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    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    O fato que não aconteceu
    04/03/2009


    Era uma vez uma jovem brasileira, de 26 anos, chamada Paula Oliveira. Ela era advogada e, havia dois anos, morava na Suíça, um dos países mais desenvolvidos do mundo. Lá, tinha um ótimo emprego e um namorado muito bacana. Parecia viver feliz. Num belo dia, anunciou para o namorado, família e amigos uma nova que selaria a sua total felicidade: estava grávida, de gêmeos!

    Dias depois, porém, ao caminhar na rua em Zurique, Paula foi cruelmente atacada por um grupo de neonazistas, ligados ao partido SVP, que se opõe à entrada de estrangeiros na Suíça. Os agressores a feriram com canivete, em várias partes do corpo. O ataque a fez abortar. Paula ligou para o seu pai no Brasil e contou o ocorrido. O homem, chocado, denunciou o caso para o jornalista Ricardo Noblat, inclusive repassando fotos dos ferimentos no corpo da filha. A imprensa brasileira imediatamente divulgou o grave episódio, e o caso repercutiu no país e no mundo todo. Que história impressionante, não?...


    Seria muito impressionante... se não tivesse se provado uma farsa. Paula Oliveira foi desmentida pela polícia suíça e por técnicos do Instituto Forense de Zurique. Exames comprovaram que ela nunca estivera grávida e que os ferimentos teriam sido feitos por ela mesma. Amigos no Brasil disseram que a moça costumava inventar histórias para impressionar os outros. E comprovou-se que a imagem de ultrassom que ela mandara aos familiares não era dela. O relato do que seria um caso gravíssimo de xenofobia, enfim, desmoronou em poucos dias.

    Com a poeira baixada, o que ficou evidente nesse caso, e de forma gritante, foi o comportamento constrangedor da imprensa brasileira na cobertura do ‘ocorrido’. Ficou patente a precipitação dos jornais, sites e emissoras de TV ao anunciar uma história que passou de “furo” dado por um respeitado jornalista para uma tremenda furada. Num efeito dominó, todos foram atrás da informação divulgada por Ricardo Noblat, sem ouvir outras fontes, sem checar melhor, sem desconfiar. Na ânsia de relatar casos novos, de informar “em primeira mão”, nossa imprensa esqueceu um preceito básico do jornalismo: apurar os fatos e buscar fontes confiáveis.

    As emissoras de TV, que adoram explorar um drama pessoal, talvez tenham sido as que mais erraram. A Rede Globo, por exemplo, comentou exaustivamente o caso e chegou a enviar o repórter internacional Marcos Losekann para a Suíça – o que acabou sendo um verdadeiro desserviço, já que ele foi para lá a fim de cobrir um fato que não existiu... Nenhum repórter entrevistou a “vítima”, ou o policial que a atendeu na rua, ou alguma testemunha do suposto ataque. Os veículos mantiveram como única fonte o pai de Paula, envolvido pessoalmente no episódio, com seu instinto de proteção aflorado...

    E os ‘micos’ não pararam por aí. A grotesca assessoria de imprensa do presidente Lula permitiu que ele se pronunciasse em defesa da brasileira, mesmo no calor das primeiras informações. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, seguiu a mesma onda e não perdeu tempo: declarou diversas vezes que estava empenhado no caso e, completando o papelão, convocou o embaixador da Suíça ao Palácio do Planalto para dar maiores explicações. Governo e imprensa produziram um clima de nacionalismo a la Hugo Chávez; e todo o país ficou indignado com a história da compatriota... (Para tratar de tom ufanista em jornais, aliás, não precisamos ir muito longe. Ao observar as manchetes aqui do RS, temos a impressão de que os gaúchos dominam o mundo: “Piloto da aeronave que caiu no AM era gaúcho”. Os editores desta província conhecem a fórmula: se há gaúchos envolvidos no fato, pode publicar).

    Limitação, falta de critérios, nacionalismo exagerado... os problemas da postura da imprensa nesse caso foram muitos. Sensacionalismo, também. Realmente não dá para aceitar que a coisa toda vire um reality show. A agressão não se provou verdadeira; a jovem deve ter problemas psiquiátricos e é necessário ajudá-la, mas é inadmissível que, sendo qual for a história, se transforme tudo em espetáculo, como o que muitos veículos fizeram. Neste ‘gato’ jornalístico, o único culpado é quem embarcou, em muitos momentos festivamente, no conto.

    Hoje, o caso da ilustre desconhecida atacada na Suíça, que incitou a brasilidade e indignação do nosso bravo povo, ocupando as primeiras páginas dos jornais e as manchetes televisivas durante dez dias, já quase foi esquecido (com o carnaval tendo contribuído para isso). O caso recebe agora apenas notinhas nas seções internacionais dos diários. Mas o porre jornalístico ainda é causa de ressaca. Foram lamentáveis a precipitação e a tentativa de se criar uma “onda patriótica” em torno do caso. Todo esse imbróglio tem muito a ensinar aos jornais e aos brasileiros. Checagem, disciplina e calma não fazem mal a ninguém. Vamos refletir, todos.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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    Comentários dos leitores


    Grande Leandro... excelente leitura do caso Paula Oliveira. Contribuo dizendo que muitos veículos, supostamente "menores", entram nessa onda das grandes emissoras, utilizando textos de agências internacionais, sem fazer uma análise mais detalhada. Grande abraço. Santelmo Marin