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    Redemoinho
    by Flávio Aguilar

    Poesia sob o tapete
    30/03/2009


    (Imagem: Flávio Aguilar)


    Ao folhear o caderno Cultura, da Zero Hora de 21 de março, tive agradável surpresa: um artigo de página inteira prestava homenagem merecida a Charles Bukowski. O poeta alemão, naturalizado americano, morreu há 15 anos, num 9 de março, e foi essa efeméride que lhe rendeu o espaço obtido em diversos veículos de imprensa nas últimas semanas. Pois bem, a idéia de escrever sobre ele me foi instantânea, a partir do apreço que nutro por sua obra desde os tempos de faculdade – as desilusões regadas a álcool e o ceticismo pela modernidade que marcam sua produção literária encontram no ambiente universitário uma recepção natural. A minha queda recorrente nas efemérides, porém, precisava ter um basta, e engavetei o Velho Safado até segunda ordem.

    Ah, mas chegar em São Paulo e dar de cara com um belo volume de poesias de Bukowski na estante de um bom amigo, numa dessas noites dadas à poesia, foi o empurrão que eu esperava. A melancolia da cidade estranha – primeira viagem à Pauliceia – e o sentimento de pequenez provocado pelo ambiente novo levariam você também, leitor, a ceder aos encantos de “O Amor é um Cão dos Diabos”. Um pouco de Kafka e sua Metamorfose, um pouco de Gogol e seu Capote, a obra de Bukowski é exemplo arrasador da literatura produzida sob as trevas do século passado. Heróis sem rumo, sem fama, dão o tom das mais comoventes obras produzidas sob a égide da Modernidade. Nesse livro, em particular, temos uma série de poemas falsamente despretensiosos. São quase minicontos, à maneira das melhores narrativas do autor.

    Bukowski escrevia como um bêbado contando suas histórias em um bar. A absoluta espontaneidade de seus poemas e romances contrasta com a qualidade das imagens que criava, evidenciando um dom natural à escrita, assim como uma sensibilidade extrema às vicissitudes do loser cosmopolita. Los Angeles foi seu cenário perfeito. Confirmando a qualidade do grande escritor, que sabe criar uma obra universal ambientando suas histórias todas no mesmo lugar, Bukowski encontra em seu cotidiano banal os elementos necessários para dissecar a natureza humana. Sexo, drogas, violência, poesia: o cubano Pedro Juan Gutiérrez tentou trazer para o clima tropical o naturalismo do Velho Safado. O resultado ficou interessante, contudo muito aquém de obras como “Hollywood”, “Pulp” e “Mulheres”.

    Ainda sofrendo sob os olhares enviesados da Academia e dos leitores mais tradicionais, Bukowski não perdeu a alcunha de “autor maldito”. Merece muito mais. Se, no final de seus dias, ganhava a vida fazendo leituras em universidades americanas, o pouco caso que não deixou de fazer dessas instituições acabou perpetuando-o como guru de muitos artistas que, nadando contra a corrente, preferem o underground ao mainstream.


    flavioaguilar@gmail.com



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