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    Entrevista - Daniel Piza

    Tipo raro
    Lucas Colombo
    14/11/2008




    Autor da “Sinopse”, a melhor coluna de cultura da imprensa brasileira, veiculada aos domingos no Estadão, Daniel Piza é daquele tipo cada vez mais raro de jornalista: o cabeça pensante. Em seus textos, sempre habilmente redigidos, ele discute livros, filmes, pintura, política e futebol sem lançar mão de idéias feitas. Sim, como bom admirador de Machado de Assis, seu biografado, que escreveu “Eu gosto de catar o mínimo e o escondido; onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu”, Piza se destaca por seus comentários certeiros e irônicos contra aqueles senhores tão benquistos por tanta gente no Brasil, até por muitos que se consideram “formadores de opinião”: os senhores Senso Comum e Politicamente Correto. Suas análises não são apressadas, são densas. O colunista questiona tudo o que lê e vê, argumenta, e põe suas opiniões no papel (no Word...) com elegância e perspicácia. É, já deu para perceber que eu gosto bastante do trabalho dele.

    Piza começou no jornalismo aos 21 anos, no Estadão, como repórter do Caderno 2. Pouco depois, foi para a Folha de S. Paulo. Passou ainda pela Gazeta Mercantil, onde foi editor e colunista do caderno Fim de Semana. Voltou para o Estadão em 2000, como colunista de cultura e editor-executivo. A coluna sobre futebol veio em 2004, e o seu blog, em que posta diariamente, em 2006. Já publicou 15 livros. Entre eles, “Brasil na Cabeça”, perfil de Paulo Francis, que foi seu amigo e incentivador, e “Jornalismo Cultural”, obra que deveria ser lida – ou melhor, devorada – por todo jornalista que pretenda atuar na editoria de cultura de algum periódico (ou lançar um site focado na área...). Seu último livro saiu agorinha, no início de novembro: “Aforismos sem Juízo” é uma coletânea das máximas (como “Quem não tem opinião, a opinião o tem”) que publica ao pé da “Sinopse”, todo domingo.

    O jornalista também já traduziu nomes como Henry James, Herman Melville e H. G. Wells. Lançou sua biografia do nosso maior escritor, “Machado de Assis – Um Gênio Brasileiro”, em 2005. Neste centenário da morte do Bruxo, aliás, Piza marcou presença em várias ocasiões: especiais na GloboNews e no Estadão, entrevistas no rádio e até palestra na universidade Sorbonne, em Paris. Também trabalhou, ao lado do diretor Luis Fernando Carvalho, no roteiro de “Capitu”, minissérie que a TV Globo estreará em dezembro.

    Nesta entrevista, concedida por e-mail, Piza fala sobre jornalismo cultural, jornalismo esportivo, incentivos públicos à cultura, Iberê Camargo e, claro, muito Machado de Assis. Que nunca é demais.


    1. Caro Piza, você lançou a sua biografia de Machado de Assis no final de 2005, e, embora a maioria das resenhas sobre ela tenha sido positiva, houve algumas críticas negativas desmedidas, que chamaram bastante a atenção: uma do professor Luis Augusto Fischer, e outra da seção cultural da Veja. Você chegou a travar uma polêmica, pelo Zero Hora, com o Fischer, cuja resenha fazia um escarcéu em torno de alguns erros pontuais, corrigidos na segunda edição. A Veja, por sua vez, usou adjetivos bastante pesados para se referir ao livro. Duas perguntas: a “crítica” que o Fischer endereçou à biografia não é representativa de um tipo de comportamento que os acadêmicos brasileiros têm, que é o de não valorizar trabalhos de jornalistas, considerá-los superficiais e descuidados? E a crítica da Veja, também não é representativa de um tipo de comportamento do “jornalismo cultural” brasileiro – um comportamento que você mesmo, depois, definiu como “casca-grossa”?
    Piza – Sem dúvida. O Fischer ainda fazia questão de lembrar que sou jornalista “paulista”. O Wilson Martins nem escondeu: “sendo jornalista, Daniel Piza etc etc”. O John Gledson se queixou de que meu livro não tem notas de rodapé. Enfim, parece que um jornalista paulista escrever sobre o gênio nacional numa linguagem acessível é uma espécie de pecado. Ainda bem que os leitores continuam gostando do livro, que agora chegou à terceira edição... E que ouvi elogios de autores muito mais importantes como Carlos Heitor Cony, Lygia Fagundes Telles, Milton Hatoum, Antonio Carlos Secchin, Roberto Pompeu de Toledo, Rubens Ricupero, Fabrício Carpinejar, Nélida Piñon... Até na Sorbonne falei sobre o livro. Quanto à Veja, todo mundo sabe que usa a editoria de cultura para perseguir desafetos pessoais. Curiosamente, recusei em duas ocasiões ser o editor cultural dessa revista.

    2. E há também, no jornalismo cultural brasileiro, o oposto a isso que a Veja fez: a crítica acanhada.
    Piza – Esse é o problema. Nossa crítica é dividida entre a turma do oba-oba e a turma dos ressentidos.

    3. Na sua coluna sobre o centenário da morte de Machado, você desfez certos mitos criados em torno dele. Gostaria que você desfizesse mais alguns:
    - Mito n. 1: “Machado é melhor contista do que romancista”.

    Piza – Esse é de sua primeira biógrafa, Lúcia Miguel Pereira. Ele foi um extraordinário contista. Mas quem vai dizer que “Brás Cubas” e “Dom Casmurro” são inferiores a “Missa do Galo” e “A Cartomante”?

    - Mito n. 2: “Machado não se interessava muito pelas questões do seu tempo” (esse chega a doer...).
    Piza – Meu livro inteiro é sobre isso. Machado leu o Brasil como ninguém. Era monarquista, mas abolicionista e democrático. E mostrou como a alma brasileira vive num Fla-Flu eterno, como um adolescente romântico.

    - Mito n. 3: “Machado não era politizado” (outro que dói...).
    Piza – Ele sabia que a arte era mais duradoura do que a política. Inclusive para revelar a política...

    - Mito n. 4: “Machado foi um crítico da elite”.
    Piza - Essa é a hegemonia ainda presente do marxismo em nossos departamentos de letras. Roberto Schwarz criou essa idéia e quase ninguém ousa contestá-la. Mas Machado era crítico de todas as classes, da humanidade, e não um opositor do capitalismo.

    4. Machado vivenciou fatos históricos importantes para o Brasil, como a Guerra do Paraguai e a abolição da escravatura, e escreveu sobre eles. Também admirava D. Pedro II, imperador culto, interessado em literatura e artes e preocupado com a educação (embora o analfabetismo, no Brasil da segunda metade do séc. 19, acometesse a maioria esmagadora da população). Farei aquela pergunta inevitável: se Machado vivesse hoje, o que escreveria sobre o Brasil? Estaria entre os 80% de brasileiros que aprovam Lula?
    Piza – Claro que não. Machado não aderia ao sentimentalismo da hora. Veria no governo Lula o mesmo velho problema brasileiro, a cultura oligárquica, em que os grupos se alternam no poder sem alterar a estrutura desse poder.

    5. Como todo grande artista, Machado é sempre atual (perdão pelo clichê...). Uma das coisas que mais gosto na obra dele é o fato de o Brasil estar todo ali, nas entrelinhas. Só para citar um exemplo: em “O Alienista”, as ‘manobras’ que a câmara de vereadores de Itaguaí faz para sustentar a Casa Verde, criando tributos absurdos, são perfeitamente identificáveis no Brasil de hoje, mais de 120 anos depois da publicação do conto. Quem lê Machado conhece melhor o país, não?
    Piza – Sem dúvida. “O brasileiro nasceu com a bossa da ilegalidade”, disse ele. Foi ao ponto.

    6. Deixando Machado um pouco de lado, mas ainda falando de literatura: nessa área, você já emitiu opiniões que, certamente, irritaram fãs ardorosos. Por exemplo: você afirmou, certa vez, que não aprecia realismo fantástico, e muita gente cai de amores por Gabriel García Márquez e Isabel Allende. Por que você não gosta?
    Piza – García Márquez admiro pela técnica narrativa, especialmente em “O Outono do Patriarca”. Mas aqueles fantasmas mudando o curso da história nos livros de Isabel Allende não me parecem nada além de uma solução fácil, feita para agradar aos leitores que acreditam em vida pós-morte.

    7. Indo para as artes visuais: você já visitou, em Porto Alegre, a bela Fundação Iberê Camargo. Você acha, e eu também, que o Iberê talvez seja o maior pintor brasileiro. Ele, no entanto, não é muito lembrado quando se fala de pintura brasileira. Geralmente, quando o assunto é esse, os mais citados são Tarsila, Portinari, Di Cavalcanti... Por que, na sua opinião, o Iberê não é tão lembrado e estudado como deveria?
    Piza – Aqui em São Paulo a mania é falar só em Volpi, nos construtivistas, no Oiticica... Iberê é indigesto; sua pintura é expressionista, angustiada, figurativa, não faz concessões emotivas de nenhuma espécie como as de Tarsila e Portinari fazem. É muito “denso” para a cultura da alegria nacional...

    8. Vieram à tona aqui no RS, recentemente, irregularidades no uso da Lei estadual de Incentivo à Cultura. Na prestação de contas de um filme feito no estado, aparecia até pagamento de perfume importado e multas de trânsito. Além deste grave emprego indevido de recursos públicos, que deve ser mais bem esclarecido e punido, há outras distorções no âmbito dessas leis. Você já escreveu que uma das deformidades é a ajuda a grandes eventos que não precisariam de incentivo – apresentações do Cirque du Soleil e shows de pop stars como a Ana Carolina, por exemplo. É claro que essas distorções têm de ser corrigidas, mas eu vou além: um mundo ‘ideal’ não seria aquele em que as manifestações culturais fossem realizadas sem ingerência oficial?
    Piza – Seria. Mas em toda parte do mundo há ações culturais para ajudar, por exemplo, orquestras a se manter, pois o mercado não dá conta. E alguns mecanismos de incentivo e proteção. Mas o que não dá é ter 80% dos investimentos culturais bancados pelo contribuinte. As leis ajudam os diretores de marketing que querem fazer uma publicidade vip – patrocinar um grande evento cultural – abatendo até 100% dela em impostos...

    9. Você também escreve sobre esporte e cobriu as Olimpíadas de Pequim para o Estadão. Eu lia o seu blog no período, e algo que você criticou, e eu concordei muito com a crítica, é esse ufanismo quixotesco que emana das coberturas esportivas no Brasil. Essa história de que “ninguém segura o Brasil”, “os atletas brasileiros vão arrasar”, etc. Um discurso sem equilíbrio, sem ponderação. Por outro lado, você também afirmou não gostar daqueles que exageram no discurso antiufanista, que dizem que o fracasso está no DNA do brasileiro, que o povo brasileiro nunca chegará a altas posições... Comente um pouco mais sobre isso, sobre esses extremos.
    Piza – O brasileiro é assim, né? Ou somos os melhores do mundo, ou os piores, os amarelões... Se somos bons, é porque nossa raça mestiça tem a vocação para isso; se vamos mal, é porque nosso DNA impede. Que infantilidade! Passou da hora de o Brasil parar de associar discurso racial e esporte, de ver isso como questão de honra. Esporte ajuda a aproximar pessoas e inspirar exemplos, mas não define a superioridade ou inferioridade de uma nação.

    10. Já li uma entrevista sua em que você dizia ter influência de Paulo Francis, Millôr Fernandes, Ivan Lessa, entre outros. Você, porém, ao contrário desses, não faz tanto uso do humor nos seus textos. Por quê? Não considera o humor uma ferramenta interessante?
    Piza – Meu humor é de outra natureza. A turma do Pasquim me influenciou pela liberdade, coloquialidade, variedade de temas. Mas do outro lado li muito autores como Machado que são mais sutis e não gostam de exagero. Tenho um humor mais sério, mais cético. Vide meus aforismos.

    11. Para finalizar, uma pergunta IMPORTANTÍSSIMA: é muito grande a EMOÇÃO de saber que eu te considero um mestre e que seu trabalho é uma referência para o meu???...
    Piza – Fico feliz, sim. Sempre me disseram que meu tipo de jornalismo não daria certo, não teria leitores. Erraram muito.


    lucas.colombo@minimomultiplo.com



    * Atualização (maio 2010) - Quatro Perguntas para Daniel Piza, no MMblog.


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