagem a Jobim no país dele. E conseguiram que grandes nomes como o pianista Herbie Hancock, o saxofonista Joe Henderson, o cantor Jon Hendricks, o baixista Ron Carter e a cantora e pianista Shirley Horn, todos fãs, viessem ao Brasil especialmente para se reunirem em tributo ao compositor. Também participaram o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba, o violonista Paulo Jobim (filho de Tom) e Gal Costa. “Antonio Carlos Jobim and Friends” é o registro dessa noite memorável, em que Hancock tocou “Ela é Carioca” e acompanhou Gal (a voz dela estava meio estranha) em “A Felicidade” e “Se Todos Fossem Iguais a Você”; em que o virtuose Rubalcaba derramou uma balançada “Água de Beber”; em que Jon Hendricks arrasou no scat em “No More Blues”, sua letra em inglês para “Chega de Saudade”; e em que Joe Henderson adaptou seu vigoroso sax tenor à sonoridade cool da bossa em “O Grande Amor”. Jobim apareceu em “Luiza”, ao piano e ao vocal (que soa bastante cansado), e na versão instrumental de “Wave”, em que Hancock assume o piano na metade da música e muda o rumo dela da bossa para o jazz. No grand finale, todos entraram no palco para tocar “The Girl from Ipanema” (veja aqui), com direito a citação, por Jobim, de “Take the ‘A’ Train”, standard imortalizado por Duke Ellington.

    A participação mais marcante, porém, é de Shirley Horn. A cantora e pianista, morta em 2005, era uma intérprete muito pessoal de jazz. Sempre reconstruía as músicas a seu modo. Também admiradora de Jobim, de quem gravou, entre muitas, “How Insensitive” e “Dindi”, ela deu, naquele especial setembro de 1993, vida nova à surrada “The Girl from Ipanema”. E não só por ter mudado o sexo da canção, ora pois. Shirley fez uma versão suingada e acelerada do clássico bossanovista, num estilo bem particular, e bem no ponto. Esta sua “The Boy from Ipanema”, disponibilizada aqui, é tão boa quanto a outra música que interpretou no Festival: “Once I Loved”, versão para “O Amor em Paz”, também presente no CD. Clique aqui, para vê-la no Youtube. Shirley era muito tenra, sabia usar os silêncios e tinha vocal sussurrante. Desenvolve “Once I Loved” economica e suavemente, numa interpretação cheia de sentimento. “Não há mais nada que possa ser dito sobre isso”, fala Hancock, quando ela deixa o palco, no final do vídeo. Não há mesmo.

    Tom Jobim morreria pouco mais de um ano depois, em dezembro de 1994. Suas músicas, contudo, não param nunca de serem ouvidas e tocadas. Coisa de grande artista. Daqui a 50 anos, ainda estaremos falando sobre a riqueza musical da bossa nova. Por enquanto, fique com o “The Boy from Ipanema” de Shirley e Jobim, no mp3 abaixo, e perceba como os clássicos nunca se esgotam. E até o centenário da bossa, em 2058.





    * Faixa extraída do CD “Antonio Carlos Jobim and Friends” (Verve/1996)

    lucas.colombo@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Inesquecível, imperdível, fantástico! Janos